A Inglaterra de Tuchel: o legado de Southgate acabou antes da Copa do Mundo de 2026?

Palagin antecipa.

A Copa do Mundo de 2026 é o primeiro torneio em 10 anos que a Inglaterra não será liderada por Gareth Southgate. Seu legado ainda deixa muitas perguntas. Por um lado, há a consistência em chegar às fases finais – duas finais da Euro e uma semifinal da Copa do Mundo. Alturas inatingíveis até mesmo para a geração de ouro inglesa. Por outro lado, nenhum troféu e constantes críticas ao estilo de jogo.
Desta vez, o comando está com Thomas Tuchel. Um ano e meio do alemão foi um caleidoscópio louco: alfinetadas a Southgate na mídia, um mini-conflito com Jude, nenhum gol sofrido nas eliminatórias, desastres em amistosos, devoção às novas tendências da Premier League e uma convocação polêmica para a Copa do Mundo, ignorando Maguire, Trent, Foden e Palmer.
Essa combinação cria uma quantidade extraordinária de intrigas antes do início.
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Tuchel se livrará do “estilo Southgate”?
Na primeira coletiva de imprensa, Thomas admitiu: ele não gostava da forma como a Inglaterra jogava sob o comando de Southgate. Tuchel avaliou: “Eu sentia que os jogadores entravam em campo com uma tensão enorme. Eles jogavam como se o único objetivo fosse não perder. Isso aumentava a pressão. Faltava não apenas identidade e jogadas ensaiadas, mas também liberdade de expressão. Eles temiam ser eliminados mais do que desejavam vencer o torneio”.

Tuchel identificou bem o problema. Conseguiu consertá-lo? Difícilmente. O grupo de classificação com Albânia, Sérvia, Letônia e Andorra não é o melhor indicador de progresso. Por enquanto, só se pode falar sobre as ferramentas que Tuchel propôs.
● A principal tarefa de Thomas é “injetar o futebol de clube” (esta é uma citação). Os elementos-chave são a estrutura de posse de bola moderna e a aposta na pressão. Isso não tornou a seleção brilhante de imediato, mas definiu uma direção. Agora, a Inglaterra busca dominar as partidas. Ainda não se chegou ao domínio de jogo, mas o domínio territorial já não é mais um problema. Na fase de classificação, apenas 13% das ações foram realizadas na própria metade do campo – um recorde para as equipes europeias.
Ollie Watkins contou que Tuchel exige pressão constante, mesmo quando a equipe já garantiu o resultado. Ele explicou com o exemplo do amistoso contra o País de Gales, onde o time vencia por três gols no intervalo. Thomas pediu no vestiário para não parar e continuar pressionando.
● Tuchel escolheu para a lista final não os mais talentosos, mas especialistas em diferentes modos de jogo. Um reflexo claro disso é o grupo de atacantes convocados para a Copa do Mundo. Harry Kane é o titular. Ollie Watkins é o plano B para jogos em que é possível contra-atacar, se o adversário arriscar. Ivan Toney é a arma quando é preciso igualar o placar e abrir a defesa com jogadas mais diretas.
● Elliott Anderson, do Nottingham Forest, no meio-campo. Talvez a principal decisão de Tuchel em termos de elenco durante seu tempo na equipe. Anderson não é apenas um jogador do grupo, mas agora é o principal parceiro de Declan Rice no meio-campo. É capaz de acordar o time sozinho com passes verticais. Não só exige a bola, mas também está focado em criar oportunidades. Há falta de experiência, mas no seu caso, isso pode até funcionar como um ponto positivo (não sente pressão).
Tuchel conseguirá se entrosar com Jude?

Em um ano e meio na equipe, Thomas mostrou que não se deixa influenciar por nomes. Se precisar deixar uma estrela no banco, ele deixa. Se alguém não estiver em forma, ele chama outro. O princípio da meritocracia em ação.
Muitos sofreram com suas decisões, mas especialmente Jude. Sob o comando de Tuchel, ele teve apenas 4 aparições como titular. Um reflexo da pior temporada de sua carreira no “Madrid”, com duas lesões graves. Mesmo quando Bellingham estava disponível, Tuchel o deixava fora da lista. E, quando o convocava, frequentemente o colocava no banco. Ele o chamou para a Copa do Mundo, mas a relação está longe de ser ideal.
A abordagem direta de Tuchel só agravou os problemas. Em uma ocasião, ele disse que sua mãe achava Jude “repulsivo” por causa de seu hábito de empurrar os companheiros. Thomas esclareceu que se referia à mentalidade de Bellingham, mas acabou tendo que se desculpar pelas palavras.
Outra dilema é tática. Tuchel ainda não sabe exatamente como utilizar Jude. Ele destacou que o jogador pode atuar como falso 9, 10, 8 e até mesmo 6. E concluiu que, no momento, Jude é mais um “mix de 8 e 10 do que de 6 e 8”.
Essa indecisão certamente não é a melhor base, considerando a importância de Bellingham para a seleção. Apesar da idade, Jude brilhou nos últimos torneios. Atuou como herói salvador e como o mago que acorda a equipe de seu marasmo. No nível de seleções, jogadores assim são especialmente valorizados devido à falta de tempo e treinos.
Kane terá um grupo de apoio?

O principal problema da Inglaterra na última Euro foi a incompatibilidade de Foden e Bellingham na equipe. Southgate tentou escalar ambos, mas nunca encontrou a melhor solução. Consequência: um torneio decepcionante para Harry Kane, com três gols em sete partidas. Em certo momento, Southgate até começou a substituí-lo durante os jogos – uma surpresa, considerando o status e a autoridade de Harry na equipe.
Agora, o problema é de outra natureza: os atacantes ingleses chegam à Copa do Mundo após uma temporada terrível em seus clubes. Tuchel chamou atenção para isso no último encontro de março: “Eu gostaria que eles apresentassem números mais impressionantes. Temos o Harry, mas ele não é suficiente. Quem decidirá o resultado do jogo, se não for ele? Quem assumirá a responsabilidade, se ele não o fizer? Por enquanto, todos estão com problemas de produtividade”.
A escolha do trio atrás de Kane no esquema 4-2-3-1 é o principal quebra-cabeça de Tuchel no momento. Bukayo Saka é visto como o principal candidato para a ponta direita, não apenas por seu bom final de temporada no Arsenal, mas também por sua arma extra nas cobranças de escanteio. Há um porém: Bukayo ainda não se recuperou completamente de lesões. Ele treina, mas com dor e nem todos os dias. Não há alternativas de qualidade: Noni Madueke é ainda mais fraco como reserva (3+1 na temporada da Premier League), e a experiência com Watkins (que tem experiência na ponta) fracassou antes da Copa do Mundo.
Para a posição de meia-atacante, Morgan Rogers e Jude são os candidatos. O primeiro tem a seu favor uma ótima temporada no Aston Villa, com a vitória na Liga Europa. Além de um bom desempenho geral (10+6 na Premier League), ele não sofreu com lesões, ao contrário de Bellingham no Real Madrid. O segundo tem a experiência em grandes torneios.

Na esquerda, há dois candidatos – Marcus Rashford e Anthony Gordon. Tuchel exige que o jogador dessa posição vença no 1 contra 1. Ambos são capazes disso. A vantagem única de Rashford é a prática de jogo antes da Copa do Mundo. A vantagem de Gordon é a utilidade que ele traz em qualquer forma de pressão.
A compatibilidade com Kane é outro fator que Tuchel precisa considerar. Com Harry, Rashford e Bellingham se destacam um pouco mais. Marcus, por ter um estilo semelhante ao de Luis Díaz no Bayern. Jude, porque pode compensar o movimento de Harry em busca da bola com sua corrida para a área.
As novidades da FIFA não vão prejudicar os padrões da Inglaterra?
Os padrões são um trunfo que Tuchel queria explorar nos EUA. Não apenas pelo excelente conjunto de cobradores – James, Rice, Saka – mas também pela tendência que dominou a Premier League. Após a vitória sobre Andorra nas eliminatórias, Thomas revelou que pode até trabalhar jogadas de lateral longo, um recurso que os clubes ingleses popularizaram na última temporada.
O tema dos padrões da Inglaterra se tornou um dos principais até mesmo na coletiva de imprensa de Ronald Koeman. Apesar de a Holanda estar em outro grupo, esse aspecto ainda assusta Koeman: “Pelos jogadores que eles convocaram, podemos concluir o tipo de futebol que pretendem jogar. É claro que apostarão em escanteios e laterais. Isso não exige muito esforço. Eles não gastarão muita energia no calor em que todos jogaremos”.
O problema da Inglaterra são as novidades que a FIFA preparou antes do início da Copa do Mundo. Algumas delas afetam diretamente os padrões. Primeiro, o tempo para cobrança de lateral agora é limitado a cinco segundos. Importante: a contagem começa não assim que a bola sai pela lateral, mas apenas quando o jogador pega a bola e começa a avaliar as opções. A primeira rodada da Copa mostrou que a limitação pode ser contornada. Especialistas como Andy Robertson esperam o time se posicionar antes de pegar a bola. Duas equipes – República Tcheca e Tunísia – até marcaram gols após laterais. Agora, veremos o que a Inglaterra vai inventar.
Segundo, os árbitros agora prestarão mais atenção em empurrões e bloqueios na área. Podem anular um gol mesmo se o defensor for segurado antes da cobrança de escanteio. Como exemplo, Pierluigi Collina (atual chefe do comitê de arbitragem) citou o gol de Ben White em um amistoso contra o Uruguai. Na Copa do Mundo, um gol assim não seria validado porque Adam Wharton bloqueou um adversário na área.
Tuchel, ao saber das novidades, ficou furioso. Como argumento contra, citou a vantagem que a equipe defensora pode obter e a subjetividade do árbitro – alguns verão um bloqueio como falta, outros não. Isso já afetou a preparação da Inglaterra. Nos amistosos antes da Copa, a estratégia para escanteios foi alterada. Agora, eles estão mais propensos a tentar cobranças diretas ao gol e jogadas curtas.
O calor – um golpe potencial no pressing de Tuchel

Neste aspecto, Thomas, claramente, faz uma aposta especial. No pressing, ele vê não apenas uma ferramenta de controle, mas também uma ajuda na criação de momentos bônus em caso de recuperação de posse perto do gol adversário. Até mesmo as tarefas para Kane são formuladas de forma exemplar – com um foco no pressing. Ele chama Harry não apenas de principal ameaça, mas também de “o homem que inicia a pressão e dita o ritmo”.
A questão-chave: é possível o pressing de Tuchel sob o calor americano? Thomas vê nisso um dos desafios que terá de enfrentar nos EUA. A situação é agravada pela longa temporada dos clubes. Alguns – Rice, Saka, Eze, Madueke – terminaram os jogos pelo Arsenal apenas uma semana e meia antes do início da Copa do Mundo.
Um alerta para Tuchel – o recente comentário de Arrigo Sacchi, que treinou a Itália na Copa do Mundo de 1994 (também realizada nos EUA). O treinador chamou o clima de “impossível” para o jogo em alta intensidade que ele preferia antes do início do torneio.
Tuchel reconhece que seus jogadores também não estão acostumados a esse tipo de clima – ao contrário dos adversários do grupo, Panamá e Gana. A preparação começou ainda no ano passado. Em junho de 2025, os ingleses até treinaram em condições comparáveis ao calor dos EUA. E Tuchel e sua equipe consultaram especialistas de outros esportes. No final, elaboraram um programa de treinamento especial – considerando o impacto do sol no organismo.
A boa notícia – o jogo de estreia contra a Croácia será em um estádio fechado com sistema de refrigeração. Mas depois – o sofrimento sob o sol escaldante americano.
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