Futebol

Série Clone – por que se tornou cult na Rússia e conectou Brasil e Marrocos

«Professora de língua russa citou a sábia Zoraide».

«O Clone» é uma novela brasileira lançada em 2001, com 250 episódios. Apesar de estrear um mês após os ataques de 11 de setembro nos EUA e do clima de tensão em relação aos muçulmanos, a série se tornou um sucesso mundial e foi transmitida em 90 países.

Na Rússia, “O Clone” é um fenômeno cult que deixa marcas mesmo após 25 anos. A que se deve essa hiperatenção? De onde surgiu essa influência das novelas brasileiras na vida russa (e até na política)? Como ele é lembrado após décadas?

Qual a especificidade de “O Clone”: temas atípicos e a construção de uma cidade para retratar o mundo muçulmano

“O Clone” não é apenas uma melodrama clássico, mas uma história com um subtexto social. Nele, a trama romântica se mistura com temas de religião, problemas sociais e o choque de culturas opostas. A autora da novela, Glória Perez, foi além da estrutura narrativa clássica no roteiro: clonagem, dependência de álcool e drogas, conexões políticas, conflitos geracionais. Assim, o Primeiro Canal anunciou a exibição de “O Clone” na Rússia: “A dança do ventre é apenas um dos detalhes. Os atores tiveram aulas de árabe, Corão e culinária. Na trama, a bela Jadhe, de 18 anos, após uma tragédia familiar, deve ir para o Marrocos. As gravações no país duraram 40 dias. Deserto do Saara, calor de 50 graus e paixões ardentes. E, ao retornar ao Brasil, uma réplica exata da cidade marroquina de Fez foi construída em uma área de 830 m².

A influência de “O Clone” na sociedade é sem precedentes: no Brasil, surgiu um programa social específico para ajudar dependentes químicos, pois o tema é abordado na novela. A trama mais incomum do mundo em uma novela tem 250 episódios. Mas talvez seja assim que serão as telenovelas da nova era.

“O Clone” se destacou pela estética visual e pela atenção aos detalhes, desde a construção de uma cidade improvisada até a compra de joias caras. A designer de interiores Evgenia Ivlieva, para a Glamour, destacou a qualidade dos cenários de “O Clone” como um elemento importante para transmitir a atmosfera oriental:

“A série é interessante porque mostra não apenas as casas ricas e pobres do Brasil, mas também retrata muito bem os interiores do Oriente. Quando os protagonistas se mudam de Marrocos para o Rio de Janeiro, eles decoram suas casas com um toque de exotismo oriental. Isso foi feito de forma espetacular, com uma clara distinção entre o Ocidente e o Oriente. Destaque especial para a residência de Said: arcos, tapetes, dourados, tecidos luxuosos e louças bonitas.

Outro exemplo impecável de design em estilo oriental é a casa do tio Ali. É uma residência oriental tradicional, com um pátio interno aberto, cercado por colunas, e muitas salas, piscinas e fontes, tudo revestido com azulejos. Há milhares de detalhes para apreciar e desfrutar.”

Por que as novelas brasileiras eram tão amadas na Rússia e como influenciaram a realidade russa, através da política, da língua e do cotidiano

“O Clone” foi a continuação e o ápice da onda de melodramas brasileiros na Rússia. Em outubro de 1988, a União Soviética lançou “Escrava Isaura”, o primeiro sucesso televisivo que se encaixava na ideologia soviética e impulsionou a direção latino-americana. Seu sucesso foi seguido por “Tropicaliente”, “O Segredo de Tropicaliente”, “Muneca Brava” e outras séries.

Sua base são histórias do cotidiano sobre família, amor e vida diária. A trama, estendida por dezenas ou centenas de episódios, constantemente muda de perspectiva e introduz novas intrigas, mantendo o público engajado. Nos anos 90, a novidade desse formato, a descoberta de uma vida diferente e o realismo e empatia pelas histórias aumentaram sua popularidade.

“A série mostrava uma vida completamente diferente da que tínhamos na época”, explicava Snezhana Maznova, que viveu na União Soviética durante a infância, mas se mudou para o Brasil em 2006. “Sob o regime soviético, éramos todos iguais, então assistíamos e pensávamos: ‘O que significa ter alguém só para cuidar do guarda-roupa?’ Parecia um conto de fadas e deixou a imagem do Brasil como um país exótico, com casas coloridas. Na União Soviética, todas as casas eram iguais.”

Graças à novela “Escrava Isaura”, a palavra “fazenda” se consolidou no léxico russo. Segundo Maznova, o conceito de um espaço rural onde uma família rica viveria causava espanto na URSS: “Na época soviética, só tínhamos o kolkhoz, a propriedade privada não existia”.

Nos anos 90, a influência das novelas brasileiras foi usada como alavanca política. Duas histórias de José Roberto Filipelli, que por 20 anos trabalhou com vendas de novelas da Globo no mundo e, em 2021, lançou um livro de memórias chamado “O Melhor da Televisão Mundial”. Ambas são sobre as eleições presidenciais na Rússia em 1996:

• Sobre a novela “O Segredo da Tropicalia”: “Certa vez, um jornalista russo abordou Glória Pires [que interpretou a protagonista] solicitando uma entrevista. A atriz, por sua vez, recorreu a Geraldo Casé, que na época era diretor artístico do departamento de vendas internacionais da Globo.

Casé me ligou, e após conversar com ele, falei com o jornalista russo, que confirmou o grande interesse na entrevista – segundo ele, seria útil para promover a novela entre o público potencial. Enfim, nada nos pareceu suspeito.

Eles nos enviaram uma lista de perguntas, às quais Glória respondeu por escrito, e repassamos suas respostas ao lado russo. O que não sabíamos era que a entrevista seria publicada em um jornal de campanha envolvido na eleição de Boris Yeltsin, e que as palavras de Glória seriam completamente distorcidas.

A matéria começava com: “Se fosse possível, Glória Pires votaria em Yeltsin”. Ainda atribuíram a ela uma frase do tipo: “Invejo os russos, que podem votar em um democrata, um construtor…” Glória claramente não disse isso.

A atriz ficou tão indignada que até considerou processar a publicação russa, e acabou fazendo um comentário contundente no noticiário nacional da Globo, condenando os assessores de imprensa de Iéltsin e negando as declarações atribuídas a ela pela publicação russa;

• Sobre a novela “Nova Vítima”: “De acordo com pesquisas, Iéltsin vencia nas grandes cidades, mas perdia significativamente para seu oponente nas áreas provinciais. Naquela época, muitos russos tinham dachas – casas de campo com terrenos onde passavam férias e fins de semana. Nem todas as dachas tinham eletricidade, o que dificultava assistir à televisão.

Como o dia da eleição coincidia com um fim de semana, havia a possibilidade de que os eleitores das grandes cidades fossem para as dachas e ignorassem a votação. Os consultores políticos americanos que trabalhavam na campanha de Iéltsin perceberam a urgência de manter os eleitores nas grandes cidades.

Dado o enorme sucesso de “Nova Vítima” na Rússia, a campanha de Iéltsin decidiu usar a novela no final da campanha eleitoral como um elemento crucial para manter os eleitores nas grandes cidades. O principal canal de televisão russo anunciou que, durante o fim de semana das eleições, vários episódios de “Nova Vítima” seriam exibidos. Além disso, o episódio final estava programado para ir ao ar no próprio dia da eleição.

Jornalistas de todo o mundo cobriram as eleições na Rússia e observaram o fenômeno com espanto. Todos os jornais ocidentais noticiaram a manobra dos estrategistas de Iéltsin: “Nova Vítima” até chegou à primeira página do New York Times.

Segundo Filipelli, após a compra de “Escrava Isaura” pela URSS e pela Rússia, ambos se tornaram consumidores leais de produções brasileiras e, pelo menos até 1999, compravam duas ou três novelas por ano. A mudança de regime político não afetou a parceria e a popularidade. De 1999 a 2001, os canais de televisão russos transmitiram 17 novelas brasileiras.

Qual é o fenômeno da atenção à novela “O Clone”: o apoio das comunidades de fãs, mensagens aos atores após 20 anos e popularidade maior que a de “Brigada”

A estreia de “O Clone” na Rússia ocorreu em 16 de fevereiro de 2004 no Canal 1, dois anos e meio após sua exibição no Brasil. Foi transmitida em dias de semana no horário nobre e reprisada nas manhãs. A popularidade de “O Clone” permanece entre os espectadores russos após 20 anos – por exemplo, há comunidades de fãs ativas nas redes sociais.

A atriz Letícia Sabatella, que interpretou Latiffa Rachid, falou sobre a popularidade: “Ah, ‘O Clone’ é um fenômeno, né? Fui à Rússia e fui reconhecida na rua. Na Rússia, as pessoas aprenderam a falar português por causa da novela. Tenho fãs russos. É muito bonito. Acho que muitas pessoas se apaixonaram pela Latiffa. Eu sentia que era muito valorizada”.

A organizadora do festival de cinema brasileiro na Rússia, Fernanda Bulhões, relembrou como Sabatella, anos após a estreia, viajou para Moscou e sentiu a atenção redobrada: “Ela estava toda agasalhada por causa do frio de cinco graus negativos, mas mesmo assim foi reconhecida pelos fãs”.

“A atenção a ele [a novela ‘O Clone’] nunca diminuiu desde a primeira exibição, e a reação da Rússia é realmente impressionante. Lá, a novela foi exibida sem interrupções por 20 anos! Agora, com o surgimento das redes sociais, comentários, fotos e cenas comigo chegam de lá todos os dias. Recebi milhares de elogios e um carinho infinito”, disse Daniela Escobar, que interpretou Maysa Ferrão.

Em 2019, o Yandex publicou uma pesquisa comparando a popularidade de ‘O Clone’ e ‘Brigada’ – duas séries cult dos anos 2000 na Rússia. Segundo dados de julho de 2018 a junho de 2019, ‘O Clone’ se tornou mais popular que ‘Brigada’ na maioria das regiões. Em termos de buscas, ‘Brigada’ foi mais procurada além dos Urais, enquanto ‘O Clone’ foi mais popular na parte europeia, incluindo Moscou e São Petersburgo. Entre as avaliações no Kinopoisk, selecionamos as principais memórias dos espectadores sobre o que ‘O Clone’ representou para eles:

draconaffair: “Alguém se lembra da boa e velha novela brasileira ‘O Clone’? Outro dia encontrei um vídeo dela e decidi relembrar os velhos tempos. Lembrei de como acordava às 5 da manhã para assistir à reprise do episódio e depois corria para casa para pegar a exibição noturna. Lembrei de como arrastava minha mãe pelas lojinhas de bijuteria em busca de uma pulseira ‘igual à da Jade’, de como colocava a música e tentava aprender a dança do ventre. Até tinha um diário com os personagens da novela, se não me engano”;

Lilianniv : «O Clone» explodiu todos os índices de audiência em 2002-2003, pelo que me lembro. Era uma época em que as novelas brasileiras eram assistidas por todos: mulheres, homens, crianças, idosos. Todos estavam encantados com «O Clone». E não era à toa. Foi uma renovação; a novela mostrou o que ninguém tinha visto antes: o Oriente, clonagem, drogas, questões éticas. Todos esses temas foram combinados com muita habilidade e desenvolvidos ao longo de 250 episódios;

Sirius2014 : «Comecei a assistir «O Clone», assim como a maioria dos espectadores, em 2004, quando foi exibido pela primeira vez na televisão russa. Eu tinha 11 anos, e em casa tínhamos apenas uma pequena televisão em preto e branco com antena própria. Ao ver o comercial de «O Clone» no início de março, senti que não podia perder, embora o trailer não indicasse nada de especial. E no dia 16, começou.

Desde então, até o último episódio em 24 de maio de 2005, o horário das 19h era sagrado para mim. Quando meus amigos vinham, tinham que brincar sem mim. Quando meu pai chegava do trabalho, eu não existia para ele. E minha mãe não tinha escolha a não ser se juntar a mim – e, depois da morte de Diogo, assistíamos juntos; se alguém perdia um episódio, ele era contado em detalhes depois. O último terço da saga coincidiu com o período em que nossa televisão já era colorida»;

Miss ML : «Parece que absolutamente todos assistiram a essa novela: desde avós até crianças. Ela era discutida não apenas nas cozinhas, mas também nas escolas! Imagine, a professora de língua russa citava a sábia Zoraide».

Maria Vicente

Ela é uma renomada jornalista esportiva, formada pela Escola Superior… More »

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo