Futebol

Desde a infância torço para o Brasil e nunca vi uma seleção pior que a atual – Insidioso Kamyshin

A eliminação tão precoce da seleção na Copa do Mundo no Brasil é considerada uma vergonha. Mas, se analisarmos, tudo levava a isso. Explica o principal especialista em futebol brasileiro na Rússia, Alexander Spivak.

O Brasil não tem jogadores brilhantes. Vinícius é bom, mas limitado

Antes mesmo do torneio, eu estava com uma visão muito negativa em relação a essa seleção brasileira. Embora entendesse que, em alguns períodos, os brasileiros já não demonstravam um jogo brilhante. Nesse contexto, muitas vezes se lembra da Copa do Mundo de 1994, mas na época não havia tanta mediocridade – o Brasil criava chances de gol regularmente.

Em 2006, o Brasil também teve um desempenho ruim, perdendo para a França nas quartas de final. Mas naquela época, o time tinha estrelas: Ronaldinho, Kaká, Ronaldo, Adriano. Só de vê-los, os adversários já tremiam. O elenco atual tinha apenas Vinícius. Embora seja um bom jogador com velocidade explosiva, ainda é limitado e mais primitivo do que os pontas dos anos anteriores.

Sim, ele teve seu melhor torneio pela seleção. Mas isso é mérito de Ancelotti, que o utilizou da maneira correta. Vini não gosta de defender, e o treinador sabia como reorganizar o time para que as deficiências do ponta não fossem sentidas.

A força de Vinícius está em assustar a defesa adversária. Isso dava a Ancelotti oportunidades para manobras táticas, pois o confronto não era um contra um, Vini atraía várias pessoas para si. Lembrem-se do drible no segundo tempo contra o Japão: ele passou a bola entre as pernas do zagueiro e acertou a trave. Me surpreendeu que, em um momento tão intenso, ele faça essas coisas.

Esperava-se mais de Endrick, Alisson não brilhou, e Rafinha nunca se firmou na seleção

Em outras posições, também houve uma queda de rendimento. Isso já era perceptível há cinco anos, e a tendência continua.

A situação com Endrick é triste. Ancelotti o colocou em campo por um tempo contra o Japão: o atacante de 19 anos não atuou muito bem, mas trouxe mais movimento, e o Brasil marcou dois gols. Ele se posicionou entre dois zagueiros e limitou seus movimentos. No entanto, esperava-se mais de Endrick nesta Copa do Mundo. Não fica claro por que ele jogou tão pouco na fase de grupos.

O jogador mais criticado desta equipe é o lateral-direito Danilo. Ele concede entrevistas coletivas impressionantes e detalhadas, algo raro para um futebolista. Mas isso não aumenta sua velocidade. Até no Flamengo, Danilo já não atua na lateral, sendo escalado como zagueiro central. Na seleção, não há alternativas para Danilo. O titular era Wesley, da Roma, um típico defensor brasileiro com vocação ofensiva, mas ele se lesionou.

À esquerda jogava Douglas Santos. Um jogador que entende o que esperam dele em termos de confiabilidade, afinal, ele estava no mesmo flanco que Vinícius – na defesa, isso é um a menos. O defensor do Zenit não é excepcional, mas é um jogador muito bom. No entanto, ele já não está na melhor forma física.

Casemiro teve um torneio ruim. Ancelotti é refém da parceria com o meio-campista no Real Madrid. Quase qualquer técnico, após o primeiro tempo contra o Japão, teria substituído Casemiro, pois ele levou um cartão amarelo e não conseguiu acompanhar no lance do gol após o corte de Danilo. Mas Ancelotti não apenas o manteve em campo, como também o instruiu a invadir a área, e assim os brasileiros marcaram o primeiro gol.

Alisson sempre gerou dúvidas entre os torcedores. No Brasil, há uma forte escola de goleiros, e no campeonato nacional há muitos goleiros incríveis. Até mesmo Fábio, de 45 anos, do Fluminense, está em ótima forma. Mas Alisson cometeu erros. E o mais importante: Alisson há muito tempo não faz defesas decisivas em jogos importantes. Isso se aplica a muitos jogadores brasileiros: eles são estrelas em seus clubes, mas na seleção são meras sombras de si mesmos.

Por exemplo, Raphinha é uma estrela do futebol europeu e, com seu status, deveria liderar a seleção. Mas até agora, ele não mostrou nada pela seleção brasileira. Sua lesão não pareceu uma perda. Raphinha foi substituído por Ryan, de 19 anos, que estava muito motivado para jogar, se esforçou e deu o máximo.

Surpreso que Neymar ficou no banco. Não houve situações assim em sua carreira. Parecia-me que ele não aceitaria isso, mas o desejo de simplesmente ir à Copa do Mundo prevaleceu.

Na partida contra a Escócia, Neymar jogou pela seleção brasileira pela primeira vez em três anos. Alguns diziam: pesado, lento, faz todos passarem a bola para ele. Mas Thierry Henry, por exemplo, disse que Ney entrou e mudou o jogo: criou pausas, confundiu os defensores escoceses, criou várias chances de gol para os companheiros.

Chamada a atenção que Neymar estava com dificuldade, mas ele ainda é um jogador extraordinário: no toque e na visão de jogo. Mesmo esse Neymar, que não está pronto para jogar um tempo inteiro, foi incrível.

Enfim, muitas decisões de Ancelotti podem ser compreendidas, considerando os jogadores que ele tinha à disposição. Mas uma coisa eu não entendi: por que o meia central Danilo Santos, do Botafogo (não confunda com o lateral-direito Danilo), jogou tão pouco? Neste elenco da seleção brasileira, ele é meu meio-campista favorito: tem poder de finalização, passe e desarme. Até os 17 anos, Danilo Santos atuava como ponta, mas depois passou a jogar no meio-campo – por isso, ele é eficaz tanto no ataque quanto na defesa. A seleção brasileira é uma equipe com bons jogadores, mas extremamente medianos em comparação com a história da seleção. Mesmo assim, uma equipe assim deveria ter chegado às quartas de final. Se avançasse mais, já estaria além das expectativas. A eliminação nas oitavas de final foi um fracasso.

O Brasil perdeu sua identidade futebolística e se tornou primitivo

No jogo contra o Marrocos (1:1), o gol sofrido veio após um erro de Paquetá no domínio da bola. É claro que, em 9 de 10 vezes, ele dominaria a bola corretamente. Mas, naquela partida, Lucas errou dessa forma duas vezes – o que indicava que os brasileiros estavam nervosos.

Ancelotti queria jogar com um centroavante fixo, não deu certo, e colocou Thiago Matheus Cunha no lugar de Igor, atuando como falso 9. Depois disso, o jogo do Brasil se equilibrou.

A partida contra o Haiti foi vencida (3:0), mas no segundo tempo o Brasil criou menos que o adversário. Pode-se dizer que a equipe estava se adaptando ao torneio, mas isso não deveria acontecer. É possível jogar mal, mas dois chutes ao gol em um tempo contra o Haiti é vergonhoso.

Ancelotti virou o jogo contra o Japão (2:1), destacou Vinícius, pressionou bem o adversário na área. Além disso, colocou Martinelli em um papel muito interessante, duplicando-o no flanco de ataque com Vinícius. No final, a atenção dos defensores do Japão se dispersou – e eles foram superados.

Mas isso não é o Brasil. Assim pode jogar a seleção da Inglaterra, alguma outra equipe. Ainda assim, se Ancelotti fosse substituído por qualquer outro treinador brasileiro, provavelmente não ficaria melhor.

No futebol moderno, a individualidade não é tão necessária. Tática e jogo coletivo são mais valorizados. Por causa disso, a identidade se perde, os brasileiros não sabem como se sentir. Aconteceu uma quebra psicológica. Isso também foi influenciado pelo 1:7 contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2014.

O jogo posicional desta seleção brasileira é extremamente primitivo em comparação com a Colômbia e a Argentina. Tudo se transformava em uma bagunça. Dirão que o Brasil não tem jogadores habilidosos. Mas a Argentina reviveu suas tradições, apostando em meias criativos. O mesmo vale para a Colômbia: convocou Quintero, Arias e até James, que não está jogando no clube, mas foi útil na Copa do Mundo. O Brasil não tem jogadores assim.

Um problema importante é o ritmo de jogo. As seleções sul-americanas têm a característica de atrair o adversário com um ritmo lento e depois explodir: uma tabela, um passe para o terceiro jogador, e já estão no gol. Mas o Brasil nesta Copa do Mundo é um caso diferente, seu ritmo é simplesmente fraco.

Acompanho a seleção brasileira desde 1998. Na minha infância, era difícil ter acesso às transmissões, mas nunca perdi um jogo. Sempre encontrava uma maneira de assistir à Copa América, amistosos. Cada jogo trazia algo original, que eu podia tentar reproduzir em campo. Hoje, ao ligar a TV para ver o Brasil, sei exatamente o que esperar. E isso é triste.

Para mim, o sucesso da seleção brasileira não está na quantidade de elásticos, lençóis ou outros dribles. Claro, isso é importante, mas não é o que espero há muito tempo. As tabelas, o jogo de terceiro homem, essa é a base do futebol sul-americano. A Argentina e a Colômbia têm isso, mas o Brasil não. Isso é vergonhoso.

O principal problema é que o futebol brasileiro se transformou em negócio

Sinto vergonha desta seleção brasileira, mas o fracasso na Copa do Mundo é apenas a ponta do iceberg.

É triste ver que os brasileiros desperdiçaram seu legado, aqueles títulos que transformaram a equipe em uma marca. Sinto vergonha do que os brasileiros fizeram com seu futebol.

Lembro-me de 2014, quando trabalhava no “Sport-Express”, escrevi sobre o quanto admirava a ousadia dos brasileiros. Mas, desde então, a cada campeonato, observo um retrocesso. Tudo se dissolve como espuma na banheira – primeiro há muita, e depois desaparece.

Sinto vergonha por todo o futebol brasileiro, pelos agentes, treinadores. Muitos brasileiros saíram da pobreza, e isso é compreensível. Eles não pensam em questões mais profundas. O objetivo é ganhar o máximo de dinheiro possível para sustentar a família. Mas, ao priorizar o dinheiro, as pessoas destruíram a identidade do futebol brasileiro. Para recuperá-la, são necessárias decisões da Confederação Brasileira de Futebol. Mas essa é uma instituição que, possivelmente, é a maior culpada nessa história.

A seleção brasileira é a quintessência do que acontece no futebol brasileiro. Nas academias, assim que um garoto se destaca na posição de meia, ele é rapidamente deslocado para a ponta. Para ser desenvolvido como um ponta de lança, porque há demanda por esses jogadores.

O Brasil trabalha para exportação. Devido a essa abordagem, não há laterais, centroavantes clássicos, nem meias ofensivos. Por isso, agora na seleção há jogadores sólidos, mas medianos, que teoricamente podem derrotar a Inglaterra e a França em uma partida. Mas globalmente isso não mudará nada.

O problema não está em Ancelotti, nem nos jogadores. São necessárias soluções. Mas como tomá-las, se o dinheiro é a base e há muitas pessoas interessadas nesse dinheiro. As mudanças privariam muitos de renda, por isso não serão implementadas. Não sei como desfazer esse nó.

Lara Faria

Ela é uma renomada jornalista esportiva, formada pela Faculdade de… More »

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12 Comentários

  1. Nome verdadeiro Ilya Kovalev
    Idade 29
    ——
    Bom, o que você poderia ter visto? Em 2002, você tinha 5 anos, e depois disso o Brasil só teve decadência.

  2. Adoro esses artigos pós-fato. Ontem mesmo teve um sobre a Noruega, falando sobre como o sistema de futebol deles é maravilhoso e sistematizado, por isso deu certo. Mas será que o Brasil jogou melhor na fase de grupos? Por que esse artigo não saiu na época, e precisou esperar a eliminação? Porque, se os brasileiros com esse jogo (nenhum) tivessem passado pelos noruegueses por algum motivo (é futebol, acontece), esse artigo não existiria. Assim como não haveria um sobre o incrível sistema de futebol sistematizado da Noruega. Enfim, #EscreveMais

  3. Bem, você deveria ler o texto, em vez de me googlar) Eu conversei com Alexandre Spivak e gravei seu monólogo, no texto está a fala dele diretamente.
    Mas, falando sobre mim, em 2002 eu já assistia! Não lembro de nada, exceto que o Ronaldo estava lá e que o Lúcio foi carregado em uma maca.

  4. Uma semifinal em 25 anos, e ainda assim com uma goleada em casa dos alemães – claro que é um fracasso total para o futebol brasileiro. Infelizmente, não há jogadores no Brasil atualmente que estejam dispostos a lutar pelo país. A geração atual, que saiu da pobreza das favelas para o dinheiro fácil da Europa e dos árabes, luta apenas por contratos em clubes, e a seleção se tornou um fardo, não uma honra. Daí os resultados desanimadores para os torcedores brasileiros.

  5. Sério? Antes do jogo contra a Noruega, eram só elogios ao Ancelotti, como ele virava jogos com suas jogadas táticas e substituições.
    E que substituições… hmm… o inútil Cunha sai e entra o inútil Endrick. Gênio do Carlo!
    E agora, o que aconteceu? Você viu o que já estava claro desde a primeira rodada: o Brasil não estava pronto para a Copa? Que o Brasil ficou em 5º lugar nas eliminatórias? Que não há jogo, não há nada.
    O problema, em 95%, é o Ancelotti: ao convocar jogadores de ‘Zenits’ e ‘Brentfords’, é preciso entender que não se vai longe com eles. Idealmente, deveriam ter sido eliminados pelo Japão. Mas faltou um Haaland japonês.
    Carlo não montou um elenco decente, não estabeleceu um estilo de jogo, não tinha um esquema claro nem mesmo durante os playoffs. Ele decidiu jogar como no ‘Real’, apostando em jogadores do Real. Mas isso não é o ‘Real’, e Casemiro já não é o mesmo.
    O Brasil é um país enorme, como a Rússia, com muitos talentos. Mas escolher esses talentos ou convocar jogadores medíocres como Henrique, Paquetá e Ibanez depende justamente do técnico.

    1. Quem Ancelotti não convocou que poderia mudar essa seleção a ponto de ela ter um jogo completamente diferente? Eu não estou perguntando sobre o resultado, porque Alexandre disse que o que importa para ele é o jogo em si.

    2. No mínimo, João Pedro no ataque. Ele é melhor que o Cunha e, especialmente, que o inexperiente Endrick.
      Carlos Augusto, que ainda está em boa forma. E na esquerda, já há mais opções para construir o jogo. Além disso, Augusto pode jogar tranquilamente como zagueiro.
      Wenderson na direita. Embora seja defensor, ele pode cobrir toda a lateral. Além disso, é mais jovem e rápido que os laterais que Carlo convocou.
      Já são três jogadores para reforçar.

  6. Eu mesmo sou especialista em futebol argentino, mas Spivak é o melhor especialista no vizinho brasileiro.
    Melhor que ele, só o falecido Igor Fesunenko, que comentou a final da Copa do Mundo de 1998 ao lado de Gusev na ORT.

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