Ele ganhava com transferências do ‘Boca’ e comandava o clube, e agora cobra até $700 por um jantar. Que tipo de negociante é esse? – Você já viu isso?

Um dos bandidos mais influentes da Argentina.
Rafael Di Zeo é uma figura controversa.
Para alguns, ele é uma lenda, a voz da “Bombonera”, líder dos torcedores do “Boca Juniors” e uma pessoa cuja história será adaptada para a tela pela “Netflix”.

Para outros, um organizador do tráfico de drogas, alguém que ordenou a torcedores de futebol dispersar protestos contra as autoridades e matar.
Alex Smolyaninov, do canal “NF”, dissecou a personalidade de um argentino que fez fortuna no crime e em negócios relacionados a torcedores, e que ainda não perdeu sua influência.
Di Zeo começou na prefeitura de Buenos Aires e depois liderou uma grande torcida organizada do “Boca”. Assumiu o controle do clube também
Em 1925, o empresário e torcedor do “Boca Juniors”, Victoriano Caffarena, financiou uma grande turnê pela Europa e viajou com o time. Durante a viagem, os jogadores o apelidaram brincando de “La Doce” (em tradução do italiano, jogador nº 12). Quando voltou à Argentina, Caffarena contou isso a outros torcedores do “Boca”, e desde então os fãs do time também são chamados assim.
No início dos anos 80, a Argentina passava por momentos difíceis. Após a derrota na Guerra das Malvinas, começou uma reorganização em todas as áreas. As torcidas organizadas começaram a se envolver não apenas nos assuntos dos clubes, mas também na política. A primeira foi justamente a “La Doce”: o torcedor José Barrita, usando violência e armas, assumiu o controle da arquibancada dos torcedores do “Boca”.
Sob sua liderança, começaram a ganhar dinheiro com trabalhos sujos na política: dispersavam protestos, intimidavam concorrentes e incendiavam propriedades. Em troca, recebiam não apenas dinheiro e proteção, mas também contatos. E foram justamente esses contatos que os ajudaram a entrar no mercado de drogas da América do Sul.
Logo, todo o tráfico de drogas na região de La Boca passava por eles. Além disso, havia extorsão: estabelecimentos pagavam aos membros da “La Doce” por proteção. Mais tarde, a gangue começou a lucrar com o clube: vendia produtos falsificados e controlava o estacionamento do estádio. E depois passou a ter influência direta na vida do “Boca Juniors”.

No início dos anos 90, um jovem funcionário da prefeitura de Buenos Aires, Rafael Di Zeo, ingressou no grupo e superou todas as conquistas de Barrita. Rafa foi para as arquibancadas com seu irmão Fernando: eles nasceram no início dos anos 60 em uma família abastada e ambos tinham ensino superior. Os novatos se tornaram quase imediatamente “tenentes” de Barrita – um status que normalmente leva anos para ser conquistado, mas os irmãos Di Zeo conseguiram mais rápido.
De 1992 a 1994, graças aos seus esquemas e conexões, “La Doce” ganhou três milhões de euros. Barrita considerava Rafa seu sucessor, mas ele tinha outros planos.
Há uma versão de que os irmãos Di Zeo foram infiltrados lá pelas autoridades como agentes. Eles rapidamente ganharam confiança, sentiram-se impunes e depois traíram seus empregadores e começaram a trabalhar por conta própria.
Em abril de 1994, o “Boca” jogou contra seu rival de longa data, o “River Plate”.

Representantes da “La Doce” atacaram dois ônibus com opositores: no final, dois torcedores do “River” morreram, esfaqueados por torcedores do “Boca”. Seis agressores receberam longas penas, incluindo José Barrita. Ninguém provou sua participação no episódio, mas ele foi acusado de organizar distúrbios em massa. José recebeu quatro anos, e o controle das arquibancadas passou para a família Di Zeo.
Sob o comando dos irmãos, os lucros aumentaram várias vezes: eles trabalhavam para o futuro presidente da Argentina
Após a prisão de Barrita, a “La Doce” se tornou um dos maiores jogadores no mercado de drogas da cidade – tudo graças às conexões de Rafa.
Em 1995, Mauricio Macri se tornou presidente do “Boca Juniors”. Uma figura cultuada na Argentina: presidente do clube, depois prefeito de Buenos Aires, e posteriormente, líder do país. Mas sua biografia não pode ignorar a amizade com Rafa: eles se conhecem desde os tempos de serviço público.
Enquanto Di Zeo ainda era funcionário público, ele fazia o trabalho sujo para Macri por bom dinheiro: 15% das transferências do “Boca”. Os fundos iam para a “La Doce”, e uma grande parte ficava com os irmãos Di Zeo.

Em 1998, Barrita foi libertado antecipadamente, e a primeira coisa que fez foi tentar recuperar o controle da facção. Mas a influência dos irmãos Di Zeo já era grande demais. Com eles, os lucros aumentaram significativamente, e ninguém queria se opor aos Di Zeo – era arriscar a própria vida.
“Eu percebi rapidamente que não era bem-vindo. Os caras tinham novos chefes. E o nome de Rafael Di Zeo ainda será ouvido – ele é um lobo em pele de cordeiro. Ele tem informações comprometedoras sobre todos os políticos importantes da cidade e toda a diretoria do ‘Boca’ – e ele usa isso”, disse Barrita em sua última entrevista em 2001. Um mês depois, o ex-líder da gangue morreu. A versão oficial foi complicações de pneumonia, mas nem todos acreditam nisso.
Naquela época, Rafael Di Zeo já estava foragido há dois anos por organizar um massacre sangrento. Mas ele não fugiu, apenas se escondeu e continuou a comandar a “La 12”, se encontrando com Macri e recebendo dinheiro.
Os irmãos passaram 3 anos na prisão e perderam influência. Após voltarem, dividiram a gangue
Em 2007, Macri iniciou sua campanha para prefeito de Buenos Aires. As eleições eram no final do ano, e seu mandato como presidente do “Boca” terminava seis meses antes. O principal problema eram os laços com a “La 12”, que na época era associada ao crime, e não ao futebol, pelos locais.
Os oponentes na campanha eleitoral lembraram das relações de Macri com Rafa, que continuava foragido. Ficou claro que era necessário resolver a questão com os irmãos Di Zeo. No início de 2007, ambos os irmãos se entregaram inesperadamente à polícia. Muitos ainda acreditam que foi devido a acordos com Macri em troca de apoio e proteção no futuro. Isso é apenas uma teoria, mas os eventos posteriores a confirmam.
Em 2010, os irmãos foram libertados, mas enfrentaram os mesmos problemas que José Barrita antes. O novo líder da “La 12” era Mauro Martín. Sob seu comando, a facção não abandonou o crime: continuou controlando o tráfico de drogas e extorquindo estabelecimentos de entretenimento em La Boca. Mas parou de cooperar com a diretoria do clube.
Pelo contrário, começou uma guerra entre eles: membros da “La 12” tentaram, por meio de diversas ações, recuperar o controle sobre as transferências do clube e afirmaram querer os melhores jogadores no time. Mas isso era mais populismo: na verdade, eles queriam lucrar com as transferências – e isso não funcionou.

Mas Martin ainda era popular entre os membros da “La Doce”. Ele trouxe de volta os valores do futebol que haviam sido esquecidos sob Di Zeo. As brigas e a imagem visual vibrante no setor retornaram. O caso mais marcante foi a ação em 2008: pela primeira vez após os eventos de 99, um grupo de combate do Boca foi a um dos jogos fora de casa sem escolta policial e derrotou os oponentes.
Sob Di Zeo, os torcedores do Boca frequentemente contavam com a proteção da polícia, o que muitos não gostavam. Até hoje, a maioria das torcidas organizadas da Argentina considera a “La Doce” uma das grupos mais covardes do país, e o próprio Rafa como um traidor que vendeu a cultura das torcidas.
Por isso, o retorno dos irmãos pelos membros da “La Doce” foi recebido de forma ambígua. Metade esperava por isso, pois sabia que com Rafa era possível ganhar dinheiro. A outra parte havia experimentado o verdadeiro espírito do futebol e não queria voltar aos tempos mercantilistas. Isso levou a uma guerra em larga escala dentro da torcida organizada do Boca.
O conflito durou três anos e ceifou dezenas de vidas. O ponto final foi o assassinato de duas pessoas próximas a Martin: uma vingança pela morte de Ernesto Cirino, um homem de Di Zeo, que havia sido eliminado dois anos antes. Só então a polícia interveio.
Naquela época, Macri era prefeito de Buenos Aires, mas já almejava a presidência e não queria que os escândalos com a “La Doce” prejudicassem sua eleição. O político ordenou que se colocasse um fim à guerra. Ele pagou a dívida e evitou uma nova condenação: em certo momento, testemunhas que depunham contra Rafa começaram a desaparecer. Com base nesses depoimentos, Di Zeo poderia ser condenado à prisão perpétua, pois era o mandante da maioria dos assassinatos durante o conflito. Ambas as facções da “La Doce” foram forçadas a se reconciliar.

Di Zeo tentou recuperar lucros com transferências. Por isso, realizou 10 ataques à base do Boca
A disputa pelo poder terminou com apenas Rafa no comando da “La Doce” – seu irmão Fernando, cansado das constantes brigas, se afastou dos negócios. A divisão de influência lembrava um acordo entre clãs mafiosos: Di Zeo ficou com o crime, drogas, extorsão e política, enquanto Martín ficou com o futebol, performances, bandeiras e confrontos com inimigos. Itens não oficiais, ingressos do clube e o estacionamento do estádio iam para o caixa comum.
Mas Rafa não esqueceu a questão das transferências. Na época, o Boca era liderado por Daniel Angelici, que pagava a “La Doce”, mas apenas o suficiente para evitar rebeliões entre os membros. Ele não permitia envolvimento nas transferências.
Di Zeo tentou negociar com Angelici, mas não obteve sucesso. Então, Rafa partiu para métodos radicais: entre 2015 e 2018, o braço armado da “La Doce” realizou dez ataques à base do clube, invadindo o local e atirando pedras no ônibus.

Anhelichi reforçou a segurança, mas não adiantou: 200 pessoas invadiram novamente a base. Eles passaram pelos jogadores e começaram a destruir tudo: danificaram o ônibus, quebraram as janelas do prédio administrativo e viraram a academia de cabeça para baixo. A comissão técnica se trancou no vestiário, e os funcionários se barricaram em uma sala de apoio. A polícia só chegou 20 minutos depois. Vários funcionários do clube foram parar no hospital: o massagista sofreu fratura de duas costelas, e o administrador teve fratura de clavícula e concussão.
Após isso, o presidente do clube, Anhelichi, cedeu e propôs um acordo a Di Zeo: nenhuma participação nas transferências, mas ele teria o banimento suspenso do “Bomba Nera”, podendo entrar no vestiário, abraçar os jogadores diante das câmeras e organizar grandes ações de apoio que aparecem nas transmissões e nas manchetes dos jornais.
Rafa se tornou o principal rosto midiático da torcida organizada do “Boca”: entrevistas, capas de revistas – toda a Argentina conheceu seu nome. Agora ele não é apenas um líder criminoso de La Boca, mas uma lenda.
Rafa tentou se tornar presidente do clube, sem sucesso. Agora vende marmitas: o preço varia de 70 a 700 dólares

Em dezembro de 2018, a final da Copa Libertadores entre Boca Juniors e River Plate foi transferida, pela primeira vez, para outro continente devido a distúrbios – para Madri, no Santiago Bernabéu.
A despedida do Boca para este evento se tornou o principal assunto na Argentina. Foi um verdadeiro espetáculo com a participação de dezenas de milhares de torcedores, todo o processo liderado por Di Zeo. A partir desse momento, sua fama nacional começou, mas Rafa não foi autorizado a ir à final.
O tribunal removeu as restrições à sua saída do país, mas o diretor de segurança de eventos de futebol do governo argentino fez de tudo para que a Espanha não permitisse a entrada de Rafa.
Tanta atenção até ajudou o próprio Di Zeo. Depois disso, ele participou de todos os programas esportivos e podcasts da Argentina, criando, junto com os apresentadores, uma imagem de sofredor e messias ao mesmo tempo. Como um político experiente, ele habilmente suavizava temas e perguntas inconvenientes e, com o tempo, os substituiu completamente por histórias sobre assuntos relacionados ao futebol.
Até 2023, em La Boca, ele se tornou o herói mais popular do bairro, ao lado de Juan Román Riquelme, que no mesmo ano se tornou presidente do Boca. O autógrafo de Di Zeo passou a ser mais valorizado do que a assinatura de qualquer jogador da equipe.

Mas a Argentina do futebol não entendeu essa adoração popular por Di Zeo. O ponto final foi a candidatura de Rafa à presidência do Boca, em oposição a Riquelme. A participação nas eleições provocou uma enxurrada de comentários negativos sobre Di Zeo por parte de pessoas do meio futebolístico. Rafa nem tentou continuar sua jornada para a presidência: percebeu que era cedo demais e mudou de tática.
Ele abriu um restaurante na região metropolitana de Buenos Aires, onde vende jantares em sua companhia por 70 dólares – esse é o preço por um lugar no salão. Até 100 pessoas podem participar de cada encontro, o que gera 7.000 dólares de lucro líquido por noite. Um jantar individual com Rafa custa 700 dólares. Nos encontros, Di Zeo conta histórias de sua vida. Às vezes, ex-jogadores do Boca estão presentes.
Agora, ir a um jantar com Rafa é uma das atrações mais populares para torcedores de futebol de outros países. Os eventos estão agendados com seis meses de antecedência. Graças ao seu passado agitado, Di Zeo sempre tem histórias para contar.
A versão completa da pesquisa sobre o argentino já está disponível no ‘Vide Esportes’. Boa diversão!




