Treinador do Paraguai é um grande homem. Agora é certeza – Copa do Mundo 2026

A história de Gustavo Alfaro.

O grande herói da seleção do Paraguai, que eliminou heroicamente a Alemanha nas oitavas de final da Copa do Mundo, é o técnico de 63 anos Gustavo Alfaro. O homem que mudou tudo. Isso é um fato, não apenas retórica. Antes da chegada de Alfaro no verão de 2024, os paraguaios estavam em sétimo lugar nas eliminatórias sul-americanas.
Com Alfaro, venceram imediatamente o Brasil, ficaram invictos por 9 partidas consecutivas – e se classificaram para a Copa do Mundo.
O que sabemos sobre ele?
Como vivia a família Alfaro: o pai foi preso por motivos políticos, a mãe foi demitida da escola

Na metade da década de 1950, Julio Pascual Alfaro vivia na cidade de Junín, a oeste de Buenos Aires. Ele deixou o trabalho na fábrica de eletrodomésticos Siam Di Tella para trabalhar na ferrovia, e após a nacionalização das ferrovias, os trabalhadores precisavam escolher líderes sindicais.
“Ele tinha autoridade entre os colegas. Eles disseram ao meu pai: ‘Vá em frente’, lembrou Alfaro em entrevista à Infobae. – Ele não queria, pois o sindicato tinha outra vertente – a peronista (ideologia argentina que mistura nacionalismo econômico e paternalismo, onde as autoridades ditam como as pessoas devem viver). Ele foi indicado por um grupo independente e venceu as eleições contra um peronista. Logo após a vitória, foi preso, acusado de causar danos ao sindicato.
Minha mãe contava que, na época, a cidade organizava desfiles de prisioneiros, e meu pai caminhava entre eles. Isso era feito para mostrar às pessoas como não se comportar. Depois de tudo o que aconteceu com meu pai, minha mãe foi expulsa da escola onde trabalhava como professora. Ela ficou sem emprego.
Não se sabe exatamente quanto tempo Julio passou na prisão. Sabe-se apenas que, logo depois, ele se mudou com a família para sua cidade natal, Rafaela, onde Gustavo e sua irmã nasceram.
“Quando eu era adolescente, meu pai tinha uma pequena fábrica. Durante as férias, eu não ficava vagando como meus amigos – lembrou Alfaro. – Eu acordava às 6 da manhã e ia trabalhar com meu pai. Até as 2 da tarde, eu ajudava lá. Pude pagar minha mensalidade na piscina. Meus pais definitivamente me ensinaram a trabalhar. Diziam que nada na vida é de graça, me ensinaram a observar muitas coisas e a entender o valor dos sacrifícios. Isso é o que tento passar para minhas filhas.
Os valores da minha família são baseados no trabalho e no sacrifício. Só isso é o legado que posso deixar para minhas filhas. Só isso é o legado que posso deixar e investir nas minhas equipes.
Descobriram que minha mãe tinha câncer de mama. Ele quis amarrar folhas de outono nos galhos para salvá-la
“Uma manhã, minha mãe entrou no meu quarto – disse Alfaro em entrevista à Jaque y Mate TV. – Eu acordei e a beijei, e logo em seguida ela desmaiou. Na época, eu tinha 9 anos. Minha mãe foi levada ao hospital. Lá, ela recebeu o diagnóstico de câncer de mama.
Na escola primária, Gustavo leu uma história sobre uma menina que descobriu que a mãe morreria quando todas as folhas das árvores caíssem no final do outono.
“Naquela época, era outono. Pensei que o mesmo aconteceria com ela – compartilhou Alfaro. – Ela e meu pai conversavam com o médico, e eu não ouvia, mas sentia que era exatamente isso que o médico estava dizendo a eles.
Gustavo pegou um novelo de linha. Sua irmã viu e perguntou: ‘O que você está fazendo?’ – ‘Preciso amarrar as folhas nos galhos para que não caiam e minha mãe não morra’.
Sua mãe superou aquela doença. Ela morreu em um acidente quando ele tinha 26 anos.
Alfaro conciliava a universidade e o futebol. Abandonou os estudos pela carreira, mas quase imediatamente parou
Gustavo conciliava os estudos na universidade – cursava tecnologia química – com o futebol e viajava de trem para Rafaela três vezes por semana para treinos e jogos. Aos 18 anos, estreou no campeonato da cidade, e aos 26, quando o Atlético Rafaela subiu para a segunda divisão, abandonou os estudos pelo futebol.
Seus pais eram contra, mas Gustavo disse: ‘Este é o sonho da minha vida. Posso me tornar engenheiro aos 40. Jogador de futebol, não’. Os pais concordaram com a condição de que ele terminasse os estudos quando encerrasse a carreira no futebol.
Alfaro se considerava um jogador limitado. Atuava como meio-campista central e via sua tarefa como: recuperar a posse de bola e imediatamente passar para ‘jogadores mais competentes’.
Gustavo encerrou a carreira aos 28 anos, após jogar três temporadas e meia no Atlético Rafaela e se tornar capitão.
“Naquele momento, eu já havia aproveitado o jogo – lembrou Alfaro para The Coaches’ Voice. – Mas não pude cumprir a promessa que fiz aos meus pais. Não terminei os estudos, pois a paixão pelo aprendizado já havia morrido. Em seu lugar, nasceu uma nova.
Assim, Alfaro se apaixonou pelo trabalho de treinador: buscava entrar na elite do futebol argentino e alcançar como técnico o que não conseguiu como jogador. Sua carreira como treinador começou no Atlético Rafaela, sua equipe de origem, no verão de 1992 – primeiro como assistente e logo depois como técnico principal. Depois, vieram 12 equipes argentinas.
Alfaro sonhava com a Copa do Mundo desde 2006, mas trabalhou apenas como comentarista

Antes de sua primeira viagem para a Copa do Mundo – com o Equador em 2022 – o técnico assistiu a quatro campeonatos como comentarista do canal colombiano Caracol. Já naquela época, sonhava em treinar em uma Copa do Mundo.
«Em 2006, fui à Copa do Mundo. E me lembro de ter assistido a um amistoso em que a Alemanha venceu a Colômbia por 3:0. Tinha uma credencial que me permitia circular por todos os lugares, e foi quando vi o mundo que buscava.
Fui à coletiva de imprensa de Klinsmann. Ele falava sobre a preparação para a Copa do Mundo, e na minha cabeça só havia um pensamento: “Como deve ser incrível estar no lugar dele”. Afinal, ele é responsável por um país inteiro e prepara a equipe para a Copa do Mundo, que é o ápice almejado por qualquer técnico.
Foi então que percebi pela primeira vez que queria trabalhar com uma seleção. Foi assim que meu sonho nasceu».
Gustavo esperou 16 anos. O sonho se realizou com os equatorianos, mas na Copa do Mundo no Catar, tiveram um pouco de azar: venceram os anfitriões, arrancaram um empate com a Holanda, mas perderam para o Senegal em uma disputa acirrada no jogo decisivo. Na época, Alfaro disse à família que se aposentaria do futebol: “Prometi à minha esposa e filhas que me aposentaria aos 60 anos”, disse o técnico em entrevista ao The Athletic. “Em agosto, completei 60. Assim que a Copa do Mundo terminar, eu paro. Não quero pensar nisso, só quero viver o momento”.
Não cumpriu a promessa.
Alfaro joga com muita cautela? Caso contrário, “o traseiro vai pelos ares”
Após a Copa do Mundo de 2022, o técnico passou brevemente pela Costa Rica, mas não ficou por muito tempo e logo aceitou a proposta do Paraguai, que estava em dificuldades, tendo conquistado apenas cinco pontos e marcado um gol em seis partidas iniciais das eliminatórias. Com Alfaro, o time arrancou um empate no Uruguai (0:0) e venceu o Brasil em casa (1:0). Sim, antes de Ancelotti – mas essa vitória foi a primeira sobre os brasileiros no tempo normal desde 2008.
Dois meses depois, a Argentina deixou o Paraguai sem nada (2:1). Até o final das eliminatórias, o Paraguai só perdeu uma vez, quando o retorno à Copa do Mundo já estava garantido.
Alfaro foi chamado de “apenas sortudo”. A mídia local criticou seu estilo excessivamente cauteloso, e ele já havia expressado sua opinião sobre tais críticas sete anos antes – com uma citação de um dos treinadores mais titulados da história da NBA, Pat Riley: “Se você quer construir uma equipe ofensiva, primeiro trabalhe na disciplina defensiva. Caso contrário, seu traseiro vai pelos ares”.
Alfaro mudou a mentalidade do Paraguai

Alfaro gosta de fazer pessoas simples mais felizes. Em março de 2025, ele se encontrou por acaso com um funcionário de um supermercado e percebeu a importância de sua missão:
“Outro dia entrei em um supermercado. Um funcionário, que estava apenas organizando produtos nas prateleiras, aproximou-se, me abraçou e, de repente, começou a chorar. Perguntei: ‘Calma, o que aconteceu?’ E ele respondeu: ‘Treinador…’ – e começou a contar as dificuldades que enfrenta todos os dias.
Ele disse: ‘Treinador, está muito difícil para mim. É muito complicado chegar ao fim do mês, e os únicos momentos de felicidade que tenho são com a seleção paraguaia’. Depois, acrescentou: ‘Fico mais tranquilo sabendo que a seleção está em boas mãos’.
Ninguém descreveria todas as emoções melhor do que o próprio Alfaro: ‘Você entende o quão grande é o poder que te foi confiado. Nossa influência é enorme, mas é ao mesmo tempo uma força maravilhosa e muito grande’.
Alfaro contou que, quando chegou ao Paraguai, encontrou os jogadores ‘em mau estado’. Houve uma conversa emocional, na qual o treinador fez uma pergunta simples: ‘O que é a seleção paraguaia?’
Eles não souberam responder.
‘Como treinador, devo recuperar o que sempre definiu o futebol paraguaio. Não peço que eles se tornem alguém diferente. Não, peço que recuperem o que sempre foi sua característica distintiva. Tenho essa experiência na minha carreira, e funciona.
Às vezes, o passado se faz presente de forma tão forte, tão opressora, que sufoca todo o presente. Aqueles que estão no centro dos acontecimentos. A resposta existe. Isso não significa que o futebol não mudou desde 2010. Pelo contrário, muita coisa mudou.
Mas o caráter do povo não muda. O que definia a essência do futebolista paraguaio não muda. Devemos lutar até o fim’.
O início na Copa do Mundo foi desastroso. Alfaro assumiu a culpa pela derrota de 1:4 para os EUA, pedindo à mídia e aos torcedores que protegessem os jogadores:
‘Uma lição dolorosa, mas em um torneio como esse, as emoções precisam ser deixadas de lado. Hoje, a Copa do Mundo mal começou – não terminou. Enquanto tivermos pelo menos um minuto, lutaremos para avançar na competição.
Atirem em mim, não nos jogadores. Amanhã eu parto, mas eles permanecem, continuando a representar seu país’.
Os jogadores do Paraguai olham para frente com orgulho. Claro, junto com Gustavo Alfaro.




