Futebol

Rubén Amorim assume o Milan – contrato até 2029 e filosofia do treinador

Cinco meses e 11 dias após ser demitido do Manchester United, Ruben Amorim acertou com o Milan.

O português deixou a Inglaterra com a reputação abalada – em meio a uma fase ruim no United e polêmicas em torno de seu sistema teimoso. Agora, surge a chance de reiniciar a carreira.

Amorim assinou contrato até 2029, com salário de 3,5 milhões de euros por ano

De acordo com a La Gazzetta dello Sport, o acordo vai até 2029 (inicialmente, falava-se em “3+1”). Fabrizio Romano tem informações ligeiramente diferentes – um contrato no esquema “2+1”. O salário de Amorim, segundo o A Bola, será de 3,5 milhões de euros por ano, além de bônus por conquistas e classificação para a Liga dos Campeões.

Na última temporada, o “Milan” terminou apenas em quinto lugar na Serie A: 70 pontos em 38 partidas e uma vaga na Liga Europa, em vez do retorno à Liga dos Campeões.

Rúben Amorim já concedeu sua primeira entrevista após a nomeação. “Existem ambições que você carrega ao longo de toda a carreira, e trabalhar no ‘Milan’ sempre foi uma delas para mim”, disse o português.

Amorim enfatizou que entende a grandeza do clube – a história, o prestígio, a enorme base de torcedores. E acrescentou que aceita o desafio “com orgulho e entusiasmo”.

O chefe do “Milan”, Gerry Cardinale, explicou por que o clube escolheu justamente Amorim: “Seu trabalho no ‘Sporting’ nos impressionou profundamente e reflete o estilo de jogo que precisamos”.

Cardinale chamou Amorim de um dos treinadores inovadores da nova geração europeia: jovem, ambicioso, com um futebol moderno baseado em posse de bola, pressão e uma estrutura tática clara. Ele destacou especialmente o futebol ofensivo, a pressão alta e as transições rápidas.

“Sua filosofia se encaixa perfeitamente com a nossa visão”, concluiu Cardinale.

“MU” economizará 8-9 milhões de libras em compensação

A mudança de Rúben Amorim para o “Milan” é uma boa notícia não apenas para o treinador. No “Manchester United”, também podem respirar aliviados.

Após a demissão do português, o clube inglês estava lidando com a questão da compensação para Amorim e sua equipe. Nos relatórios do “MU”, constava um valor de até 15,9 milhões de libras – potenciais pagamentos futuros após a separação.

Amorim rapidamente encontrou um novo emprego. Isso significa que o ônus financeiro para o “United” será significativamente reduzido. Fabrizio Romano fala em uma economia de oito a nove milhões de libras.

Amorim é um bom construtor. O “Milan” precisa de alguém assim, mas a questão é se lhe darão espaço para trabalhar

Existem dois Amorim.

O primeiro chegou ao Sporting, que havia saído do top 3, um Sporting que não vencia um título há 19 anos. Eles tinham 3% de chances de serem campeões. Amorim os tornou campeões duas vezes. Mais do que isso – devolveu o status anterior. Seu trabalho ia além da tática. Ele transformou o clube desde a base, estrutural e mentalmente, elevou e desenvolveu a juventude, inculcou novos princípios.

Esse Amorim é um excelente construtor – de equipe e de clube.

O outro Amorim chegou a um problemático Manchester para fazer o mesmo, e, ao enfrentar problemas – táticos e organizacionais, mostrou-se fenomenalmente teimoso. Havia nuances justificáveis, especialmente em relação ao entendimento entre o treinador e a diretoria. Mas Ruben poderia ter se concentrado nas dificuldades do jogo, assumido menos responsabilidades e, principalmente, dentro de sua área de atuação, mas não o fez. As dificuldades surgidas entre ele e o clube são bem ilustradas por uma frase dita no auge da confrontação: “Eu vim para ser o manager do United, não apenas o treinador”.

O Amorim de Manchester ficou marcado pelas palavras: “Nem o Papa me fará mudar o esquema”. Pouco antes de ser demitido, ele acabou mudando, mas parecia mais uma tentativa de se adaptar ao momento e ir de jogo a jogo para sobreviver à tempestade, e não o início de algo novo e de longo prazo.

O Milan não precisa de alguém assim: roubar do futuro é algo que na Itália sabem fazer muito bem, e ainda ensinam aos outros. Mas o construtor que recriou o Sporting e sonhava em fazer o mesmo em Manchester é necessário para o clube. A questão é até que ponto a diretoria milanesa entende isso. Em Lisboa, Amorim estava em sintonia com a gestão. Na Inglaterra, não. Muito depende do entendimento com os chefes.

Amorim e Milan coincidem mais ou menos na fase com a bola. Mas não na fase sem bola

O Sporting de Amorim marcou 93 gols na última temporada. O United, nos últimos 12 jogos antes da demissão, gerou em média três chances de gol e quase dois gols esperados por partida. A finalização falhou. Mas o sistema garantia a agressividade.

Seu futebol é um 3-4-2-1 com posse vertical e excelentes contra-ataques, que se baseiam na técnica dos laterais e no atleticismo do grupo ofensivo. O Milan já tem muito do que precisa na fase com a bola. A questão é mais como seu sistema funcionará em uma liga específica, focada em individualidades.

É verdade que metade do time está tentando sair de Milão. Mas, de certa forma, isso também é uma oportunidade: a chance de ouvir o treinador e escolher aqueles que realmente se encaixam.

A fase sem a bola preocupa mais.

Recentemente, Fábregas explicou pela milésima vez, desta vez aos britânicos do The Athletic, como o futebol italiano o moldou:

“Acredite, na Itália é difícil vencer. Eu analiso muito futebol. Assisto à Bundesliga, La Liga e Premier League. As equipes defendem de maneira completamente diferente da Serie A. Quando você assiste à Premier League, vê estrutura. Entende o que os times estão tentando fazer. Vê o estilo que eles aplicam. Aqui, muitas vezes isso é impossível. É impossível entender o que está acontecendo. Por isso, é necessário prestar muita atenção aos detalhes.

Em uma liga onde a defesa é desestruturada, é lógico buscar padrões de ataque que não dependam de estrutura. Foi assim que Cesc criou seu “Como”.

Por outro lado, em um contexto que se afastou de orientações posicionais rígidas na fase de posse, a defesa zonal volta a ser relevante e, de certa forma, até inovadora. Sarri e Grosso provam isso. Muitos tiveram dificuldade de se adaptar ao “Sassuolo” e, mais ainda, ao “Lazio” na temporada passada – e eles defendiam de forma estruturada, orientados pela bola.

Amorim defende da mesma maneira. Teoricamente, isso pode ser uma vantagem para ele.

O problema é que, na fase sem a bola, ele nem sempre convenceu. No caso do “Milan”, é especialmente importante que suas equipes sofriam no meio-campo. Dois meio-campistas são poucos para cobrir o espaço em um modelo zonal. E com Modrić, isso é quase um convite. Sem a bola, o veterano está muito distante das exigências de Amorim: ele precisa de um volante de qualidade, como Locatelli, Hjulmand ou um Ugarte em seu auge.

No geral, a contratação de Amorim é uma boa notícia. É um risco, uma ambição, uma tentativa clara de abandonar o uso secundário de treinadores locais usados e fazer algo especial. Não há garantia de que vai dar certo. Mas, pelo menos, prova que há vontade.

Ângelo Almeida

João Pedro Silva é um renomado jornalista esportivo português, formado… More »

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