Futebol

Copa do Mundo de 1994 nos EUA foi aberta pela ícone pop Diana Ross – ela errou o pênalti, mas o gol caiu do mesmo jeito – Siesta

Os comentaristas riam.

17 de junho de 1994. Chicago. O “Soldier Field” está lotado – mais de 63 mil pessoas ao ar livre. A primeira Copa do Mundo na terra americana. Nas arquibancadas, o presidente Bill Clinton. No microfone, a lendária Oprah Winfrey. Em campo, centenas de dançarinos de branco, confetes, balões e o som dos tambores.

E em algum lugar desse espetáculo, uma mulher de vermelho corre por todo o campo ao som de seu próprio hit e está prestes a cobrar um pênalti. Seu nome é Diana Ross. A voz do lendário grupo The Supremes e ícone de uma era (mais de 100 milhões de discos vendidos ao longo da carreira).

Diante dela – um gol especialmente construído, que segundo o roteiro deveria se desfazer de forma espetacular após o chute e o gol. O goleiro já sabe que vai levar o gol.

Só que ninguém avisou a bola.

“É assim que as crianças chutam”. Ross erra o gol, a trave desmorona e o comentarista chileno ri

Ross corre pelo campo – e já nessa etapa algo dá errado. Em um dos versos, ela esquece de levar o microfone aos lábios. Tudo bem: ela tem uma tarefa mais importante pela frente. À sua frente está o goleiro. Aliás, desconhecido. The Athletic tentou encontrá-lo, mas sem sucesso.

Ao redor da área penal – pelo menos 25 dançarinos, um operador com megafone, dois operadores correndo, alguém que vai puxar a corda no gol e uma figura com um tablet no canto direito da tela.

A corrida de Ross, para dizer o mínimo, é não convencional. Para trás, para frente, de novo para trás. Depois – um passo enorme em direção à bola. A perna de apoio não aterrissa exatamente ao lado da bola. O tronco se inclina para trás. A perna corta a bola. E ela vai um metro à esquerda da trave.

O gol se desfaz exatamente como no roteiro. A bola não entrou, mas quem se importa?

O ex-treinador de finalizações do Brentford, Bartiek Silvestre, analisou a técnica de Ross para o The Athletic: “Ela chutou a bola como alguém que nunca havia feito isso antes. Um traço característico é a flexão muito pronunciada do quadril. Crianças chutam assim. Ou profissionais com a perna não dominante.”

O psicólogo Geir Jordet, consultor de pênaltis do Chelsea, Arsenal, Liverpool e Bayern, tem sua própria visão: cantar em playback, mover-se no ritmo e chutar a bola com precisão são três tarefas distintas e de difícil conciliação para o cérebro. Além disso, ela estava sob os olhares de 63 mil pessoas no estádio e 750 milhões de telespectadores.

Depois, Jordet apresentou uma teoria inesperada: “O goleiro certamente estava nervoso. Ele temia desviar a bola acidentalmente e estragar a festa. Imagine a fama que poderia ter ao defender o pênalti de Diana Ross na abertura da Copa do Mundo. Talvez ela tenha errado de propósito – um ato de boa vontade.”

A reação dos comentaristas também foi curiosa. O britânico John Helm, da TSN, riu no ar e comentou: “Um desastre. Não tenho certeza se era para ser assim.” Seu colega da BBC, Alan Green, foi mais contido: “Diana Ross acabou de cobrar o pênalti… E errou. Um presságio duvidoso.” O brasileiro Galvão Bueno, da Globo, ironizou: “Não foi muito bom, mas pelo menos ela derrubou o gol. Totalmente americano.” O comentarista chileno não disse nada – apenas riu por alguns segundos ao vivo.

Cerimônia virou caos: Oprah caiu em uma armadilha no palco, e Clinton ficou exposto ao sol forte

Enquanto Ross corria pelo campo, nos bastidores e nas arquibancadas o caos era total.

A primeira a sofrer foi a apresentadora da cerimônia. Oprah Winfrey anunciou a entrada de Ross – e, no mesmo instante, caiu em uma armadilha no palco. “Eu caí em um buraco enorme, rasguei as pernas e não conseguia sair, mas ouvia Diana cantando”, contou ela depois. Quatro homens a retiraram, enfaixaram sua perna, e Oprah mancou de volta ao palco.

A mesma armadilha causou problemas ao cantor Jon Secada. Um dançarino não a fechou antes da entrada, Secada caiu e deslocou o ombro. Ele fez toda a apresentação com o ferimento. Como se nada tivesse acontecido.

Nas arquibancadas, também houve confusões. A área do presidente dos EUA não estava isolada – e, quando Pelé apareceu no setor VIP, fãs tentaram passar por vinte fileiras. O curador da cerimônia, Scott LeTellier, segurou a multidão com as próprias mãos.

Um meme à parte foi o vendedor de amendoim que entrou na área presidencial, reconheceu Clinton e gritou: “Ei, Bill! Quer amendoim?” – e já se preparava para jogar o saquinho. Agentes do Serviço Secreto o imobilizaram no último momento. “Eu já vi o fim da minha vida”, brincou LeTellier depois.

O próprio Clinton passou todo o primeiro tempo da partida de abertura entre Alemanha e Bolívia ao ar livre – com um boné de voluntário, sob o sol escaldante e sem nenhuma sombra. Quem o obrigou a ficar foi o chanceler Helmut Kohl, que se recusou a ir para o camarote VIP. O presidente dos EUA ficou vermelho, suou e aguentou.

Após 476 dias, Ross se apresentou na abertura da Copa do Mundo de Rugby em Londres. Cantou, dançou e deu uma volta no campo em um carro vintage. Mas não se aproximou da bola a menos de 20 metros de distância.

Ângelo Almeida

João Pedro Silva é um renomado jornalista esportivo português, formado… More »

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