Hieróglifos egípcios: uma das escritas mais complexas da história

Fala um egiptólogo.
A cultura do Antigo Egito parece imensa – milênios de herança, repletos de mistérios e histórias enigmáticas.
Uma parte importante dela é a escrita. Através de um sistema único de hieróglifos, podemos conhecer um pouco melhor o mundo do Antigo Egito.
É isso que faremos.
Lyubov Kurcheva fez as principais perguntas sobre esse sistema de sinais fascinante a um dos principais egiptólogos da Rússia, Viktor Solkin.

Tudo sobre hieróglifos: quais existem, quantos são e por que são tão complexos
– O que é um hieróglifo egípcio: uma letra, uma palavra ou algo intermediário?
– Um hieróglifo é uma pictograma, uma representação de uma pessoa, objeto ou animal.
Existem sinais que transmitem o som de uma ou de um grupo de consoantes ou semivogais guturais; há também os determinativos. Na ciência moderna, existem regras segundo as quais os sinais hieroglíficos são divididos em grupos. Por exemplo: homem e suas atividades, mulher e suas atividades, divindades antropomórficas, partes do corpo humano, animais e partes do corpo de animais, aves e partes do corpo de aves, anfíbios, répteis e insetos, plantas e assim por diante.
Este princípio de formação de grupos foi proposto pelo destacado linguista britânico Sir Alan Gardiner, que em 1927 publicou uma das melhores gramáticas da língua egípcia antiga. As listas de sinais tornaram-se um apêndice a esta gramática, pela qual a língua pode ser estudada até hoje. Cada sinal recebeu um código na forma de uma letra latina e um número, o que permite o uso dos sinais em programas modernos que trabalham com hieróglifos.

– Quantos hieróglifos existiam e era necessário conhecer todos eles?
– O número de sinais não era estável. Na época das Grandes Pirâmides (século XXVI a.C.) os textos contam com cerca de 800 sinais, e no final da existência da civilização egípcia, nos primeiros séculos da era cristã, nos textos nas paredes dos famosos templos de Dendera, Edfu, Philae, já se encontram cerca de 5 mil hieróglifos. Os sinais hieroglíficos serviram de base para aproximadamente dois milhões de palavras, o que torna o idioma egípcio antigo muito rico.
Os primeiros proto-hieróglifos surgiram nos séculos XXXIII–XXXII a.C., ainda antes da formação de um estado unificado nas margens do Nilo. A última inscrição, talhada pelo sacerdote Esmet-Akh na parede do santuário de Ísis na ilha de Philae, data do ano 394 d.C. A escrita egípcia desapareceu junto com os templos, que foram fechados à força pelos cristãos. As famosas bibliotecas foram queimadas e as escolas únicas de conhecimento científico foram destruídas.
A quantidade de sinais necessários dependia da educação e do status social da pessoa. O escriba da capital era mais educado que o provincial, e o conhecimento do sacerdote que ensinava crianças no Per-ankh – “casa da vida”, como era chamada a escola do templo, superava significativamente o conhecimento de muitos nobres. Na elite egípcia havia muitos intelectuais que se orgulhavam da educação, tinham extensas bibliotecas, gostavam de copiar pessoalmente em papiro as obras que lhes agradavam, ou encomendavam cópias aos escribas dos templos, que possuíam uma caligrafia de beleza excepcional.

– O que exatamente torna o sistema de escrita egípcio difícil de estudar hoje?
– A necessidade de não apenas memorizar os sinais, mas também de entender bem as variantes da escrita egípcia.
Há a hieroglífica – a escrita básica, mais comumente encontrada nas paredes de templos e túmulos.
A hieroglífica cursiva – hieróglifos simplificados para escrita rápida, usados, por exemplo, em papiros funerários caros.
A hierática – uma escrita cursiva muito simplificada, frequentemente encontrada em papiros.
E a demótica – uma escrita cursiva ainda mais simplificada, difundida no Egito no primeiro milênio antes da era comum, quando a civilização dos faraós já estava em declínio.
A diferença visual entre a hieroglífica e a demótica é enorme. Comparo-a à diferença entre um texto perfeito em um livro impresso e uma receita escrita às pressas por um médico.
– Qual é o principal equívoco das pessoas sobre os hieróglifos?
– Muitas vezes pensam que cada hieróglifo é uma palavra inteira. Isso é incorreto.
Há sinais que representam o som de uma ou mais consoantes. Há determinativos – indicadores que mostram a qual grupo de palavras ou conceitos uma palavra pertence. Há sinais que realmente estão associados a um conceito ou categoria, mas também contêm um grupo de sons.
A escrita hieroglífica é muito diversificada, multidimensional e difere bastante da simplicidade visual à qual os falantes de línguas europeias estão acostumados. Há muitas formas de escrita hieroglífica no mundo, e todas são diferentes.

Na verdade, não sabemos como soavam os nomes de Ramsés e Tutancâmon
– Por que é impossível entender o sistema da escrita egípcia sem os determinativos?
– Os egípcios, muito cedo, chegaram à divisão de todas as palavras em grupos semânticos. Cada palavra termina com um sinal determinante, que mostra a qual categoria da descrição do mundo pertence aquela palavra. O sinal de pele com cauda era o determinante para os nomes de mamíferos. A figura de uma pessoa sentada – para o que está relacionado a atividades, cargos, status. Um pergaminho de papiro enrolado e amarrado com corda – para conceitos abstratos.
Há muitos desses sinais na escrita egípcia e, além da função principal, eles ajudam a dividir visualmente a inscrição em palavras separadas, pois os egípcios não usavam espaços entre as palavras em uma mesma frase ou os sinais de pontuação que conhecemos.
– É verdade que um mesmo sinal podia ser lido de maneiras diferentes?
– Não. Cada sinal tinha seu próprio som ou significado constante.
Outra questão é que, para textos sagrados e hinos aos deuses, esculpidos nas paredes dos templos, a partir do final do II milênio antes da Era Comum, frequentemente usavam a enigmática – uma forma de escrita intencionalmente complicada, que não permitia que uma pessoa com educação padrão lesse o que não deveria ler e o que era segredo do templo.
– Como determinar em que direção deve ser lida uma inscrição hieroglífica?
– Os egípcios escreviam da direita para a esquerda, da esquerda para a direita e de cima para baixo. A direção da direita para a esquerda era a principal. Observe para onde estão voltadas as figuras de animais, pessoas, pássaros – e comece a ler os sinais na direção oposta.

– Por que os egípcios não adotaram um alfabeto completo, apesar de terem símbolos para consoantes individuais?
– Os egípcios chamavam sua língua e escrita de medu necher, que significa “palavra divina”. Eles atribuíam sua invenção a Thoth, o deus da lua, da magia e da sabedoria. Sua língua, em primeiro lugar, era voltada para necessidades internas e nacionais, e, em segundo lugar, era vista como um poderoso instrumento mágico, capaz de alterar o mundo e submetê-lo à sua vontade.
O complexo sistema de fonemas, determinativos e símbolos semânticos, que às vezes continham camadas de significados ocultos, fazia parte da cosmovisão do Antigo Egito, e não era apenas uma escrita para uso cotidiano. Sua escrita não evoluiu com base na simplificação, mas sim na busca por refletir realidades mais profundas, mitológicas e mágicas.
Quando, após a chegada de Alexandre, o Grande, o Egito se tornou parte do mundo helenístico, o grego penetrou na sociedade egípcia e passou a ser usado em documentos cotidianos e econômicos. Os hieróglifos e suas derivações permaneceram como parte do mundo sagrado dos templos e túmulos.
– Por que os egípcios quase não registravam vogais e como isso não impedia a compreensão mútua? Até que ponto conhecemos hoje a pronúncia da língua do Antigo Egito?
– A omissão de vogais na escrita é característica não apenas da escrita egípcia antiga, mas também de muitas outras línguas do Oriente Médio, como o árabe. Isso permitia acelerar significativamente o processo de escrita, especialmente sob ditado.
Não havia problemas de compreensão na época, mas os egiptólogos enfrentam um grande desafio: devido à ausência de vogais registradas, uma vocalização completa da língua egípcia antiga é impossível. Houve tentativas de reconstruir a pronúncia perdida por meio do copta, um descendente tardio do egípcio antigo (a língua dos cristãos egípcios), ou através de textos cuneiformes em acadiano, usado na antiguidade para correspondência internacional, inclusive pela corte real egípcia.
Infelizmente, todas essas tentativas são imperfeitas e hipotéticas. Para facilitar, no sistema acadêmico estabelecido de leitura, sons semivocálicos guturais são lidos como “a”, “u”, “o”, “i” próximos. O som “e” também é tradicionalmente usado para facilitar a pronúncia. Podemos traduzir com precisão textos templários egípcios complexos e apreciar a antiga poesia amorosa, mas não podemos reproduzir com exatidão como soava a língua egípcia na boca de alguém como Tutancâmon, por exemplo.

– Quão convencional é a pronúncia moderna de nomes como Tutancâmon ou Ramsés?
– Convencional. No nome Ramsés, a vogal “a” é, na verdade, um som gutural, próximo ao “ayn” árabe, e o “e” foi inserido para facilitar. Literalmente, está escrito: Rʽ-m-ss.
Para uma representação mais precisa das palavras egípcias, que podem conter vários sons diferentes próximos a “h” ou “k”, a ciência utiliza um sistema de transcrição especial. A “vírgula” na transcrição do nome Ramsés indica um som gutural curto, próximo ao “a”, mas ainda assim diferente.
Uma situação semelhante ocorre com o nome do faraó Tutancâmon. O som “u” era um gutural w, o “a” em “ankh” é um gutural curto ʽ, o “h” – um dos quatro do egípcio antigo – era próximo a “kh”, e no nome original do deus Imn nunca houve o som “o”.
Infelizmente, uma reconstrução completa da vocalização do egípcio antigo é impossível, e o sistema acadêmico de pronúncia estabelecido é conveniente e aceito na egiptologia internacional.
A alfabetização no Antigo Egito era para a elite. Mas havia exceções felizes
– Quão difundida era a alfabetização no Antigo Egito?
– As fontes escritas falam, claro, sobre a elite da sociedade egípcia. No entanto, há evidências do desejo da sociedade egípcia de educar crianças talentosas. Meninos de cinco anos eram enviados para escolas nos templos. Lá, estudavam escrita e língua por meio de famosos exemplos de literatura, memorizavam textos, lendo-os em canto, e depois analisavam a gramática.
O papiro era um material caro, então começavam a aprender em uma tábua de madeira coberta com gesso, em um caco de vaso ou em um fragmento de calcário. Há muitos exemplos preservados desses trabalhos, onde o professor corrige erros com tinta vermelha. O dia em que o aluno recebia o primeiro papiro – não novo, mas com um texto que já havia sido apagado várias vezes – era uma celebração. Os pais convidavam o professor para um banquete em casa e lhe davam presentes generosos.
Centenas de textos egípcios louvam o conhecimento e repreendem o aluno negligente. Aliás, na classe havia o chamado “irmão mais velho”, que podia explicar muitas coisas ao aluno com um bastão especial, pois “o ouvido do menino está nas costas, e ele ouve quando é batido”.
Uma menina podia receber educação em casa e depois ingressar em uma escola de sacerdotisas, onde não apenas aprendia escrita e matemática, mas também música e canto. É importante que o ensino não se baseava apenas na gramática, mas nos melhores exemplos de literatura refinada, textos patrióticos e obras de famosos escritores e poetas.

– É verdade que a profissão de escriba abria caminho para o poder e um status elevado?
– O domínio da escrita era a base de qualquer carreira no Antigo Egito.
Após receber a educação básica em uma escola templária primária, o jovem tentava construir uma carreira com base nas possibilidades da família. Muitos templos tinham escolas especializadas em astronomia, medicina e matemática, que permitiam a formação de uma elite intelectual no país, da qual surgiram notáveis sábios, cientistas, inventores e arquitetos.
Dos textos biográficos, sabemos que as escolas templárias davam atenção às crianças talentosas: se as famílias não tinham recursos para uma boa educação, o templo assumia o cuidado da criança. Esse foi o caso, por exemplo, do destacado arquiteto Amenófis, filho de Hapu, que no século XIV a.C. criou para seu faraó Amenófis III uma obra-prima como o Templo de Luxor.

Na base da cultura egípcia estava a concepção de preservar a memória do nome de um ancestral benevolente, um mestre. Quando os meninos começavam a escrever, ao mergulhar o caule de junco na água, eles deixavam cair a primeira gota no chão em memória de Imhotep – um grande sábio, arquiteto e astrônomo, que viveu no século XXVII a.C. e foi não apenas o criador de muitos cânones da arquitetura de templos e do calendário de 365 dias, mas também do primeiro monumento da arquitetura de pedra egípcia – a pirâmide do faraó Djoser.

Imhotep foi venerado como o fundador da tradição egípcia de sabedoria e erudição até o século IV da era cristã, ou seja, seu culto existiu por mais de três milênios.
– Por que para os egípcios era tão importante preservar ou, ao contrário, destruir o nome de alguém?
– O nome é a base da memória. A memória é a parte mais crucial da concepção egípcia sobre a imortalidade da essência humana.
Segundo as crenças egípcias, as pessoas vivas que veneram seus ancestrais concedem a eles a imortalidade e, em troca, recebem força vital e proteção. Quando em uma família pobre um menino recebia educação e um cargo, por exemplo, de escriba de templo, ele se esforçava para colocar na tumba familiar uma estela de pedra, na qual estavam inscritos os nomes de todos os seus irmãos e irmãs, cujas vidas não tiveram o mesmo sucesso que a do irmão que dominou a escrita e encontrou um lugar mais elevado na sociedade.
Gravar o nome de uma pessoa na pedra significava conceder-lhe a eternidade. E, ao contrário: destruir o nome de alguém em sua tumba fazia parte do ritual de maldição póstuma, quando se desejava apagar a memória dessa pessoa.
No sarcófago onde foi colocada a múmia de Akhenaton – o famoso faraó reformador religioso, amaldiçoado por seus descendentes – foram destruídos não apenas a máscara de ouro real, para desfigurar sua aparência, mas também os nomes reais. Para condenar sua personalidade e essência imortal ao esquecimento.
O nome era a base da ideia de vida eterna do espírito e, ao mesmo tempo, o centro de inúmeras práticas mágicas relacionadas a maldições e feitiços.

A humanidade só voltou a aprender a ler hieróglifos no século XIX. Uma pedra única ajudou a decifrá-los
– Como a humanidade perdeu completamente a capacidade de ler hieróglifos por séculos?
– A escrita hieroglífica desapareceu junto com os templos egípcios, que foram fechados com incrível rigor com a chegada do cristianismo. Naquela época, poucos ainda conheciam a língua egípcia, e o grego e o latim se tornaram as principais línguas de comunicação. Na Idade Média, os textos egípcios já eram considerados ornamentais, uma coleção de imagens misteriosas que, de alguma forma, continham conhecimentos secretos. A metodologia para ler e entender os textos foi perdida.
– Como a Pedra de Roseta se tornou a chave para a decifração?
– A Pedra de Roseta é parte de uma estela do faraó Ptolomeu V, contendo um decreto que concedia privilégios aos templos da grande cidade de Mênfis.

O mesmo texto foi escrito em duas línguas – grego e egípcio. Além disso, em egípcio, em dois tipos de escrita – hieróglifos e demótico simplificado. A placa com as “inscrições misteriosas” no forte de Rosetta (atual cidade de Rashid) foi encontrada em 1799 por um oficial francês durante a famosa campanha de Napoleão.
O genial linguista Jean-François Champollion, trabalhando com uma cópia em gesso do monumento, comparou os nomes dos faraós Ptolomeu e Cleópatra em ambas as partes da inscrição e, assim, encontrou a chave para ler a língua egípcia. Champollion era brilhantemente educado, conhecia várias línguas, incluindo o copta, o hebraico e o árabe, e, portanto, o caminho para a decifração estava ao seu alcance.
Em 22 de setembro de 1822, Champollion apresentou sua descoberta. Este é o aniversário da egiptologia como ciência: surgiu a possibilidade de ler inscrições nas paredes de templos e túmulos, em papiros e pedaços de calcário.
– O que foi mais difícil: memorizar o sistema de sinais ou aprender a ler e interpretar os textos corretamente?
– Em mais de dois séculos desde a genial descoberta de Champollion, a egiptologia percorreu um longo caminho.
Se inicialmente era mais importante ler corretamente e criar uma gramática o mais precisa possível (aliás, novas gramáticas surgem até hoje, mas muitas vezes são construídas com base no princípio da simplificação do material e são adequadas para aficionados esclarecidos, mas não para estudiosos), agora é diferente. Quando um corpus grandioso de textos do Antigo Egito foi lido, traduzido e publicado – desde documentos econômicos e correspondência até hinos templários e complexas composições funerárias – o mais importante é o estudo do contexto, das nuances, das particularidades da composição, a possibilidade de complementar uma fonte fortemente danificada, caso seja encontrada outra cópia do mesmo texto.
Tudo isso exige um conhecimento colossal e, claro, habilidades intelectuais extraordinárias. Nesse contexto, a egiptologia é frequentemente chamada de ciência elitista.

– Existem enigmas na escrita egípcia que ainda não foram resolvidos?
– Eu não os chamaria de enigmas. Há problemas científicos quando se trata de um texto religioso muito complexo ou de um tratado mágico com lacunas intencionais. Para a compreensão completa e publicação desses textos, às vezes são necessários os esforços de várias gerações de estudiosos de diferentes países.
Mas o principal problema da língua egípcia é a vocalização. Todos nós, egiptólogos, sonhamos em ouvir como falava Ramsés, o Grande.
O Egito é a base de todas as formas fundamentais da cultura europeia. O legado está em toda parte
– Pode-se dizer que os alfabetos modernos, de certa forma, descendem da escrita egípcia? Como é essa cadeia de desenvolvimento?
– Sim, é assim. Como resultado dos contatos comerciais dos egípcios com os países do Levante na Península do Sinai, surgiu um sistema simplificado de sinais hieroglíficos, o proto-alfabeto. Com base nele, foi criado o alfabeto fenício e, depois, o grego e o latino.
O grande orientalista russo Boris Alexandrovich Turayev dizia que o Egito está na base de todas as formas fundamentais da cultura europeia; qualquer que seja a que comecemos a examinar, na base sempre encontraremos o legado do Antigo Egito.
– É possível hoje aprender a ler textos egípcios antigos no original? Quanto tempo isso leva?
– Claro. Um curso básico de língua egípcia geralmente dura três anos. Mas é importante entender: as melhores gramáticas do egípcio antigo estão em inglês e francês. Não há uma gramática de qualidade em russo, apesar das inúmeras imitações.
Um fator importante para o sucesso é com quem você aprende a língua – estudar sem um professor experiente é inútil. Muito depende das suas habilidades iniciais e da prática posterior: quanto mais textos você ler, mais sólidos serão seus conhecimentos.
É importante entender que essa língua transmite a visão de mundo de um povo que viveu na antiguidade profunda e pensava o mundo de forma completamente diferente. Portanto, o estudo da língua egípcia é impossível sem a leitura de um grande volume de literatura científica sobre história, arqueologia e, especialmente, religião do Antigo Egito. Esses livros estão publicados em várias línguas europeias e quase nunca são traduzidos para o russo.
Portanto, ao se preparar para estudar a língua egípcia, é necessário dominar bem pelo menos o inglês e estar preparado para um trabalho muito árduo nos primeiros anos. É uma tarefa complexa. Mesmo no restrito círculo de egiptólogos profissionais russos, poucos especialistas dominam realmente a língua antiga. Após o curso básico com um professor experiente, será necessário aprimorar os conhecimentos ao longo da vida.

– Até que ponto é correto chamar a escrita egípcia de a mais complexa da história?
– Isso é um exagero.
A escrita egípcia é complexa devido à grande quantidade de sinais, à gramática, que difere significativamente daquilo que é familiar para quem estudou línguas europeias, e ao fato de conter muitos conceitos complexos. Acima de tudo, conceitos filosóficos, que não têm equivalentes nas línguas modernas e no código cultural europeu.
Infelizmente, na tradução, parte do significado sempre é simplificado. Caso contrário, seria necessário preservar os conceitos e termos egípcios originais, que são explicados em detalhes nas notas de rodapé. Para entender os textos egípcios, especialmente os religiosos, é essencial ter um conhecimento muito bom do contexto e da cosmovisão da época dos faraós. Simplesmente pegar e ler, mesmo em uma boa tradução, o famoso “Livro dos Mortos” não é possível. Na verdade, é possível ler, mas compreender o texto, sem possuir o necessário espectro de conhecimentos sobre a cultura, religião e cosmovisão dos antigos egípcios, é impossível.





