Futebol

📸 Zidane sofre, Barthez fuma, Jacques Chirac no vestiário. Imagens inéditas da seleção francesa na Copa do Mundo de 1998

Momentos que não podem ser dirigidos.

Stéphane Meunier é um cineasta e fotógrafo francês cujas obras deixaram sua marca não apenas no cinema, mas também na cultura esportiva.

Em 1998, ele passou cinco semanas com a seleção francesa e filmou o lendário documentário “Olhos nos Bleus” (Les Yeux dans les Bleus) – uma crônica sem precedentes dos bastidores da equipe durante seu triunfo na Copa do Mundo em casa. Lançado apenas dois dias após a final, o filme se tornou instantaneamente um fenômeno cultural e estabeleceu as bases para o “mito da França-98”.

Como Meunier se tornou um “invisível” na seleção e conseguiu imagens de chuveiros, vestiários e quartos de hotel

Antes da Copa do Mundo, o romance de Meunier com o esporte se limitava a um breve e, devo dizer, bastante confuso caso na Olimpíada de Atlanta dois anos antes. Mas quando o cheiro de um grande torneio surgiu, ele foi até Charles Biétry – então diretor da Canal+ (que detinha os direitos de transmissão do torneio) – e propôs acompanhar a seleção francesa.

Graças ao apoio da Canal+, Stéphane conheceu o técnico dos “Bleus”, Aimé Jacquet. Ele aprovou o projeto não por publicidade, mas para preservar memórias do torneio em casa para os jogadores. Para verificar se o diretor se encaixaria na equipe, Jacquet o convidou para o treinamento em Tignes.

Na primeira reunião, Ménier levou o mínimo de equipamento para não chamar atenção. Quando os gerentes perguntaram: “Ele conseguirá fazer uma foto se o presidente entrar no vestiário?”, Stefan entendeu que precisava de uma câmera. Assim, ele adquiriu uma pequena e quase brinquedo compacta Olympus.

A câmera sempre estava no bolso, e Ménier a usava como um caderno. A ausência de flash e equipamentos volumosos permitia manter a naturalidade do momento. Stefan conseguiu alcançar um estado único de “invisibilidade”: os jogadores se acostumaram tanto com ele durante as filmagens que simplesmente pararam de notar a câmera.

O diretor não buscava composição, mas fotografava instintivamente. Sim, as fotos às vezes saíam descuidadas, mas com o passar dos anos, justamente essa naturalidade lhes conferiu um valor emocional especial: ele conseguiu capturar o que não era destinado a olhos alheios.

Se o documentário de Menier focava na dinâmica da equipe e nos discursos de Aimé Jacquet, as fotografias capturaram o “silêncio”.

Nessas imagens granulosas, Zidane ainda não havia “endurecido” e mantinha os restos de sua cabeleira juvenil.

O grande e impetuoso Fabien Barthez, um dia antes da partida contra a Arábia Saudita, simplesmente deitava na cama com um cigarro, exalando fumaça junto com o cansaço.

E as camisas no vestiário antes da semifinal não estavam penduradas como peças de museu, mas como armaduras antes da execução ou do triunfo.

Vida na “jaula de ouro” de Clairefontaine: daqui Zidane fugia para cortar o cabelo

A seleção se preparou para a Copa do Mundo na base de Clairefontaine. E lá não se preparavam apenas para o futebol: respiravam, viviam e se escondiam dele. Este lugar no vale de Chevreuse é uma “jaula de ouro” na floresta de Rambouillet.

Por um lado, sessenta quilômetros até as luzes de Paris, perto das propriedades dos Rothschilds e dos Vuittons, e por outro, um silêncio tão profundo que é possível ouvir a grama crescendo no campo de treinamento.

Foi exatamente daqui que, em 5 de junho de 1998, a seleção da França partiu para Helsinque. Lá, no Estádio Olímpico, ocorreu um amistoso contra a Finlândia, que terminou com a vitória dos franceses por 1:0, graças a um gol de David Trezeguet nos minutos finais.

Aimé Jacquet, um homem meticuloso e, devo dizer, teimoso, construiu uma verdadeira fortaleza em Clairefontaine. Ele entendia que, se desse liberdade à imprensa, eles devorariam o time antes mesmo do apito inicial. Por isso, a isolamento total. Até os playoffs, os jogadores ficavam confinados, jogavam cartas, disputavam partidas de pingue-pongue e assistiam a gravações dos jogos dos adversários.

Chegava-se a situações curiosas. Zizu, em certo momento, não aguentou mais o confinamento e fugiu “sem permissão” – apenas para cortar o cabelo. Aparentemente, até os gênios às vezes se sentem incomodados com o penteado. Jacquet entendeu a indireta: imediatamente, um cabeleireiro pessoal foi contratado para a concentração, para que ninguém mais pulasse o muro.

Eles não entenderam até o último momento o que estava acontecendo no país. Ficaram sentados na sua floresta, como se estivessem em um tanque.

O assessor de imprensa Philippe Tournon lembrou mais tarde que a compreensão só veio no caminho para Lens, para o jogo contra o Paraguai. Quando eles viram aqueles corredores vivos ao longo das estradas, aquelas milhares de pessoas enlouquecendo neles… Foi então que eles perceberam: não era apenas um torneio, era uma cruzada nacional.

Foi exatamente lá, naquele silêncio estéril de Clairefontaine, que nasceu, talvez, o ritual mais absurdo e, ao mesmo tempo, grandioso da história do futebol. Quando Laurent Blanc encostou os lábios pela primeira vez na careca reluzente de Fabien Barthez. Parecia uma bobagem, um gesto insignificante. Mas, sem esse beijo e essa isolamento, temo que a “Marselhesa” talvez não tivesse ecoado sobre o Stade de France naquele verão.

É um ritual que nem mesmo a ausência de Blanc no elenco foi capaz de quebrar. Na final, em que os franceses enfrentaram os brasileiros, Blanc estava suspenso, então o comovente beijo aconteceu fora de campo.

No foco – a dor: como Zidane viveu a expulsão na fase de grupos

Marselha, Vélodrome, calor – e a França, que entra em campo não apenas para jogar, mas para prestar juramento ao seu próprio povo. Foi um início perfeito. A França venceu sem esforço excessivo, com solidez, como se espera de um futuro campeão. Já a África do Sul mostrou que sabe jogar, mas contra aquela máquina francesa naquela noite, ninguém tinha chances.

Na segunda rodada da fase de grupos, os franceses enfrentaram a seleção da Arábia Saudita, não tiveram problemas no confronto com esse adversário, mas Zidane, em um momento, perdeu a cabeça, pisou com as travas da chuteira em um oponente que estava no chão, e recebeu um justo cartão vermelho.

Como resultado, um dos jogadores-chave do meio-campo foi forçado a perder não apenas o último jogo da fase de grupos, mas também a partida das oitavas de final contra o Paraguai, com Chilavert no gol.

Stéphane Meunier frequentemente voltava com seus pensamentos àquele silêncio ensurdecedor no vestiário: “Eu não apenas tirava fotos – eu queria que cada imagem contasse sua própria história.

Por isso, tantas pessoas apareciam na minha lente: eu as fotografava, mas, acima de tudo, para elas. Lembro-me de entrar no vestiário logo após a expulsão decisiva de Zidane. Naquela hora, entendi: ninguém, além de mim, poderia capturar aquele momento e mostrar pelo que ele estava passando.”

A partida entre França e Dinamarca em Lyon, no dia 24 de junho de 1998, não foi apenas um jogo, mas uma prévia de uma grande vitória, que pairava no ar do estádio Gerland. Embora ambas as seleções já estivessem praticamente classificadas para as oitavas de final, os franceses não pretendiam jogar com menos intensidade: era importante para eles encerrar a fase de grupos com um desempenho perfeito diante de sua torcida.

Já no 13º minuto, as arquibancadas tremeram de entusiasmo – Youri Djorkaeff converteu o pênalti com sangue frio. O gol da vitória veio aos 56 minutos, marcado por Emmanuel Petit, selando o placar final de 2:1. Esse triunfo foi um importante teste psicológico para os “Bleus”: mesmo sem Zidane, suspenso, a equipe provou ter uma incrível reserva de força e uma determinação de ferro.

Presidente no vestiário: como as vitórias sobre o Paraguai e a Itália fizeram Chirac amar o futebol

A partida das oitavas de final entre França e Paraguai (28 de junho de 1998) entrou para a história como um dos confrontos mais tensos e dramáticos daquele torneio. O tempo regulamentar terminou em 0:0, e o destino do jogo foi decidido na prorrogação.

E então, o 114º minuto. Prorrogação. Trezeguet encontra a cabeça na área, toca a bola, e lá está Laurent Blanc. Não um atacante, nem o elegante Zidane, mas um zagueiro com cara de professor de geografia. Ele chutou com tanta força que a rede quase rasgou.

E acabou. Silêncio. Finita. Esse foi o primeiro “gol de ouro” da história das Copas do Mundo. Uma regra cruel, como um corte abrupto de filme: marcou – e o adversário não pode mais reagir, ele simplesmente vai arrumar as malas.

O quartas de final contra a Itália parecia mais uma partida de xadrez com motosserras. Não foi um espetáculo, foi uma tortura de beleza. Zidane contra Baggio. Duas seleções que tinham tanto medo de errar que transformaram o campo em Saint-Denis em um campo minado. 120 minutos de um absoluto e cristalino “nada” no placar. Mas que “nada”! A tensão era tanta que poderia carregar baterias apenas encostando-as na tela da TV.

Depois, veio a série de pênaltis. Loteria? Não, naquele dia foi uma execução. Roberto Baggio marcou o seu, lavando a vergonha de quatro anos atrás, mas não foi suficiente. Quando Di Biagio correu e acertou a trave, o mundo parou por um segundo. A bola foi para o céu, e a Itália, para casa.

Após essa exaustiva vitória sobre os italianos, um grupo de autoridades, liderado pelo presidente Jacques Chirac e pelo então chefe da Federação Francesa de Futebol, Jean Fournet-Fayard, visitou o vestiário dos franceses.

Chirac, que antes daquele torneio entendia de futebol mais ou menos como eu entendo de física quântica (ele até lia os sobrenomes dos jogadores em uma cola), de repente se transformou no maior fã.

Cabeçada de Zidane, o “pirata” de Blanc e a lâmina de Thuram: anatomia do triunfo francês

A semifinal contra a Croácia foi uma loucura total. Lilian Thuram, um jogador que nunca havia marcado pela seleção antes ou depois, de repente se transformou em um artilheiro implacável e marcou dois gols, levando a França à final de forma incrível.

E no outro polo, a tragédia de Laurent Blanc. Um cartão vermelho absurdo por um tapa em Bilic (que ele transformou em algo digno de um “Oscar”) e a compreensão: o jogo mais importante da vida passaria sem ele.

“Na semifinal, Laurent Blanc também recebeu um cartão vermelho. Ele sabia que perderia a final. Na manhã do dia da partida decisiva, entrei na cafeteria e vi um pôster com a sua imagem. Estava escrito: ‘Façam isso por ele’. Os caras, brincando, o fantasiaram de pirata. Tirei uma foto para guardar aquele momento – nossa memória coletiva”, relembrou Meunier.

A final da Copa do Mundo em casa já estava batendo à porta, e os “tricolores” – a principal esperança de toda a França – entravam na batalha decisiva no maior chill.

Enquanto a nação estava em febre pré-jogo, em Clairefontaine reinava uma estranha tranquilidade: os jogadores pedalavam preguiçosamente, trocavam piadas e pescavam.

Lilian Thuram decidiu eliminar tudo o que era desnecessário, não apenas em seus pensamentos, mas também em sua aparência – pegou uma lâmina e, com um movimento decisivo, removeu os cabelos, deixando um crânio perfeitamente liso.

Mas a descontração evaporava assim que o projetor era ligado na sala. Aimé Jacquet se transformava em um cirurgião obcecado, dissecando o jogo do Fenômeno. Na tela, Ronaldo, uma força imparável. Jacquet martelava aos defensores: “Dêem um metro de espaço – vocês estão mortos”.

O treinador analisava minuto a minuto seu drible característico, destacando como o brasileiro balançava o corpo, fazendo o oponente se mover na direção errada, para no instante seguinte ultrapassá-lo em velocidade máxima.

Eles sublimaram a energia do medo em motivação. O vestiário, o ônibus e os corredores de treinamento eram tomados pelo disco-beat de Gloria Gaynor. “I Will Survive” deixou de ser um antigo sucesso para se tornar um manifesto de sobrevivência. Os jogadores gritavam o refrão com todas as forças, criando em torno da equipe uma cúpula impenetrável de união, ritmo e uma confiança selvagem de que a taça permaneceria em Paris.

Aquela final em Saint-Denis parecia uma tragédia clássica, onde o protagonista não era o gênio, mas um atleta com rosto de filósofo. Zinedine Zidane, que normalmente regia o jogo com as pontas das chuteiras, naquela noite decidiu tudo… com a cabeça. Dois golpes, duas sentenças – e a “mágica” brasileira desmoronou como um castelo de cartas sob o vento parisiense.

Além disso, o “dentuço” passou por uma situação desagradável na véspera da partida – Ronaldo sofreu um mal-estar que os médicos não conseguiam explicar, e sua participação na final estava em sério risco. No entanto, Mário Zagallo escalou o atacante como titular e errou – Ronaldo foi uma sombra apagada de si mesmo.

E depois, quando o champanhe já inundava o vestiário, Jacques Chirac entrou. Stéphane Meunier tirou do bolso sua Olympus e capturou o triunfo.

Chirac abraçava os rapazes suados e felizes, confundia seus nomes, mas brilhava como se ele mesmo tivesse acabado de jogar 90 minutos na lateral do campo. Era o triunfo não apenas de uma equipe, mas de uma nação inteira, confinada em uma pequena sala junto com seu presidente e a taça de ouro.

Victória Simões

Ela é uma renomada jornalista esportiva, formada pela Faculdade de… More »

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20 Comentários

  1. Uau! Muito legal! Henry magrinho, Zidane com cabelo, Thuram fortão. Obrigado por esse material! Vou procurar o documentário.

  2. Final, noite de verão, eu tinha 13 anos, um dos melhores dias da minha vida… Eu era o único torcendo para os tricolores em uma casa cheia de parentes na frente da TV, e não só em casa… O único no bairro (não estou brincando), parecia que eu era o único em todo Sochi (todo mundo era fã do Rivaldo, Ronaldo, Roberto Carlos e companhia). Ninguém poderia imaginar que algo assim poderia acontecer na final contra aquela invencível e temida Brasil…. Depois de cada gol francês, o bairro ficava em silêncio absoluto, interrompido apenas pelos meus gritos e pelo horror silencioso dos outros. E não é só isso… Dois gols foram marcados pelo homem que me fez amar o futebol… Uma das melhores noites da minha vida… Allez les Bleus..
    Obrigado, caro autor, por trazer lembranças agradáveis!

    1. Não era o único, não assisti ao jogo) mas torci para os franceses contra todo o bairro…. Tudo porque meu pai comprou um conjunto de camisa e shorts da França 98 😍

  3. Obrigado pelo artigo. Talvez a melhor Copa do Mundo. Talvez pela nostalgia – seja pela grande era do futebol, seja apenas pela infância. Quando não havia internet nem celulares, mas havia o campinho no bairro e os álbuns Panini da banca ao lado de casa. Futebol com fragmentos de lendas dos anos 80, heróis da infância dos anos 90 e o futuro dos anos 2000. E com o melhor hino – pode-se não gostar de Ricky Martin, mas ‘The Cup of Life’… é sensacional!!
    O careca Candela surpreendeu)

    1. Palavras de ouro! A Copa de 98 foi realmente a última da era ‘pré-digital’, quando o futebol era sentido de forma mais intensa. E um ponto extra para o Ricky Martin – nenhum hino superou a energia desse até hoje. A nostalgia bateu forte! ❤️

  4. Palavras de ouro! A Copa de 98 foi realmente a última da era ‘pré-digital’, quando o futebol era sentido de forma mais intensa. E um ponto extra para o Ricky Martin – nenhum hino superou a energia desse até hoje. A nostalgia bateu forte! ❤️

  5. De nada, Ogannes! É bom poder, nem que por alguns segundos, voltar mentalmente à infância.

  6. Zidane é um gênio. O brilho dele – não no sentido de pompa, mas em termos de aura, escala de personalidade em campo e na equipe.
    Muitas coisas só se veem com o tempo, mas parece que não fazem mais jogadores como ele.
    Grizmann em 2018 chegou perto. Performance grandiosa.
    Isso falta ao Mbappé. Um passo para a eternidade, mesmo após o hat-trick na final da Copa de 22. 🤷‍♂️
    E, em geral… acho que as redes sociais de alguma forma desumanizaram as pessoas, afinaram a matéria que forjava a grandeza humana.
    Não é que éramos mais jovens, ou até crianças, não – é que não havia smartphones com redes sociais. E até jogadores comuns pensavam em coisas maiores, não em curtidas e contratos publicitários. Existia privacidade e um certo mistério, alquimia. E não, o frenesi e a atenção pública sempre existiram, o fenômeno dos paparazzi tem séculos. Mas treinadores e dirigentes inteligentes protegiam os atletas disso, entendendo a nocividade do fenômeno. Hoje, essa sabedoria e visão de futuro são cada vez mais raras.
    E não, a França não ganhou o título em 2018 só porque Deschamps permitiu o uso de redes sociais para os jogadores aliviarem o estresse.

  7. Não era o único, não assisti ao jogo) mas torci para os franceses contra todo o bairro…. Tudo porque meu pai comprou um conjunto de camisa e shorts da França 98 😍

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