Sombrero – como o chapéu se tornou um importante símbolo do México – Seu pé

Sabe Yuri Istomin.
Sombrero – o símbolo mais reconhecível do México e um atributo obrigatório de seus torcedores em todas as Copas do Mundo.




Contamos quando esse chapéu maravilhoso apareceu e como ele está ligado ao futebol.
Sombrero – em espanhol, qualquer chapéu. No México, os pastores usavam chapéus de abas largas
“Ao sul da fronteira” – é assim que se pode traduzir o nome de um ponto de parada para turistas em carros na Carolina do Sul. Bem perto fica o estado vizinho, a Carolina do Norte. O local surgiu em 1949, quando o empresário Alan Shaffer abriu uma pequena loja de cerveja. Na Carolina do Sul, as regras para a venda de álcool não eram tão rigorosas quanto na Carolina do Norte, e a rodovia 95, que passa por lá, é a principal da costa leste. Com o tempo, surgiram dezenas de letreiros de néon, lojas de souvenirs, restaurantes mexicanos e muito mais. E, para atrair a atenção e atrair turistas, foi construída uma torre de 60 metros com um enorme chapéu de concreto em forma de sombrero. Dentro dela, há um mirante com vista para campos e estradas.
Hoje, é um símbolo do kitsch rodoviário americano e uma paródia absurda do México. O chapéu é um dos maiores sombreros do mundo.

Sombrero é parte do DNA do México e de muitos estados do sul dos EUA, e está intimamente ligada à história de uma enorme região. Formalmente, qualquer chapéu é um sombrero, porque a palavra, traduzida do espanhol, significa cobertura para a cabeça (derivada de sombra – “sombra”). O famoso sombrero mexicano tem um antecessor europeu. Na Andaluzia, durante a Idade Média, usavam-se chapéus largos que protegiam do sol durante longas cavalgadas. Eles eram chamados de Sombrero de clatite, e externamente lembram o acessório de abas largas dos mexicanos.

Durante a colonização da América, os espanhóis trouxeram para o novo continente cavalos, a cultura equestre e chapéus grandes. No entanto, o clima mexicano revelou-se muito mais severo: calor intenso, sol escaldante e vastos espaços abertos. Por isso, os chapéus foram modificados: as abas tornaram-se ainda mais largas para proporcionar mais sombra, e a estrutura ficou mais rígida e resistente.
A partir do século XVIII, os charros – pastores e proprietários de terras – passaram a usar o sombrero para proteger o rosto dos raios solares implacáveis. Foi nessa época que o modelo se tornou um clássico, embora ainda existissem muitas variações. Os charros ricos enfeitavam os chapéus com bordados e ornamentos de prata, enquanto os camponeses mais simples usavam versões de palha.
A imagem do mexicano com sombrero foi popularizada pelos filmes de faroeste. Nos EUA, o uso do chapéu é considerado ofensivo por alguns
Até 1848, toda a região oeste dos EUA, do Kansas à Califórnia, fazia parte do México. Os charros se dirigiram para essa área quase desabitada em busca de novas terras para pastagem do gado. Lá, viviam tribos indígenas pouco numerosas, e as pradarias foram colonizadas relativamente rápido. Os charros mais ricos possuíam ranchos, enquanto todo o trabalho pesado era realizado pelos vaqueros. Eles também usavam sombreros, mas com um visual mais simples: roupas de trabalho, decoração mínima e, na maioria das vezes, montados a cavalo.

Depois que o México perdeu a guerra para os EUA e perdeu metade de seus territórios, os donos e trabalhadores dos ranchos se misturaram com os novos colonos da costa leste. A cultura dos pastores mexicanos se transformou, e os vaqueros passaram a ser chamados em inglês de cowboys. No início, eles pareciam exatamente iguais – chapéus enormes, laço e uma multidão de gado por perto. Com o tempo, as diferenças entre os vaqueros mexicanos e os cowboys americanos se tornaram muito maiores.
O sombrero foi gradualmente substituído pelo “Chefe das Planícies”. Em 1865, o chapeleiro americano John Stetson desenvolveu um novo modelo – o Boss of the Plains. Ele se tornou quase o principal símbolo do Velho Oeste. O chapéu se mostrou quase perfeito para a vida nos novos territórios. Ele também tinha abas largas, que protegiam do sol e da chuva, mas não eram tão grandes a ponto de atrapalhar o lançamento do laço. A copa alta (parte superior do chapéu) permitia que a cabeça respirasse, e o feltro resistente protegia da chuva. Com o tempo, os cowboys fizeram algumas alterações na forma do “Chefe das Planícies”, dobrando as abas para cima e criando marcas características na copa – assim, o chapéu era mais fácil de segurar com a mão.

No México, continuavam a usar o sombrero, embora o modelo Stetson também fosse valorizado. Hollywood consolidou a clara fronteira política entre os chapéus relacionados. Na década de 1930, muitos faroestes foram filmados nos EUA. O cinema ainda era em preto e branco, então imagens compreensíveis e reconhecíveis ajudavam a entender o que acontecia na tela. Por exemplo, os chapéus. Uma maneira simples de distinguir os “nossos” dos “inimigos”.
Nos filmes, os cowboys americanos usavam uma versão modernizada do “Master of the Plains”, enquanto os vaqueros mexicanos usavam sombreros de abas largas. O chapéu estava associado aos pastores do outro lado da fronteira, e no cinema os sombreros eram frequentemente feitos maiores e mais coloridos do que na realidade. Isso ditou tradições na vida real: os chapéus reais foram gradualmente adaptados ao padrão cinematográfico. Assim, o chapéu se transformou em um símbolo caricatural do México.

Hoje, o sombrero é um estereótipo mexicano reconhecível, e há tentativas de combater essa tradição. E, principalmente, não é no México ou em Guadalajara, mas nos EUA. Para alguns americanos, ainda é um símbolo inofensivo do México, ao lado da música e da comida. Para outros, é um velho clichê de Hollywood. O chapéu enorme se tornou parte de uma imagem coletiva ofensiva do bigodudo despreocupado com um violão, tequila, em um traje colorido com um cacto ao fundo.

Na década de 2010, surgiram discussões acaloradas sobre apropriação cultural. Nos EUA, conflitos surgem, por exemplo, em torno do Halloween e da celebração do “Cinco de Mayo” (comemorado em 5 de maio em homenagem à vitória do México sobre a França em 1862). Ativistas pedem que não se use a imagem de um mexicano com sombrero como fantasia cômica. Em algumas faculdades, os estudantes até são aconselhados a evitar chapéus, bigodes falsos e ponchos em festas temáticas.
Na Grã-Bretanha, também há muitos opositores do sombrero. Em 2015, a união estudantil da Universidade da East Anglia proibiu a distribuição de sombreros em eventos para calouros, considerando-os um “estereótipo racista”. A história se espalhou rapidamente pela mídia americana e europeia como um exemplo de combate a clichês étnicos.
Os críticos insistem: o problema não é o chapéu em si, mas o fato de a cultura mexicana ser reduzida a um conjunto de banalidades. Para muitos mexicanos, isso parece tão caricatural quanto se toda a cultura americana fosse reduzida a um cowboy com revólver, ou a russa a ursos com balalaica.
No entanto, no México, o sombrero ainda é parte da identidade nacional, e as pessoas se orgulham dele. O chapéu é usado por músicos mariachi, charros e torcedores de futebol.
O México sediou a Copa do Mundo duas vezes – e ambos os mascotes usavam sombrero
Em 1968, a Cidade do México sediou as Olimpíadas de Verão, que entrou para a história também por seu visual impressionante. Os organizadores queriam mostrar ao mundo um novo México – sem cactos e sombreros. O principal símbolo dos Jogos foi o logotipo – simplesmente a inscrição Mexico 68, mas em um estilo muito reconhecível. As linhas preto e branco lembravam simultaneamente os pôsteres psicodélicos dos anos 1960 e os ornamentos tradicionais dos povos antigos que habitam o território do país.

Para a época, parecia fresco e ousado. Além disso, um estilo unificado surgiu literalmente em todos os lugares: nas ruas, ingressos, pictogramas, gráficos de televisão, pôsteres e souvenirs. No México, as Olimpíadas ganharam uma marca visual completa, e muitas soluções de design daqueles Jogos foram copiadas em todo o mundo depois.
O grande fracasso dos organizadores foi o mascote. Um jaguar vermelho. Sua imagem foi inspirada em uma escultura encontrada por arqueólogos durante escavações em Chichén Itzá, o centro cultural maia. E isso é justamente interessante no contexto do estilo visual daqueles Jogos. O talismã era mais informal, não foi promovido, nem mesmo recebeu um nome, e visualmente não era muito memorável. No final, o Jaguar Vermelho não se tornou cult.

Talvez por essa razão, os organizadores da Copa do Mundo de 1970 desenvolveram uma imagem mais compreensível e simples. Assim surgiu Juanito – um menino sorridente vestindo o uniforme da seleção e um luxuoso sombrero.

Ninguém mais tentou mostrar um “outro México”. A caricatura funcionou muito melhor para o reconhecimento do país. Juanito parecia um mexicano, se não dos faroestes americanos, então simplesmente da cultura popular. Juanito se tornou um dos símbolos mais reconhecíveis das Copas do Mundo e estabeleceu um padrão para futuros mascotes do futebol.
Dezesseis anos depois, o México sediou novamente a Copa do Mundo. Inicialmente, o torneio foi concedido à Colômbia, mas lá uma verdadeira guerra contra o narcotráfico estava em andamento. Os novos anfitriões não complicaram as coisas e criaram uma imagem ainda mais estereotipada. O mascote Pique. É uma pimenta jalapeño com bigode e um enorme sombrero.

O chapéu, desde 1970, ficou ainda maior. Um personagem assim vendia muito melhor do que uma criatura desconhecida de uma misteriosa civilização antiga.
A largura do maior “sombrero” do universo é de 50.000 anos-luz
Em junho, o sombrero pode ser visto não apenas em restaurantes mexicanos e transmissões de TV, mas também em telescópios. Embora o melhor momento para observação no hemisfério norte seja o final da primavera. Procure no céu a constelação de Virgem – perto do equador celeste. Lá estará a galáxia “Sombrero”.
Ela foi descoberta quando charros e vaqueros ainda estavam experimentando chapéus grandes – em 1781. Foi encontrada pelo astrônomo francês Pierre Méchain, embora na época ele ainda não soubesse que se tratava de uma galáxia inteira. Méchain era um “caçador de cometas” e constantemente vasculhava o céu em busca de novos objetos. Um dia, ele notou uma estranha estrela imóvel. Mais tarde, seu colega Charles Messier atribuiu a designação ao objeto espacial – M104.

Só na década de 1920 os cientistas estabeleceram que se tratava de outra galáxia. Até então, os telescópios haviam se tornado mais potentes, e com sua ajuda foi possível ver como as linhas de luz se irradiavam do centro. Com o desenvolvimento da astrofotografia e o surgimento de imagens do telescópio Hubble, os astrônomos conseguiram observar detalhes. Não há dúvidas: a M104 é muito semelhante a um sombrero, embora esse nome tenha se consolidado de forma não oficial.
Os “campos” são enormes: ela tem 50.000 anos-luz de largura, o que equivale a um terço do tamanho da nossa galáxia, a Via Láctea. A viagem até ela é infinitamente longa – quase 30 milhões de anos-luz.




