Fãs brasileiros criam ‘Maracanã’ em Nova York, mas não foi suficiente. Reportagem de Romantsov – Cozinha da Alma

Impressões de dentro da Copa do Mundo de 2026.

Por volta do décimo minuto, no auge da pressão entusiasmada dos marroquinos, nas arquibancadas, um pouco à minha direita, um conflito irrompe. Um torcedor do Marrocos está indignado com o comportamento descontrolado de um dos brasileiros e tenta partir para a briga, mas é contido pelas pessoas sentadas entre ele e o brasileiro.
Ainda assim, o marroquino não se acalma e anuncia em voz alta um confronto com o brasileiro durante o intervalo. A história termina como deveria em uma Copa do Mundo – em paz. Após o gol de Ismaïl Saibari aos 21 minutos, o torcedor marroquino finalmente consegue chegar até o brasileiro, mas apenas para apertar sua mão com um sorriso e fazer as pazes.

O sábado em Nova York e Nova Jersey era aguardado com certa apreensão. Em um único dia – o primeiro jogo do campeonato mundial na região e a possibilidade do primeiro título de basquete do “Nicks” em meio século.
Quando a série final da NBA contra o “Spurs” chegou a 3:1, os fãs bloquearam o trânsito, subiram em telhados de carros e andaimes, garrafas foram lançadas contra a polícia, que respondeu com spray de pimenta, e uma torcedora, ao ser detida, mordeu o braço de um policial.
A euforia do futebol foi agravada pelo fato de os organizadores terem fechado os estacionamentos privados em frente ao estádio – e 80.000 torcedores tiveram que chegar ao local usando transporte público.

Enfim, estes fins de semana foram chamados aqui como os mais tensos da história moderna da aglomeração de Nova York.
Por via das dúvidas, vou ao estádio cerca de seis horas antes da partida e acho que serei um dos primeiros a chegar, mas há pessoas que são impossíveis de superar: entro no centro de imprensa e a primeira pessoa que vejo é Alan Shearer – ele trabalha aqui como especialista da BBC. Se você não conhece a lenda da Premier League, pode facilmente confundi-lo com um jornalista comum.
Alguém como, digamos, Kayke Silva, da TMC Esporte – antes do jogo, pergunto a ele sobre dois jogadores do Zenit na equipe de Carlo Ancelotti: na Rússia, nem todos entendem a confiança que o treinador deposita neles – e no Brasil, como é?
“Luiz Henrique deixou uma ótima impressão graças à sua excelente temporada no Botafogo e sempre correspondeu às expectativas na seleção, entrando muito bem como substituto”, diz Silva. – Sem Estevão (ele está lesionado no tendão do joelho), ele é o jogador com características mais semelhantes.
Douglas Santos é um lateral-esquerdo, e o Brasil tem poucas opções de qualidade nessa posição no momento. Acho justo sua convocação para a seleção, embora seja uma pena que não tenhamos mais tantas opções de jogadores de alto nível como antes.

Douglas é um bom jogador, mas não do nível ao qual o Brasil está acostumado. Seu ponto forte é o apoio ao ataque, mas na defesa ele comete erros, então não há um equilíbrio perfeito. Ainda assim, acredito que ele será importante nesta Copa do Mundo, especialmente porque o outro lateral-esquerdo, Alex Sandro, está tendo uma temporada ruim no Flamengo.
Já Luiz Henrique, com seu drible, será útil para quebrar as defesas adversárias que jogam fechadas, bem recuadas. Acho que ele tem chances de se firmar no time titular ao longo do torneio.
No final, Douglas foi talvez o melhor entre os quatro defensores brasileiros, enquanto Luiz Henrique se limitou a passes promissores para Rafinha e Danilo nos últimos trinta minutos.

Luis Enrique vive no mundo quase o mesmo tempo que os brasileiros esperam por um novo ouro na Copa do Mundo: nasceu um ano e meio antes da vitória da equipe de Luiz Felipe Scolari na Copa do Mundo de 2002.
Relembrando os tempos gloriosos, os brasileiros exibem antes do jogo cinco enormes banners com imagens dos líderes de todas as equipes campeãs: Didi, Garrincha, Pelé, Romário e Ronaldo.
O Fenômeno (conhecido aqui também como Dentuço) assistiu ao jogo na companhia de Gianni Infantino, Kaká e Roberto Carlos – e, no primeiro quarto da partida, deve ter percebido que sua recente previsão (“Com Ancelotti, o Brasil tem ótimas chances de conquistar o sexto título”) era excessivamente otimista.
O técnico da seleção de Marrocos, Mohamed Ouahbi, gabou-se na véspera de ter lido todos os livros de Carlo e insinuou que o conhecimento de todos os segredos do adversário poderia ser uma vantagem.
Os marroquinos justificaram as recentes palavras de Hakimi (“Nos chamam de brasileiros africanos”) e jogaram de forma que obrigaram Ancelotti a se desculpar com os torcedores, que criaram em Nova York uma atmosfera de “Maracanã”: as arquibancadas estavam coloridas, mais ou menos como em um jogo do Spartak em Rostov – maioria amarela e setores vermelhos significativos. Pedir desculpas por seus jogadores terem perdido muitos duelos e frequentemente a posse de bola.
“Acho que começamos o jogo muito mal”, acrescenta Vinícius, que empatou a partida. – Depois de sofrer o gol, foi difícil entrar no jogo. Precisamos melhorar a posse de bola, o adversário lançou contra-ataques muito rápidos. Precisamos evoluir”.

Após o apito final, os elevadores para a imprensa estão temporariamente fora de serviço, e desço para a rua cercado por pessoas de camisas amarelas. Tem de tudo aqui: Pelé, Ronaldo, Adriano, Rafinha, Ronaldinho.
Percebo entre eles um marroquino vestindo a camisa de Mustapha Hadji – o melhor jogador da África em 1998, que passou cinco anos na Premier League. O rapaz está um pouco chateado, pois após a primeira metade do primeiro tempo, ele estava confiante na vitória, mas, no geral, está animado.

Sua seleção provou que o sucesso na Copa do Mundo de 2022 não foi por acaso.

Foto: Denis Romantsov; Gettyimages /Dan Mullan, Adam Gray, Darrian Traynor, Al Bello




