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O mistério dos assentos vazios na Copa do Mundo: por que a FIFA anuncia ingressos esgotados?

Análise de Igor Sergueiev.

Na primeira semana da Copa do Mundo, a FIFA anunciou vendas recordes de ingressos, enquanto os assentos vazios nos estádios foram explicados pelo fato de as pessoas “estarem nos corredores”. Onde está a verdade? Tudo está indo conforme o planejado?

Como a FIFA explica os assentos vazios com um público recorde?

A FIFA registra uma excepcional média de público atual na Copa do Mundo de 2026 – uma média de 65.524 espectadores por partida.

Esses são os melhores números médios das últimas sete Copas do Mundo. Para comparação: no Catar-2022, os números pararam em 53.191 torcedores por jogo.

O recorde absoluto de média de público é da Copa do Mundo de 1994 – 68.991 espectadores por partida. Mas, após um início tão animador da Copa de 2026, há todos os motivos para acreditar que o máximo histórico será logo superado.

A média de ocupação dos estádios é de 99,5%. Oito dos primeiros vinte e quatro jogos da Copa de 2026 tiveram lotação máxima, em outros dez as arquibancadas tiveram apenas um porcentual de lugares vazios e em nenhuma partida houve mais de três por cento de assentos desocupados. Não há dados confiáveis sobre outras Copas (exceto a do Catar-2022, com 96,3%), mas é possível supor que também em termos de média de ocupação o torneio atual caminha para um recorde.

Parece tudo perfeito, só que há um detalhe: esses são dados oficiais da FIFA. Esses porcentuais geraram dúvidas desde o primeiro dia.

Se o esgotamento de ingressos para a partida de abertura entre México e África do Sul não causa questionamentos, as impressões visuais do jogo entre Coreia do Sul e República Tcheca não coincidem com os números da FIFA para algumas pessoas.

Os espaços vazios das cadeiras vermelhas no Estádio Akron, em Guadalajara, foram muito visíveis durante a transmissão.

Enquanto isso, a FIFA acabou relatando que o estádio estava 99% cheio – 44.985 espectadores, com uma capacidade total de 45.664 lugares.

E tem mais. Aqui está a imagem do jogo entre Canadá e Bósnia em Toronto com 99,9% de ocupação nas arquibancadas.

E este é o cenário da batalha entre Catar e Suíça em Santa Clara, com uma taxa de ocupação de 98,7% da capacidade.

As contradições são tão grandes que a FIFA teve que se explicar.

«A estatística oficial de público reflete o número de ingressos escaneados e espectadores presentes no estádio, e não uma avaliação visual da ocupação dos assentos em qualquer momento durante a partida. A FIFA trabalha em estreita colaboração com a administração do estádio e os serviços de bilheteria para garantir que todos os dados publicados sejam baseados em informações verificadas e em tempo real», diz o comunicado oficial. – Observe que, durante a partida de ontem em Guadalajara [Coreia do Sul – República Tcheca], vários torcedores com ingressos ficaram nos saguões, em vez de permanecerem em seus assentos durante todo o jogo».

As redes sociais explodiram. Aqui estão alguns comentários no post da FIFA no X.

«Que vergonha. Quem cuida do seu marketing nas redes sociais?»

«Então, as pessoas pagam preços exorbitantes apenas para ficar no saguão? A FIFA é administrada por mentirosos corporativos».

«Seu site de venda de ingressos é um desastre, sua política de venda de ingressos também é um desastre, vocês deveriam ter vergonha de ambos».

«Todos nós temos olhos para ver».

«Vocês estragaram o melhor torneio da história desse esporte. Todos vocês deveriam ter vergonha».

«Haha, isso é incrível. Talvez a melhor mentira da história. Claro, todos estavam no corredor».

No entanto, é preciso notar que a posição da FIFA não é sem sentido. As imagens podem ter sido feitas logo após o intervalo, quando os torcedores ainda não haviam retornado aos seus lugares. Por exemplo, no início do terceiro quarto das partidas da NBA, sempre há espaços vazios nos melhores lugares próximos à quadra.

Mas as críticas à FIFA não surgiram do nada: os preços dos ingressos são absurdos

A Copa do Mundo de 2026 é a primeira em que a FIFA ajusta manualmente os preços dos ingressos, avaliando a demanda.

Antes mesmo do início do torneio, alguns assentos ficaram dezenas de vezes mais caros. Em abril, o ingresso mais caro para a final chegou a 10.990 dólares, e um mês antes do início do torneio, a 32.970 dólares. Isso é cerca de vinte vezes mais do que o preço máximo da final da Copa do Mundo de 2022.

E isso considerando que, nas candidaturas para sediar a Copa do Mundo, EUA, Canadá e México indicaram que os ingressos para a partida de abertura custariam no máximo 774 dólares (para outros jogos da fase de grupos – 323 dólares), e para a final – 1.550 dólares.

Os preços dos demais jogos do torneio também dispararam. Por exemplo, lugares nas arquibancadas superiores para o jogo entre EUA e Paraguai custavam 1.940 dólares, enquanto os ingressos de primeira categoria (tribunas centrais) saíam por 4.105 dólares. Para o confronto entre Canadá e Bósnia e Herzegovina (aquele com assentos vazios), os valores chegavam a 1.645 e 3.360 dólares, respectivamente.

A política de preços da FIFA chamou a atenção das autoridades americanas. Segundo a CNN, no final de maio, promotores de Nova York e Nova Jersey solicitaram documentos internos sobre as vendas no “MetLife Stadium” (8 jogos, incluindo a final). Duas acusações específicas: a primeira é a variação de preços, em que os valores de 90 dos 104 jogos aumentaram, em média, 34% entre outubro e abril; a segunda é a manipulação dos mapas de assentos. A FIFA inicialmente dividiu o estádio em quatro categorias, depois adicionou novas zonas, e alguns compradores descobriram que seus lugares ficavam mais distantes do campo ou atrás do gol, embora tivessem pago por outra localização.

“Falar honestamente sobre a venda de ingressos não é complicado”, declarou a procuradora-geral de Nova Jersey, Jennifer Davenport. “Mas a FIFA transformou a compra de um ingresso para a Copa do Mundo em uma sequência de confusão, escassez artificial e preços exorbitantes, tudo às custas dos consumidores e dos trabalhadores de Nova Jersey”.

No entanto, os altos preços não afastaram os torcedores. Para alguns jogos, quase todos os ingressos foram vendidos antes mesmo do início do torneio. Para o jogo entre Alemanha e Curaçau, restavam nove ingressos a partir de 500 dólares; para Espanha e Cabo Verde, três por 1.250 dólares; e para Brasil e Haiti, oito por 2.280 dólares. Para um dos jogos mais prestigiados da fase de grupos, Noruega e França (que se enfrentam em 26 de junho em Boston), apenas dois ingressos estavam disponíveis por 835 dólares.

Além disso, mesmo para um jogo menos prestigiado como Gana e Panamá, restavam apenas 45 lugares por 1.125 dólares.

Portanto, os preços astronômicos não impediram a FIFA de lucrar.

“Até hoje, vendemos mais de seis milhões de ingressos [de um total de sete milhões disponíveis]”, declarou o presidente da FIFA, Gianni Infantino, em uma coletiva de imprensa antes do início da Copa do Mundo de 2026. “A demanda foi sem precedentes, superando a oferta em 10 vezes ou mais”.

Após o início do torneio, a demanda não diminuiu.

Uma hora antes do apito inicial, não havia ingressos disponíveis para a maioria dos jogos: por exemplo, Brasil x Marrocos, Austrália x Turquia, Espanha x Cabo Verde, Haiti x Escócia, Portugal x RD Congo, Inglaterra x Croácia, Uzbequistão x Colômbia.

Onde ainda havia ingressos, os preços eram relativamente acessíveis.

Vamos aos exemplos mais recentes. Para o jogo entre República Tcheca e África do Sul em Atlanta, uma hora antes do início, restavam apenas 71 ingressos, com preços entre 380 e 450 dólares.

Para o jogo entre Suíça e Bósnia e Herzegovina em Los Angeles, apenas 13 ingressos estavam disponíveis para venda livre, com preços variando de 500 a 1.500 dólares.

Para o jogo entre México e Coreia do Sul em Guadalajara, antes do apito inicial, restavam apenas 10 ingressos para assentos destinados a pessoas com deficiência, com preços entre 505 e 1.075 dólares.

Para o jogo Canadá – Catar, todos os ingressos foram vendidos. No entanto, durante a transmissão de quase todas as partidas mencionadas, assentos vazios apareceram nas imagens.

Para as fases eliminatórias, a demanda é, claro, ainda maior, embora ainda não se saiba quem estará em qual parte da chave. Atualmente, é possível comprar ingressos apenas para três jogos das oitavas de final, dois das quartas de final, e um para as semifinais e finais.

Portanto, não se pode afirmar com certeza que os preços afastaram os torcedores. Existe outro problema.

Ingressos são vendidos, mas para quem? Muitos estão com cambistas

Na Copa do Mundo de 2026, pela primeira vez, é possível revender ingressos oficialmente: através de uma plataforma especial da FIFA. Lá, é possível repassar qualquer ingresso, por qualquer preço e praticamente a qualquer momento (mas não mais tarde que uma hora antes da partida).

Por que a FIFA faz isso? Oficialmente: para proteger contra cambistas e revenda não autorizada de ingressos. Mas há uma explicação mais lógica – dinheiro.

O fato é que a FIFA cobra 15% tanto do comprador quanto do vendedor. Suponha que as partes acordem em 100 dólares – no final, uma pagará 115 dólares, e a outra receberá 85.

Agora, multiplique tudo isso por outro fator: uma pessoa pode comprar ingressos não apenas para si, mas também para convidados (não mais que 4 por partida, 40 para todo o torneio). Além disso, não é necessário indicar imediatamente esses convidados. Os ingressos podem ser transferidos para outra pessoa, e nem isso é obrigatório: o proprietário pode apresentar todos os ingressos no smartphone, desde que ele e seus convidados entrem no estádio juntos e pelo mesmo portão.

Assim, uma enorme parte dos ingressos disponíveis acabou na zona cinza – dezenas de vezes mais do que o que restou na venda primária. Obviamente, a FIFA criou uma indústria inteira que não pode controlar de maneira alguma.

Os preços, que já eram consideráveis, dispararam ainda mais.

Por exemplo, antes do início da Copa do Mundo de 2026, para o jogo entre Espanha e Cabo Verde, restavam 1.971 ingressos disponíveis no marketplace, com preços variando de 297 a 23.000 dólares. O custo de um lugar para o confronto entre Gana e Panamá oscilava entre 69 e 8.330 dólares, e para o jogo entre Alemanha e Curaçau, de 89 a 138.000 dólares. Para a partida de abertura, mesmo com ingressos oficialmente esgotados, mais de uma centena de bilhetes permaneciam disponíveis, com preços entre 450 e 28.750 dólares.

Agora, na plataforma, há ingressos para praticamente todos os jogos (inclusive para a final), mas há um detalhe.

Para a partida decisiva em Nova Jersey, é possível entrar pagando de 10,9 mil a absurdos 11,5 milhões de dólares por um ingresso.

O principal risco para a FIFA: ingressos vendidos não podem ser automaticamente equiparados à presença de público. Os organizadores lucraram com as vendas primárias, mas a questão principal é: quantos desses ingressos acabam chegando aos torcedores reais? Ainda mais se considerarmos apenas os ingressos escaneados.

Esse detalhe é tentador para explicar os assentos vazios, mas o mercado livre praticamente sempre segue a lei da oferta e da demanda.

Por exemplo, antes do início da partida entre Espanha e Cabo Verde, havia 280 ingressos sendo revendidos por preços entre 224 e 2.645 dólares, enquanto para o jogo entre Gana e Panamá, havia apenas quatro ofertas no intervalo de 437 a 513 dólares. Em outras palavras, quanto mais próximo o jogo, menos ingressos disponíveis e mais flexíveis os cambistas.

Para a partida entre República Tcheca e África do Sul, antes do jogo, era possível comprar 582 ingressos no mercado paralelo por preços entre 161 e 1.725 dólares.

Para o jogo Suíça x Bósnia, antes do apito inicial, eram oferecidos 98 ingressos a partir de 136 dólares na plataforma; Canadá x Catar tinha 52 lugares disponíveis a partir de 632 dólares; e México x Coreia do Sul, 7 ingressos a partir de 632 dólares.

Em escala de arena, isso é insignificante. Essa quantidade de ingressos não vendidos não afetou a transmissão televisiva, as arquibancadas pareciam cheias. Já o jogo República Tcheca x África do Sul é outra história. A FIFA relatou um público de 67.442 espectadores (98,8% da capacidade do Estádio Mercedes-Benz), enquanto ainda havia 653 lugares à venda (venda primária mais cambismo), principalmente nas tribunas centrais, que ficaram vazias.

Sim, há o risco de que, devido à grande quantidade de ingressos nas mãos de cambistas, as arquibancadas fiquem vazias, mas tudo depende do jogo. Quanto maior o status, menores são as chances de problemas com a presença de público.

Se alguém ainda acha que há mais lugares vazios nas arquibancadas do que os dados oficiais indicam, há outra explicação para isso.

Explicação simples para os lugares vazios: os torcedores americanos não ficam sentados o tempo todo

A cultura de torcer na América do Norte não é uma manobra da FIFA. O comportamento dos espectadores na NFL, NHL, NBA e MLB não é semelhante ao que estamos acostumados nos jogos europeus.

Nessas ligas, os visitantes estão acostumados a se mover dentro da arena, onde podem lanchar, conversar com conhecidos, assistir à transmissão nas telas e simplesmente descansar do barulho. Casos em que uma pessoa passa pela catraca e passa a maior parte do jogo no restaurante são bastante possíveis lá e impensáveis aqui.

Isso é especialmente notável nas arquibancadas no início dos tempos. Aqui estão imagens do jogo da República Tcheca contra a Coreia do Sul, cujas cenas justamente se espalharam nas redes sociais.

E aqui estão as mesmas arquibancadas mais perto do final da partida – os espectadores claramente se aproximaram de seus lugares.

Aliás, na partida dos tchecos contra os sul-africanos, a imagem pouco diferia.

E os torcedores não estão com pressa de ir às arquibancadas não apenas nos EUA. Aqui estão imagens da partida da seleção mexicana contra a Coreia do Sul em Guadalajara, que ocorreu com quase 100% de ocupação (45.522 espectadores para uma capacidade do “Estadio Akron” de 45.664).

Um caso à parte é o calor. Por exemplo, na partida entre Catar e Suíça em Santa Clara, a temperatura chegou a +28 graus, e o “Levis Stadium” é um estádio aberto, onde a arquibancada leste fica sob o sol direto na segunda metade do dia. Foi lá que foram tiradas as fotos mais assustadoras das fileiras vermelhas vazias. Os torcedores não deixaram o estádio, apenas encontraram algum lugar à sombra.

Sem dúvida, o programa de ingressos levanta muitas questões, especialmente a especulação legal. Mas, por enquanto, os problemas estão fora de contexto. É preciso sistematizá-los e discuti-los com calma, em vez de misturar tudo. Bem, se você realmente quer entender, e não apenas reclamar.

Ângelo Almeida

João Pedro Silva é um renomado jornalista esportivo português, formado… More »

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