Jogadores naturalizados na Copa do Mundo de 2026 – recorde de mudança de cidadania esportiva

Análise global de Igor Sergueiev.

O primeiro gol da Copa do Mundo de 2026 foi marcado por um jogador naturalizado – o colombiano Julián Andrés Quiñones se destacou pela México. Isso é muito simbólico – na atual Copa do Mundo, o número de jogadores que mudaram de cidadania esportiva atingiu um máximo histórico.
A seleção de Curaçau trouxe para o torneio uma equipe de holandeses, Cabo Verde – de portugueses, Catar – de internacionais. Quase todos os jogadores da seleção de Marrocos nasceram na Europa. Pela Coreia do Sul, jogará o primeiro estrangeiro, um sueco-tunisiano marca para a Tunísia, e a França já não se alimenta apenas do continente africano, agora é uma rota bidirecional.
Isso já não é um conjunto de exceções, mas uma arquitetura futebolística atual: as federações mantêm bases de jogadores de diásporas, a FIFA publica em fluxo decisões sobre mudanças de associação esportiva, e as principais academias da Europa simultaneamente formam potenciais jogadores para várias seleções.
No futebol, a nacionalidade é um conceito muito flexível
Você pode ter notado que quase metade (34 de 75) dos gols da primeira rodada da Copa do Mundo de 2026 foram marcados por jogadores com múltiplas cidadanias. Por exemplo, o tunisiano étnico Yasin Ayari marcou dois gols pela Suécia contra a Tunísia, e o nativo da região de Île-de-France, o senegalês Ibrahim Mbaye, marcou contra os franceses.
Apenas no mês anterior à Copa do Mundo, os participantes naturalizaram vários jogadores talentosos: o meio-campista do Lille, Ayoub Bouaddi, trocou a França pelo Marrocos, o ponta do Sassuolo, Cristian Volpato, trocou a Itália pela Austrália. O atacante do mesmo Lille, Mathias Fernández Pardo, conseguiu, em um ano e meio, fazer um “back-to-back” – no trajeto Bélgica – Espanha – Bélgica. Isso é possível se o jogador não tiver disputado nenhuma partida pela nova seleção. Outro exemplo é o zagueiro do Zenit, Douglas Santos: desistiu de jogar pela seleção da Rússia e recuperou sua cidadania esportiva brasileira.

Para evitar confusão, a FIFA lançou, no início do ano passado, uma plataforma digital que exibe publicamente todas as aprovações para mudança de associação. Após o lançamento da plataforma, 2.211 jogadores mudaram sua cidadania futebolística – mais de quatro transferências por dia. Isso já é um mercado de transferências completo, que funciona o ano todo e diariamente.
Mas essas transferências internacionais não começaram nem anteontem.
A tendência da naturalização nos anos 1930 foi iniciada por Mussolini
No museu do futebol mundial da FIFA, está guardado o passaporte argentino de Luis Monti – o único jogador da história a disputar finais de Copas do Mundo por duas seleções diferentes: em 1930 pela Argentina e em 1934 pela Itália. Isso não foi um acaso, mas o resultado de uma estratégia estatal.
Antes da Copa do Mundo de 1934, sediada na Itália, o ditador italiano Benito Mussolini exigiu pessoalmente da federação local a vitória e autorizou o recrutamento em massa de “oriundi” – descendentes de imigrantes italianos da América do Sul. Como resultado, a Itália contou com cinco jogadores nascidos na Argentina e no Brasil, dois dos quais – Monti e Attilio Demaria (que não jogou nas finais) – haviam representado a Argentina na Copa de 1930. A Itália venceu a Copa do Mundo em casa. Esses foram os primeiros casos documentados de mudança de cidadania esportiva na história do torneio.
No entanto, jogadores naturalizados já estavam presentes na primeira Copa do Mundo, em 1930. Segundo dados da publicação americana Vox, cerca de 10 jogadores nascidos fora do país que representavam (5% do total de participantes) disputaram aquele torneio. Mas até que ponto esses casos podem ser considerados mudanças de cidadania esportiva é um assunto controverso.
As regras da época permitiam uma formulação vaga: “o jogador deve ser da nacionalidade do país cujas cores defende” e estar registrado na federação correspondente. Assim, a seleção dos EUA levou ao torneio seis imigrantes do Reino Unido, mas apenas um deles havia jogado futebol profissional antes de se mudar – George Moorhouse disputou duas partidas pelo Tranmere Rovers na terceira divisão inglesa.
Nos anos 1930, as federações aproveitaram as brechas nas regras da FIFA: na Copa de 1938, a proporção de jogadores nascidos no exterior nas seleções já era de 12% – maior do que em qualquer Copa até o Catar-2022. Mas, posteriormente, a brecha foi fechada.
A partir de 1964, um jogador com mais de 18 anos não podia mais mudar de seleção se já tivesse jogado por outro país. O motivo formal para o endurecimento das regras da FIFA foi outro caso em que um jogador atuou por dois países diferentes em duas Copas do Mundo consecutivas: o lendário atacante José Altafini (Mazzola) jogou pelo Brasil em 1958 e, quatro anos depois, pela Itália. Esse foi o último caso desse tipo na história. A porcentagem de jogadores naturalizados na Copa de 1966 foi de 2% e, na de 1970, de 3%.

No total, segundo cálculos da publicação Vox, nos anteriores campeonatos mundiais participaram 1103 jogadores nascidos fora do país que representavam.
Portanto, a mudança de cidadania futebolística não é nova, mas a escala atual é realmente histórica.
42% dos jogadores têm segundo passaporte na Copa do Mundo de 2026
Dos 1248 futebolistas no atual campeonato mundial, 282 nasceram em um país e jogam por outro. Com base nos dados do Transfermarkt, pode-se afirmar que foi estabelecido um novo recorde histórico de naturalizados.

A maioria (75%) das seleções participantes da Copa do Mundo de 2026 tem em seus elencos pelo menos um jogador nascido em outro país. Fora de competição está Curaçau.

É verdade que o local de nascimento em outro país nem sempre indica uma mudança de cidadania esportiva. Por exemplo, doze participantes do atual Mundial nasceram em outro país, mas sempre jogaram por apenas uma seleção. Entre eles está o superartilheiro norueguês do “Man City”, Erling Haaland, que nasceu em Leeds.
Portanto, para maior precisão, aplicamos outro filtro – contamos os jogadores com duas ou mais cidadanias. Claro, nem todos os segundos passaportes foram usados para mudar de seleção, mas não podemos ignorar esse indicador – na maioria das vezes, ele mostra que o jogador, pelo menos, teve uma escolha. Vamos considerar esse critério como principal.
No Mundial de 2026, chegaram 524 jogadores com multicidadania – isso representa 42% do total. Ninguém havia coletado esses dados antes, então chamar esse número de recorde não seria totalmente correto, mas, aparentemente, é o que acontece. E aqui está como isso se distribui entre as seleções.

Por trás dos indicadores do topo do ranking estão diferentes estratégias. Em alguns casos, trata-se de um programa governamental de busca de talentos (Catar, Canadá). Em outros, são diásporas pós-coloniais que as federações ignoraram por décadas, mas agora começaram a recrutar sistematicamente (França e África francófona). Em alguns lugares, há um status jurídico especial do território (Curaçao). E em outros, os segundos passaportes não influenciam em nada – são apenas ruído estatístico (América do Sul). Vamos analisar cada caso.
● Curaçao – 26 jogadores na lista (100%) que mudaram de seleção. 25 deles nasceram nos Países Baixos. O único jogador nascido em Curaçao – o meio-campista do Sheffield United, Tahith Chong – mudou-se para os Países Baixos aos dez anos.
Os jogadores da seleção de Curaçao podem ser chamados de naturalizados apenas com ressalvas, pois Curaçao é uma entidade autônoma insular dentro do Reino dos Países Baixos. De acordo com as normas internacionais, não é um Estado soberano. Todos os residentes locais possuem apenas o passaporte holandês, mas os originários da autonomia caribenha ainda tiveram que passar por certos procedimentos ao mudar de seleção. Tudo isso porque a federação de futebol de Curaçao é um membro separado da FIFA (explicamos aqui), portanto, os jogadores dessa seleção tiveram que comprovar sua origem caribenha. Os originários de Curaçao formam o maior grupo de migrantes do Caribe nos Países Baixos – mais de 145 mil pessoas.
● Cabo Verde – 23 jogadores com dupla cidadania (88%). Antiga colônia portuguesa com uma população de 529 mil habitantes, cuja diáspora está espalhada pelo mundo. Nove portugueses na seleção são compreensíveis. Já os seis passaportes holandeses precisam de explicação: são resultado da migração laboral marítima da metade dos anos 1970. Nesse país da África Ocidental, sempre houve fortes tradições marítimas, e após a independência em 1975, os locais migraram em massa para a Europa – principalmente para grandes portos europeus, sobretudo Roterdã. Foi lá que nasceram dois irmãos da seleção de Cabo Verde – Laros e Deroy Duarte.

● Canadá – 22 (85%). Uma surpresa estatística. Mas é um resultado bastante lógico da estratégia consciente da federação local de futebol (Canada Soccer), que desde meados dos anos 2010 busca ativamente e atrai jogadores com raízes canadenses em todo o mundo. Por exemplo, o defensor do belga “Dendermonde”, Luke de Fougerolle, nasceu e cresceu em Londres, passou pela academia do “Fulham”, mas acabou vestindo a camisa da seleção norte-americana.
O atacante do “Man City”, Omar Marmoush, também poderia jogar a Copa do Mundo de 2026 pelo Canadá – ele tem o passaporte correspondente, embora tenha nascido no Egito. Na infância, Omar viveu seis anos no Canadá, onde seus pais trabalhavam. Ainda quando jogava pelo “Stuttgart”, representantes da federação canadense de futebol o contataram, mas o atacante escolheu o Egito.
No entanto, apenas sete jogadores canadenses na lista nasceram fora do país. Portanto, não é uma equipe de imigrantes no sentido comum – é uma seleção de um país de migrantes, cujos filhos já cresceram como canadenses.
● França – 22 (85%). Já esta é uma seleção mais tradicional de filhos de migrantes, com apenas dois jogadores nascidos fora da França – o goleiro do “Rennes”, Brice Samba (RD Congo), e o ponta do “Bayern”, Michael Olise (Inglaterra). Lembramos que 12 dos 23 jogadores do elenco campeão de 2018 têm raízes africanas. A origem dos jogadores do atual elenco também está fortemente ligada à África: Camarões (Kylian Mbappé e William Saliba), Mali (N’Golo Kanté e Ibrahima Konaté), Argélia (Magnus Akliouche e Rayan Cherki). Além disso, o atacante do “Barça”, Ousmane Dembélé, nasceu em Vernon, na França, em uma família senegalês-malinesa, mas não possui dupla cidadania. Por isso, ele não entrou em nossa amostra, embora certamente poderia ter escolhido a seleção. Curiosamente, os jogadores nascidos na França são os mais presentes em outras seleções da Copa do Mundo de 2026: 75 jogadores (sem contar a seleção francesa), ou 6%.

● Catar – 22 (85%). O índice mais alto entre as seleções asiáticas é resultado de um programa governamental direcionado. O Catar é um país de imigrantes, onde estrangeiros representam quase 90% da população. O recrutamento de jovens estrangeiros (geralmente com menos de 13 anos) foi iniciado na metade dos anos 2000 e batizado como o programa educacional estatal Aspire Academy. Também há casos de naturalização de jogadores adultos que chegaram aos clubes catarenses. Aliás, obter a cidadania catari é bastante difícil. Segundo informações da Vox, estrangeiros talentosos recebiam o chamado “passaporte de missão” – uma cidadania parcial que permitia sua inclusão na seleção.
Na atual equipe, 13 jogadores nasceram fora do país – originários de Argélia, Brasil, Índia, Gana, Portugal, Senegal, Tunísia, Sudão e Suécia. Por exemplo, o Catar conta com o brasileiro Edmilson Junior, que nasceu e iniciou sua carreira em Liège, na Bélgica, joga no Catar desde 2018 e mudou sua cidadania esportiva em 2024. Sem ancestrais ou diáspora alguma.
● RD Congo – 21 (81%), Marrocos – 20 (77%), Argélia – 16 (62%), Tunísia e Senegal – 14 cada (54%), Costa do Marfim – 13 (50%).
Seleções com histórias diferentes, mas um mecanismo em comum: a migração pós-colonial e trabalhista para a Europa criou um enorme reservatório de jogadores com passaporte europeu e raízes familiares na África. Um terço deles nasceu na França: 47 dos 130 jogadores (36%).
Curiosamente, a República Democrática do Congo foi colonizada pela Bélgica, e não pela França (o Congo Francês é outro país), mas após o reconhecimento da independência em 1960, uma onda contínua de emigração fluiu para ambos os países europeus – principalmente devido à língua francesa. É por isso que, atualmente, a seleção da RD Congo utiliza duas rotas inversas para naturalização: onze jogadores do elenco nasceram na França (como Yoane Wissa, do “Newcastle”), e cinco na Bélgica (como Theo Bongonda, do “Spartak”).

Marrocos também tem laços estreitos com vários países europeus. Diferentes partes do país estiveram sob protetorados da França e da Espanha. Além disso, desde a década de 1960, os Países Baixos têm recebido ativamente trabalhadores migrantes marroquinos. Hoje, os marroquinos formam a maior diáspora africana na Europa (cerca de cinco milhões de pessoas). Achraf Hakimi e Brahim Díaz nasceram na Espanha, Samir El-Mrabet na França, e Noussair Mazraoui nos Países Baixos.
A seleção com mais jogadores de origem francesa (exceto a própria França) é a da Argélia: 13 jogadores. A Guerra da Argélia (1954–1962) e a subsequente migração de trabalhadores criaram na França a maior diáspora argelina do mundo – cerca de 2 milhões de pessoas. Os descendentes dos imigrantes acabaram tendo que escolher entre as duas seleções, às vezes até mesmo dentro de uma mesma família – Zinedine Zidane escolheu a França, enquanto seu filho, Luca, optou pela Argélia.
A diáspora tunisiana na Europa é menor que as de Marrocos e Argélia – cerca de 1,8 milhão de pessoas. Mas a lógica é a mesma: atrair descendentes de trabalhadores migrantes que deixaram o país nas décadas de 1970 e 1980. Por exemplo, o defensor do “Young Boys”, Yan Valery, nasceu em Champigny-sur-Marne, na França.
O Senegal é uma ex-colônia francesa com um status especial. Dacar foi a capital de fato da África Ocidental Francesa – possessão colonial da França no noroeste da África entre 1895 e 1958. Atualmente, a França abriga uma das maiores diásporas senegalesas do mundo – até 350 mil pessoas. Na convocação da seleção para a Copa do Mundo de 2026, há dez jogadores nascidos na França, incluindo o defensor do “Al-Hilal”, Kalidou Koulibaly, e o meio-campista do “Villarreal”, Pape Gueye.

A estratégia da Costa do Marfim é a mesma: recrutamento sistemático de descendentes de migrantes. Curiosamente, um dos jogadores mais estrelados da seleção marfinense, Amad Diallo, nasceu em Abidjan, mudou-se para a Itália aos oito anos com documentos falsos, obteve passaporte italiano, mas acabou escolhendo representar a Costa do Marfim.
● Haiti – 20 de 26 (77%). Outra seleção formada por diáspora: 17 jogadores nasceram fora do país. A diáspora haitiana no exterior soma cerca de 2 milhões de pessoas, das quais mais de 1,5 milhão vivem nos EUA. A cidadania haitiana pode ser adquirida por parentesco, sem limite de gerações. A federação trabalha ativamente com esse recurso: grande parte do elenco é composta por jogadores formados em academias americanas e clubes franceses.
Aliás, uma das histórias mais fascinantes e trágicas sobre naturalização envolve o atacante haitiano Joe Gaetjens. Ele foi aos EUA para estudar e trabalhava como lavador de pratos, marcou o gol da vitória surpreendente dos EUA sobre a Inglaterra na Copa do Mundo de 1950 (1:0), apesar de nunca ter tido cidadania americana – na época, bastava a intenção de obtê-la. Mais tarde, Gaetjens retornou ao Haiti, onde foi preso e morto na prisão pela polícia secreta do regime ditatorial de François Duvalier. O atleta não estava envolvido com política, mas seus irmãos eram da oposição. Em 2002, a federação americana de futebol o incluiu postumamente no Hall da Fama. Alguns jogadores da atual seleção haitiana são descendentes de famílias que fugiram do regime de Duvalier para os EUA. O ciclo se fechou.
● Bósnia e Herzegovina – 19 (73%). Um caso único, marcado não pela migração econômica, mas pela guerra. O colapso da Iugoslávia no início dos anos 90 e a guerra na Bósnia (1992-1995) causaram o maior deslocamento populacional na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Cerca de um milhão de bósnios deixaram o país, principalmente para Alemanha, Áustria e Suíça. O zagueiro do Atalanta, Sead Kolasinac, por exemplo, nasceu em Karlsruhe, na Alemanha, filho de muçulmanos bósnios (bósnios) que fugiram da guerra.

● Uruguai – 18 (69%), Argentina – 15 (58%) e Brasil – 12 (46%). Este é o principal erro em nossos cálculos. A maioria dos jogadores nasceu na América do Sul e não pode ser considerada naturalizada. O motivo para obter passaportes de países da UE é o limite de estrangeiros. Para não ocupar vagas escassas, os jogadores adquiriram cidadania espanhola e italiana. Isso também facilitou a liquidez de transferências e evitou problemas cotidianos. Leo Messi obteve a cidadania espanhola aos 18 anos e jogou a vida toda pela Argentina. A estrela do Real, Vinícius, recebeu o passaporte espanhol após estrear pelo Brasil. Rafinha, do Barça, Danilo e Alex Sandro (ambos do Flamengo) – todos com passaportes europeus, todos jogam pelo Brasil.
Mas há casos em que o passaporte realmente ofereceu uma escolha. Rafinha considerou seriamente um chamado da seleção italiana: “Estive perto de aceitar a proposta. Eu deveria ir para o Campeonato Europeu, que aconteceria em 2020. Estava praticamente pronto. Felizmente, o passaporte não chegou”. Para constar, a Itália venceu a Euro-2020.
O atacante do Atlético, Giuliano Simeone, nasceu em Roma, e o meia do Como, Nico Paz, em Tenerife. Ambos escolheram a Argentina.
● Inglaterra – 17 (65%). Um dos índices mais altos do torneio, mas apenas um jogador nasceu no exterior: o zagueiro do City, Marc Guéhi, em Abidjan, na Costa do Marfim, mas mudou-se para Londres com um ano de idade. Todos os outros são nativos de cidades inglesas, que simplesmente possuem um segundo passaporte.
Vale esclarecer que ingleses, escoceses, galeses e norte-irlandeses têm um passaporte comum – o britânico. O passaporte é um só, mas as associações de futebol são diferentes – como no caso de Curaçao, ao mudar de cidadania esportiva, o jogador precisa de autorização da FIFA.
Os três principais canais de segundos passaportes para ingleses são: irlandês (Harry Kane e Declan Rice), jamaicano (Jed Spence e Ivan Toney) e nigeriano (Eberechi Eze e Bukayo Saka).
Além disso, 27 nascidos na Inglaterra disputam a Copa do Mundo de 2026 por outras seleções. O neozelandês Joe Bell nasceu em Bristol, o congolês Aaron Wan-Bissaka em Croydon. E aqui a naturalização também funciona nos dois sentidos.

Mas há exemplos opostos: seis seleções têm no máximo um jogador com segunda cidadania. Trata-se de países onde a mudança de nacionalidade é impossível por lei ou não é comum.
O Uzbequistão convocou apenas um jogador com segunda cidadania – o russo Igor Sergeev, do Persepolis, do Irã, que nasceu em Tashkent. A diáspora egípcia na Europa é bastante significativa, mas a federação local não faz recrutamento sistemático de jogadores de outros países.
Japão e Coreia do Sul são casos à parte. Ambos os países restringem severamente a dupla cidadania. O único japonês com segundo passaporte é o goleiro Zion Suzuki, nascido em Nova Jersey em 2002. Seu pai é ganês e sua mãe é japonesa. No entanto, provavelmente Suzuki já renunciou à cidadania americana – segundo as leis japonesas, ao completar 22 anos, é necessário escolher apenas um passaporte. O novo sul-coreano, Jens Castrop, também deve renunciar ao passaporte alemão em favor do sul-coreano.
Já a República Tcheca é uma exceção clara. Nos dias de hoje, é surpreendente que uma seleção de um país da UE não tenha nenhum jogador não apenas nascido no exterior (mesmo na vizinha Eslováquia), mas também com dupla cidadania.
No entanto, essas seleções estão cada vez mais raras na Copa do Mundo.
De 2002 a 2018, a proporção de jogadores nascidos no exterior entre todos os participantes da Copa do Mundo permaneceu em torno de 9–11%, mas nos dois últimos torneios consecutivos, houve um aumento constante de 5-6%. O salto parece não ser uma continuação da tendência, mas uma nova fase. A razão geral é que a FIFA flexibilizou significativamente as exigências para a mudança de nacionalidade esportiva.
É possível mudar de seleção até após a estreia! Existe a regra dos três jogos
Quando um jogador entra em campo em uma partida oficial por qualquer seleção (amistosos não contam), ele fica automaticamente vinculado a uma associação específica. A mudança de país só pode ser feita através da FIFA – é isso que se chama de naturalização esportiva.
Em 2020, a FIFA adicionou uma nova exceção que permite ao jogador mudar de seleção mesmo após partidas oficiais por outra. As reformas estão diretamente ligadas ao caso de Munir El Haddadi – um atacante de origem marroquina que, em 2014, jogou 10 minutos pela Espanha nas eliminatórias da Euro 2016 e, um ano depois, solicitou à FIFA a permissão para jogar a Copa do Mundo de 2018 pela seleção do Marrocos. Ele foi recusado, e posteriormente o Tribunal Arbitral do Esporte também rejeitou o recurso. No entanto, apelos constantes do jogador e da seleção marroquina forçaram a FIFA a implementar reformas.

“Fizemos alterações nas regras de elegibilidade para participar das seleções nacionais, porque em um mundo globalizado, onde os jogadores podem ter duas ou três nacionalidades diferentes, é importante dar a eles a oportunidade de escolher seu país ou mudá-lo – sob certas condições rigorosas”, explicou o presidente da FIFA, Gianni Infantino.
A mudança de nacionalidade esportiva é possível uma vez na carreira, sob as seguintes condições.
✅ No momento de sua primeira aparição oficial pela primeira seleção nacional, o jogador tinha a nacionalidade da nova associação.
✅ O jogador participou de no máximo três jogos no nível adulto antes de completar 21 anos.
✅ O jogador não participou da fase final da Copa do Mundo ou de torneios continentais (Eurocopa, Copa América e outros).
✅ Passaram-se três anos desde a última participação do jogador pela seleção nacional anterior.
O meia Marcelo Flores, do Tigres do México, nasceu em Georgetown, província de Ontário, e recebeu passaporte canadense por direito de nascimento. Flores disputou três partidas pela seleção mexicana – a última em junho de 2022, aos 18 anos, na Copa das Nações da CONCACAF (Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe). Em fevereiro deste ano, Flores recebeu autorização da FIFA para mudar de seleção – em março, estreou pelo Canadá.
Vale ressaltar que o limite de idade de 21 anos não se aplica a jogadores que disputaram a última partida pela seleção anterior antes de 18 de setembro de 2020, quando as novas regras foram introduzidas.
Por exemplo, o defensor Joshua Brenet, do Kayserispor da Turquia, jogou pela seleção principal da Holanda em uma partida oficial das eliminatórias da Copa do Mundo de 2018 contra Luxemburgo em novembro de 2016, aos 22 anos. Em maio de 2024, a transferência de Brenet para a seleção de Curaçau foi aprovada pela FIFA, embora o jogador já tivesse 31 anos na época.

Além disso, de acordo com as regras da FIFA, a mudança de seleção é possível se o novo passaporte for obtido apenas por um dos seguintes motivos.
✅ Ter residido no território da associação por pelo menos 5 anos após completar 18 anos.
Por exemplo, o autor do primeiro gol na Copa do Mundo de 2026, Julián Quiñones, nasceu em Magüí-Payán – uma pequena cidade na região colombiana de Nariño, na fronteira com o Equador. Em 2015, aos 18 anos, mudou-se para o México para integrar a base do “Tigres”, onde passou oito anos e conquistou dois campeonatos consecutivos com o “Atlas”. Em maio de 2023, recusou uma convocação para a seleção colombiana em favor do México. Em outubro do mesmo ano, concluiu o processo de naturalização e, em novembro, recebeu sua primeira convocação para a seleção mexicana. Sem ancestrais ou raízes familiares, simplesmente viveu no novo país por um período significativamente maior que o mínimo exigido pela FIFA.
✅ Ter nascido no território do país.
O autor do primeiro doblete na Copa do Mundo de 2026 também mudou de seleção. O atacante do “Monaco”, Folarin Balogun, tornou-se americano por acaso: nasceu em Nova York, embora seus pais sejam nigerianos e ele tenha crescido na Inglaterra. No sétimo mês de gravidez, a mãe de Balogun viajou para os EUA para visitar parentes, mas não conseguiu retornar a Londres: as companhias aéreas se recusaram a embarcá-la devido ao tamanho da barriga, que tornava o voo inseguro. Como resultado, o filho nasceu no Brooklyn, e a família só retornou à Inglaterra um mês depois.
Balogun passou toda a sua juventude futebolística em Londres, treinou na academia do “Arsenal” e jogou pelas seleções de base da Inglaterra. Obteve a cidadania americana por direito de nascimento e, em 2023, formalizou a mudança de seleção.
O meio-campista do “Nottingham Forest”, Elliot Anderson, nasceu em Whitley Bay, uma cidade costeira no distrito de North Tyneside, na Inglaterra. Inicialmente, jogou pela seleção de base da Escócia, mas depois mudou sua cidadania esportiva para a inglesa. A FIFA permite essa transição com base no local de nascimento, embora, na prática, Anderson não tenha alterado seu passaporte civil – no Reino Unido, ele é único.
O meio-campista do “Bayern”, Jamal Musiala, nasceu em Stuttgart em 2003. Seu pai é de origem nigeriano-britânica, e sua mãe é alemã. Aos sete anos, mudou-se com a família para Southampton. Passou pelas academias do “Southampton” e do “Chelsea”, além de todas as categorias de base da Inglaterra. No entanto, acabou optando pela seleção alemã.
“Foi uma decisão difícil – nasci na Alemanha, mas a maior parte das minhas memórias de infância está ligada à Inglaterra. Ambos os países fazem parte de mim”, disse Musiala ao site FourFourTwo.

A escolha de Musiala também se encaixa no critério de parentesco.
✅ Pai, mãe, avô ou avó nascidos no território do país.
A este ponto estão ligadas as duas histórias mais exóticas da Copa do Mundo de 2026. Assim, o atacante do Standard de Liège, Dennis Dargahi, nasceu em Bonn com o nome de Dennis-Jerai Ekkert Ayensa. Pai alemão, mãe espanhola, mas avô paterno iraniano. Escolheu o Irã. Ao receber o passaporte iraniano, adotou o sobrenome do avô – Dargahi. Sim, um hispano-alemão jogará pelo Irã.
O meio-campista do Borussia Mönchengladbach, Jens Castrop, é o primeiro jogador naturalizado na seleção da Coreia do Sul. Castrop nasceu em julho de 2003 em Düsseldorf. Passou por todas as categorias de base da Alemanha. Em fevereiro de 2025, solicitou a cidadania sul-coreana: sua mãe é originária desse país. Depois, recebeu a aprovação da FIFA para mudar de seleção.
“Sempre me orgulhei de representar as seleções de base da Alemanha. Minha mãe deixou a decisão comigo. Pensei muito. Mas me vejo muito asiático em minha personalidade”, explicou Castrop à publicação Kicker. “Eu segui meu coração”.
O direito de sangue (ou o chamado do coração) ainda é a forma mais popular de mudar o “passaporte futebolístico”.
França e Holanda são os principais doadores na Copa do Mundo de 2026
No Mundial, pelo menos 253 jogadores (89% de todos os nascidos no exterior) mudaram de cidadania por meio de laços familiares. Isso é duas vezes e meia mais do que no Catar – 97 jogadores (71%).
Por que este é o limite mínimo? Rastrear as árvores genealógicas e as histórias de vida de todos os jogadores é impossível. Incluímos apenas aqueles que não nasceram no país que representam agora e excluímos jogadores que obtiveram novo passaporte por residência (como o mexicano Julián Andrés Quiñones e vários jogadores da seleção do Catar) ou que se mudaram em tenra idade e não tinham vínculo étnico com o país (como Alphonso Davies).

Em vinte anos, observa-se um crescimento seis vezes maior. É evidente que os laços familiares são o principal motivo para a globalização do futebol. Enquanto isso, a proporção de jogadores que emigraram por outros motivos praticamente não mudou. Ou seja, as transferências clássicas, quando um país compra um jogador necessário, felizmente ainda não ocorrem no nível das seleções.
“Países como Marrocos perceberam que há muitos jogadores altamente qualificados de origem marroquina na Holanda e na França. Eles buscam ativamente atraí-los para formar suas seleções nacionais. Essas equipes são criadas com base em redes autênticas de diásporas étnicas”, explicou à Vox o professor Gijsbert Oonk, especializado em migração na Escola de História, Cultura e Comunicação de Erasmus.

França e Holanda lideram em todas as três métricas de doação simultaneamente – como fonte de segundos passaportes, como país de nascimento e como país de vínculo esportivo anterior. A maior quantidade de “franceses” está na seleção da Argélia (13), RD Congo e Haiti (11 cada), enquanto os “holandeses” estão no elenco de Curaçao (25).
Além disso, França e Holanda representam quase metade de todos os ex-selecionáveis – 44% do total. Nada surpreendente, já que os centros de formação de jovens nesses países estão entre os melhores do mundo.
Existe ainda um filtro mais refinado. Na Copa do Mundo de 2026, chegaram 149 jogadores (11,9% do total) que anteriormente atuaram por outras seleções (em todas as categorias de idade).
Sete das dez rotas mais populares nessa métrica também estão relacionadas à França e à Holanda.

O ponta do Augsburg, Ismaël Gharbi, aos 22 anos, já jogou pelas seleções juvenis da França e da Espanha, e chegou à Copa do Mundo de 2026 com a Tunísia.
Vários jogadores já haviam atuado pelas seleções principais de seus países de origem: por exemplo, o ponta Brahim Díaz (Espanha → Marrocos), o meio-campista Houssem Aouar (França → Argélia), e os defensores Joshua Brenet e Rihairo Meulens (ambos dos Países Baixos → Curaçau).
Países Baixos – Curaçau é a rota de naturalização mais popular neste torneio, o que, assim como outros fluxos comuns, não surpreende. França, Países Baixos, Inglaterra, Espanha – são antigas metrópoles com grande história colonial e extensas diásporas em seus territórios. Agora, o movimento funciona nos dois sentidos.
Para a Europa, isso parece uma perda de talentos, enquanto para a África e o Caribe, é uma restituição de justiça.
O fenômeno da naturalização não pode ser considerado uma anomalia ou crise no sistema das seleções. É um resultado normal de um século de migrações, descolonização, globalização e histórias familiares que não se limitam às fronteiras de um único país. A nação futebolística nunca foi um conceito puro, mas sim uma construção que cada geração reconstrói.
Em 1950, o haitiano Joe Gaetjens, que nunca se tornou americano, marcou gols pelos EUA. Agora, na Copa do Mundo de 2026, a seleção do Haiti chegou, formada por jogadores das diásporas francesa e americana.
Resta a pergunta: onde está a fronteira entre “jogar pelo seu país” e “jogar por um país com o qual tem ligação”? A FIFA a definiu através de artigos do regulamento. Os torcedores traçam linhas emocionais – e de maneiras diferentes. Os jogadores simplesmente fazem suas escolhas – nem todo futebolista tem a chance de ir a uma Copa do Mundo. Por isso, o primeiro gol do torneio foi marcado por um colombiano vestindo a camisa do México. E por isso, isso não surpreendeu ninguém de verdade.
As nacionalidades dos jogadores já não cabem em um único passaporte.




