História do hentai: de Go Nagai aos tentáculos e à censura no Japão

Uma breve história das histórias em quadrinhos eróticas.
No final dos anos 1960, o autor de mangás (quadrinhos) infantis muito popular, Go Nagai, recebeu uma encomenda incomum. Os editores de uma nova revista precisavam de vendas. Vendas muito altas.
Alguns meses depois, Nagai lançou o mangá “Escola Desavergonhada”. Este trabalho era diferente dos anteriores, que tratavam de robôs gigantes, super-heróis e garotas corajosas.
Os protagonistas da “Escola Desavergonhada” são alunos e professores que espiam garotas seminuas e tentam ver suas calcinhas.

Mangá com elementos eróticos dividiu a sociedade japonesa. Alguns se tornaram fãs e elevaram a tiragem da Weekly Shonen Jump a um milhão de exemplares. Outros – pais, professores e comitês femininos – organizaram protestos e queimas públicas de revistas provocativas.
As ameaças não pararam Nagai. Ele continuou desenhando mangás ousados e entrou para a história como um dos pais do hentai – ou seja, mangás eróticos e até pornográficos.
Com o tempo, o mangá de Nagai parece bastante inocente. O hentai se tornou muito mais explícito, migrou para fitas de vídeo e a internet, e conquistou o mundo.
O mangá conquistou o Japão após a guerra, e o hentai surgiu como uma provocação
Gravuras eróticas surgiram no Japão no século XVII. Eram chamadas de shunga e retratavam a vida cotidiana dos cidadãos. Uma característica era a variedade de posições e órgãos genitais aumentados.

Com o tempo, a shunga superou o gênero de imagens divertidas. Por exemplo, ela foi usada como guia para meninas que estavam prestes a se casar. Depois veio o declínio: os desenhos caíram sob censura estatal e o progresso técnico – eles foram substituídos por fotografias eróticas.
Em 1945, o Japão se rendeu na Segunda Guerra Mundial. O padrão de vida desabou, e as pessoas buscavam entretenimentos baratos. Em meio à depressão econômica, mas com uma rica tradição de ilustrações e o desenvolvimento da impressão, um novo gênero decolou – o mangá. Ou seja, quadrinhos longos em preto e branco (eles já existiam antes da guerra, mas foi no final dos anos 1940 que ocorreu o avanço) para todas as gerações, desde escolares até aposentados.
Para os editores, o mangá se mostrou lucrativo: mínimo de custos (um quadrinho – um ilustrador) e crescimento das tiragens. Os leitores atendiam a várias necessidades. Em primeiro lugar, uma revista de mangá era mais barata do que um livro clássico. Em segundo lugar, o mangá podia ser lido em qualquer lugar – de casa ao parque, mas o mais importante – no transporte. Nas grandes cidades, os japoneses passam horas no metrô e nos trens a caminho do trabalho. Antes da chegada dos smartphones, metade dos passageiros lia justamente mangás.
Em terceiro lugar, o mangá invadiu a TV e o cinema: os estúdios aprenderam a fazer séries baseadas em quadrinhos, que chamaram de anime. Assim, os personagens favoritos existiam em duas dimensões – no papel e na tela.

Em 1968, a corporação Shueisha lançou uma revista de mangá para adolescentes. O mercado já contava com fortes concorrentes, então a publicação precisava se destacar. A redação convidou Go Nagai, pedindo que criasse algo provocativo. Foi assim que surgiu a famosa “Escola Desavergonhada”.
Seu sucesso mostrou aos editores: o explícito vende. Após Nagai, dezenas de artistas migraram dos quadrinhos infantis para os adultos. Em poucos anos, o mangá erótico (hentai) se transformou em uma indústria separada, com tiragens milionárias.
Além disso, o hentai é uma resposta à censura. As proibições também deram origem aos tentáculos – monstros que interagem com mulheres
Por que justamente o Japão se tornou o berço do hentai? Décadas depois, é possível identificar várias razões.
🍓 O hentai é uma continuação lógica da cultura do mangá, assim como os filmes pornôs são uma extensão do cinema tradicional. Se surgiram quadrinhos de dezenas de gêneros – de comédias a ação –, os quadrinhos para adultos eram uma questão de tempo.
🍓 No Japão, existiram por séculos gravuras explícitas, romances eróticos e fotografias. Havia demanda da população – a cultura a atendia de diferentes formas, dependendo da moda e da época.

🍓 Em 1907, o código penal do Japão proibiu a disseminação de textos, desenhos e outros materiais obscenos. O artigo foi interpretado de várias maneiras, mas com o tempo os tribunais decidiram: atos sexuais e corpos nus podem ser mostrados, mas genitálias não.
Isso foi aproveitado pelos mangakás (autores de quadrinhos), pois no papel há menos restrições. Um artista pode alterar o ângulo, cobrir detalhes com objetos ou até substituí-los por símbolos. Portanto, uma lei que deveria limitar o erotismo, inesperadamente, ajudou os quadrinhos eróticos.
Em 1986, Toshio Maeda lançou o quadrinho “Urotsukidōji. A Lenda do Superdemoníaco”. Em um dos episódios, a heroína é envolta por uma criatura com tentáculos que a penetram.
“Antes de ‘Urotsukidōji’, era ilegal mostrar detalhes. Pensei que deveria fazer algo incomum, que surpreendesse e envolvesse emocionalmente. Por isso criei essa criatura. Seus tentáculos não são um pênis, mas apenas partes do corpo. O ser não tem gênero. Daí, pode-se concluir que mostrar tentáculos é totalmente legal”, explicou Maeda.

Sem perceber, o mangaká se tornou pioneiro de um gênero inteiro – o de tentáculos. Ou seja, criaturas que estupram garotas com seus apêndices. Aconteceu um paradoxo: um dos símbolos mais conhecidos do hentai surgiu justamente porque a representação direta de sexo era limitada por lei.
Um ano após o lançamento, o mangá sobre o superdemoníaco foi adaptado para as telas. Assim, os tentáculos invadiram o anime – dezenas de filmes pornográficos animados com sua participação foram lançados em fitas: “Invasão das Feras Demoníacas”, “Garota Azul”, “Surgida das Trevas”.
Alguém pode observar: Maeda não foi o primeiro. E é verdade: já em 1814, o artista Katsushika Hokusai lançou a gravura “O Sonho da Esposa do Pescador” – sobre a cópula entre uma mulher e um polvo. Mas o sexo com tentáculos só se desenvolveu como um gênero separado no final do século XX.
O sucesso impulsionou os autores a experimentar com robôs, demônios, monstros e alienígenas.
Outra variação é o lolicon (a legislação russa não nos permite descrever esse gênero). Alguns pesquisadores também associam sua popularidade às particularidades da censura. O fato é que o artigo sobre obscenidade proibia a representação de certos tipos de pelos. No cinema e nas fotografias, o problema era resolvido com retoques. Os mangakás inventaram outro método. Segundo outra versão, o lolicon não é consequência da censura, mas uma continuação da moda da kawaii, ou seja, da fofura e do encanto. Mas a essência não muda.
O hentai é muito diversificado: sobre garotas, garotos, nem tão garotos e até mesmo violência
Atualmente, o hentai abrange mais de uma dúzia de gêneros. Por exemplo, na onda do sucesso do lolicon, surgiu o shotacon, e logo depois o futanari (novamente, a legislação russa não permite explicar o gênero).

Para entender a escala do fenômeno, aqui estão mais alguns tipos de hentai:
Omorashi – relacionado à micção.
Mekosuji – com a representação da vulva em roupas justas.
Nekomimi – com garotas-gato.
Netorare – histórias em que o protagonista perde a namorada ou esposa para outro homem.
Guro – hentai violento, repleto de mutilações e necrofilia. O interesse pela mistura de erotismo e violência surgiu no Japão na primeira metade do século XX e, décadas depois, foi reinventado com novos personagens. O fenômeno se tornou tão popular que filmes de ficção foram produzidos com base no guro, sob o título geral “Cobaia Humana”.
A primeira parte, “Experimento Diabólico”, mostra torturas brutais contra uma mulher. A segunda parte, “Flor de Carne e Sangue” (cujo roteirista e diretor é o mangaká Hideaki Hino, autor do hentai “Sereia no Esgoto”) conta a história de um homem que sequestra uma mulher e comete atos terríveis.
Após isso, mangás explícitos da década de 1970 deixaram de ser chamados de hentai. Por exemplo, “Escola Indecente”, que já foi queimada por pais e professores, passou a ser classificada como ecchi – quadrinhos com leve conotação erótica.
Mangás e animes no estilo ecchi permanecem extremamente populares até hoje.

Hentai domina o mundo: é mais procurado do que qualquer outro tipo de pornô
No Japão, a palavra hentai não é usada em relação a quadrinhos. O termo “hentai seiyoku” é médico: significa perversão sexual. E hentai é como se chama uma pessoa que sofre de perversões. Referindo-se a mangás pornográficos, os japoneses dizem “jyūhachi-kin”, ou seja, “proibido para menores de 18 anos”.
Na Europa e na América, hentai não é um insulto. O Dicionário de Oxford o define como um subgênero de mangás e animes com enredos de natureza sexual.
O hentai chegou ao Ocidente com a disseminação dos videocassetes. O primeiro anime no formato OVA (para visualização doméstica em fitas) foi lançado no Japão em 1983. Era a ficção científica dramática Dallos. E já o terceiro anime em vídeo acabou sendo pornográfico.

Em 1984, 11 dos 17 OVA eram hentai e se espalharam para outros continentes. Na Europa e nos EUA, surgiram rótulos inteiros (como Anime 18), que distribuíam “A Lenda do Superdemon”, “Garota Azul” e outros sucessos. Depois, vieram os DVDs, sites e videogames com hentai, mas os personagens desenhados ainda perdiam para o pornô tradicional.
E então, chegaram os anos 2010. Em 2017, o hentai se tornou a segunda consulta de pesquisa mais popular no Pornhub. Isso continuou por quatro anos, até que, em 2021, ele assumiu a liderança – e mantém o primeiro lugar até hoje. Para entender o nível de concorrência, aqui está o top-5 em 2025: hentai, milf, filipinas, pornô lésbico, anal.
O vice-presidente do Pornhub, Alex Kekesi, disse à publicação The Post que o gênero é mais procurado por homens (61%) e, entre as gerações, pela Geração Z (duas vezes mais do que todas as outras).

Mas por que o pornô desenhado se tornou tão popular?
“Do ponto de vista psicológico, o hentai permite que as pessoas explorem fantasias que podem parecer tabus, irreais ou difíceis na vida real. Como os personagens são animados, os espectadores podem sentir menos restrições sociais ou morais ao consumir o material”, explica o fenômeno a doutora Rachel Needle, psicóloga e diretora do Instituto de Terapia Sexual Moderna na Flórida.
Outra razão, segundo ela, é a diferença entre a realidade e a animação. Assistir a pornô convencional cria expectativas sobre si mesmo e o parceiro, o corpo e a atividade sexual. Já o hentai é um desenho animado com personagens que são difíceis de comparar com pessoas reais.
Em 2025, o hentai se tornou pela quinta vez consecutiva o termo de busca mais popular no site de conteúdo adulto.
“O interesse por ele continua a crescer em todo o mundo, abrangendo tudo, desde personagens de videogames e cosplay inspirado em anime até animações 3D completamente desenhadas e muito mais”, comentaram no site.
Parece que cinco anos de liderança não são o limite. Em 2025, o mercado de animação para adultos foi avaliado em 62 bilhões de dólares. As previsões mostram que, em 10 anos, ele dobrará.
Quando Go Nagai desenhou estudantes espiando meninas, provavelmente não sonhava com algo assim.





Finalmente um bom artigo no nosso site com tentáculos
Sério isso?