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Kiwi – a ave mais estranha da Terra: bico com narinas e ovo que pesa um quarto do corpo

Esta ave tem o nariz na ponta do bico. Ela quase não enxerga. Não sabe voar. Seus ossos não são ocos como os de todas as aves, mas pesados, cheios de medula óssea – como os dos mamíferos. A temperatura corporal é mais baixa do que a de uma ave comum. O ovo é enorme: quase um quarto do peso da fêmea.

Se os ornitólogos montassem uma ave Frankenstein, seria um kiwi!

O quivi não pode voar fisicamente. Em compensação, tem olfato aguçado e bigodes como os de um gato

Sim, o quivi é uma ave. E até tem asas. Embora sejam mais como dois tocos de cinco centímetros, escondidos sob penas que lembram mais pelos. Mesmo que o quivi quisesse voar, não conseguiria: não tem o esterno, o osso do peito ao qual os músculos de voo se prendem.

Quanto mais você observa, menos o quivi parece uma ave. As narinas estão na ponta do bico, a única ave do mundo assim. Tem um olfato muito apurado. O quivi move o bico pelo chão e fareja minhocas, larvas e insetos sob a superfície.

A visão é quase inexistente. Na escuridão, o olfato, a audição e o tato são mais importantes para o quivi. No bico, tem bigodes como os de um gato. A temperatura corporal é de 37-38°C. Em todas as outras aves, é de 39-42°C. As pernas representam um terço do peso total da ave, são pesadas e têm pele semelhante à de um mamífero.

O zoólogo William Calder chamava o quivi de “mamífero honorário”.

Os ancestrais do quivi chegaram à Nova Zelândia voando. Na ilha, a necessidade de voar desapareceu

A Nova Zelândia se formou há cerca de 85 milhões de anos, quando se separou do antigo supercontinente Gondwana. Mais tarde, na junção das placas tectônicas do Pacífico e Australiana, começou o levantamento da terra, formando cadeias de montanhas – assim surgiram as ilhas modernas.

Antes da chegada dos humanos, a Nova Zelândia quase não tinha mamíferos terrestres. Apenas algumas espécies de morcegos – e nada mais. A isolamento durou 80 milhões de anos, e durante esse período, as aves ocuparam o nicho ecológico vazio.

O kiwi chegou à Nova Zelândia porque seus ancestrais distantes voaram para lá. Parece óbvio, mas por muito tempo os cientistas acreditavam o contrário: que o kiwi era parente do moa, que havia permanecido nas ilhas desde a separação de Gondwana. Análises genéticas modernas derrubaram essa teoria.

Descobriu-se que o parente mais próximo do kiwi é a extinta ave-elefante gigante de Madagascar. Eles compartilhavam um ancestral comum voador, que se dividiu em duas linhagens há cerca de 50 milhões de anos: uma permaneceu em Madagascar e se transformou em um gigante, enquanto a outra chegou à Oceania e permaneceu como uma pequena ave voadora – o proapteryx.

Ao se estabelecer em ilhas isoladas sem predadores, essa ave gradualmente aumentou de tamanho, perdeu as asas e substituiu os mamíferos terrestres, como texugos e ouriços. Voar exige um enorme gasto de energia. Em um ambiente seguro, esse gasto se tornou desnecessário.

A população de kiwis está ameaçada por doninhas, gatos e cães. Eles foram introduzidos pelos europeus

A vida para os quivis em uma ilha deserta não era tão paradisíaca assim. No céu, águias, falcões e corujas circulavam, ameaçando a vida das aves. Os quivis se protegiam como podiam: levavam uma vida noturna, se camuflavam em tocas e se moviam silenciosamente.

A situação piorou com a chegada dos humanos. Os primeiros a habitar a Nova Zelândia foram as tribos polinésias maori – nos séculos XIII-XIV, chegaram às ilhas em canoas. Trouxeram consigo o rato-do-pacífico e o cão kurī. Os quivis se tornaram presas para esses novos animais.

Aliás, por causa dos maoris, os moas desapareceram rapidamente. Essas aves também evoluíram sem predadores mamíferos – não temiam os humanos e não sabiam se defender. Os maoris caçavam os moas em massa por causa da carne; os caçadores também coletavam os enormes ovos das aves.

Para os europeus, as ilhas foram descobertas pelo navegador holandês Abel Tasman em 1642. A colonização ativa começou no final do século XVIII, após as expedições de James Cook.

Os europeus introduziram coelhos como fonte de alimento e para a caça. Até a década de 1870, os coelhos se multiplicaram tanto que se tornaram uma ameaça para as fazendas: comiam as colheitas e destruíam os pastos. Os agricultores exigiram uma solução. A solução foi encontrada rapidamente: introduzir doninhas, predadores naturais dos coelhos na Grã-Bretanha.

A ideia é controversa. Afinal, um predador, ao se encontrar em uma ilha sem concorrentes naturais, não distinguiria entre coelhos e aves. Na década de 1880, as doninhas foram liberadas – e em apenas seis anos, as populações de aves locais começaram a declinar drasticamente. A doninha revelou-se um caçador muito mais eficiente de kiwis do que de coelhos. Pelo menos os coelhos sabem correr.

Resultado: até 1998, da população de 12 milhões de quivis, restavam menos de 100 mil indivíduos. Hoje, cerca de 70 mil, e onde os predadores não são controlados, os quivis perdem 2% da população por ano. A principal causa são as doninhas: elas são responsáveis pela morte de 95% dos filhotes que nascem na natureza, antes mesmo que alcancem a idade adulta.

Para os quivis adultos, a maior ameaça são os cães. O problema aqui nem é a fome: um cão pode matar um quivi simplesmente por instinto de caça.

Nova Zelândia quer eliminar predadores selvagens até 2050. Isso ajudará os quivis

O país não quer perder os quivis. Por isso, implementa um programa abrangente que inclui a eliminação de predadores introduzidos, a criação de filhotes em incubadoras e o retorno das aves aos seus habitats históricos, como ocorreu na capital, Wellington.

O programa governamental mais ambicioso é o “Sem Predadores até 2050” (Predator-Free 2050). Uma das maiores iniciativas de conservação da natureza do mundo. O objetivo é livrar completamente a Nova Zelândia de todos os predadores selvagens introduzidos até 2050. Isso inclui ratos, doninhas, furões, arminhos, gambás e gatos selvagens.

O sucesso do programa depende de inovações. Conservacionistas usam armadilhas inteligentes, sistemas de inteligência artificial para reconhecimento de predadores e câmeras térmicas que enviam sinais instantâneos para guardiões florestais ao detectar roedores.

Há também outro programa – Operation Nest Egg. Ovos de quivi são retirados da natureza e levados para centros especializados e incubadoras para proteção contra predadores. Os filhotes crescidos são devolvidos à natureza já fortalecidos e capazes de se defender.

Além disso, o governo e fundações ambientais estão criando reservas cercadas e áreas florestais protegidas, completamente livres de predadores, permitindo que as aves se reproduzam em condições naturais com uma taxa de sobrevivência dos filhotes de até 90%.

Quivi – apelido dos próprios neozelandeses

O apelido se consolidou plenamente durante os anos da Primeira Guerra Mundial, devido aos militares neozelandeses nas frentes da Europa, que usavam insígnias com a imagem do kiwi. Durante a Segunda Guerra Mundial, o apelido se tornou ainda mais popular.

O kiwi nas prateleiras das lojas também é uma homenagem à ave. Inicialmente, era chamado de groselha chinesa, e apenas na década de 1950 os exportadores neozelandeses o renomearam por motivos puramente de marketing, devido à semelhança entre a casca peluda e a plumagem da ave.

A ave se consolidou até mesmo na carteira: o dólar neozelandês ainda é chamado simplesmente de “kiwi”. Isso porque, desde 1991, a ave é retratada na moeda de um dólar.

Lara Faria

Ela é uma renomada jornalista esportiva, formada pela Faculdade de… More »

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