Treinador de combate corpo a corpo, julgado há cinco anos por briga com guardas nacionais: ‘Após um ano em prisão preventiva, você já esquece a vida passada em liberdade. Entendia que seriam 12-13 anos de regime fechado’

O treinador de luta corporal infantil Nikolai Kukushkin, que está sendo julgado há cinco anos por uma briga com guardas da Rosgvardia, falou sobre o tempo que passou em um centro de detenção.
Em 2021, em Nizhny Novgorod, Kukushkin, após uma discussão verbal, envolveu-se em uma briga com sete jovens, seis dos quais eram guardas da Rosgvardia. Como resultado da briga, três pessoas sofreram ferimentos por faca, e um dos guardas, Mikhail Rashoian, morreu algumas horas depois.
Kukushkin foi preso e acusado sob o Artigo 105, Parte 1, e Artigo 111, Parte 2 – homicídio e causar danos corporais graves. Kukushkin passou 1,5 ano em um centro de detenção, e após um julgamento por júri, foi absolvido.
A promotoria conseguiu anular a decisão e enviar o caso para novo julgamento. Depois disso, o caso de Kukushkin foi examinado por mais dois júris, mas ambos foram dissolvidos devido à pressão sobre seus membros, e o quarto júri, em março de 2026, absolveu Kukushkin pela segunda vez. A promotoria apelou novamente, e o caso ainda não foi concluído.
– O que são 1,5 ano em um centro de detenção?
– Para ser honesto, no início, fiquei completamente abalado, porque percebi que tinha uma filha de 1,5 ano e uma esposa, e eu não podia protegê-las. A advogada que visitava o centro de detenção dizia que a família tinha medo de vingança sangrenta por parte das vítimas – eram yazidis. De forma alguma estou tentando incitar o ódio nacional, mas havia preocupações. E também não havia nenhum contato com o mundo exterior.
Claro, mantive a calma. Antes de ir para a cela principal, passei duas semanas em quarentena. A quarentena é um espaço de 2 por 4 metros. Beliche. Ao lado, uma pequena mesa. Um buraco no chão para fazer as necessidades. Sem pia. Uma janela com grades.
Fui colocado com um homem que tinha um atestado de que era mentalmente instável. De alguma forma, encontrei uma linguagem comum com ele. Eu disse: “Denis, vou tentar ler livros. Você sabe ler?” – “Mal”. E ele era de algum lugar do interior. O problema era que ele acordava às 7 da manhã e batia na porta de metal, dizendo que tudo era um erro e que ele não deveria estar lá. Eu ainda subia para a beliche de cima, para me proteger, se necessário. Ele não era muito violento, mas criava tensão. E eu lia para ele em voz alta, acalmava-o – ele adormecia como se fossem histórias antes de dormir.
<…> Eu estava em uma cela de alta segurança. Isso significa crimes contra a pessoa: assassinos, ladrões, estupradores. Não havia estupradores na nossa cela, mas era um grupo difícil: um tinha sete corpos e não era a primeira vez; outro era um avô que matou a esposa e o irmão dela e pegou 19 anos. Alguém perguntou a ele: “Eles morreram na hora?” E ele: “Não, se debateram um pouco”.
Lembro-me de quando colocaram um uzbeque na nossa cela por estupro, que não conseguia dizer duas palavras em russo. Ele tinha acabado de chegar à Rússia e, junto com outras duas pessoas, estuprou uma mulher. Ele disse que estava sob o Artigo 131. Olhei os documentos dele: “Tenho apenas uma pergunta para você: ‘Você tem família?'” Ele olhou para mim, foi ao banheiro (lá tem uma porta improvisada) e se cortou – ouvimos o barulho. Ainda bem que conseguimos salvá-lo e costurá-lo. Ele espalhou sangue por tudo, como em um filme de terror.
Enfim, era um grupo em que você tinha que dormir com um olho aberto à noite. Mas, apesar de estar cercado por assassinos sanguinários, a prisão iguala a todos. Você pode jogar xadrez com alguém ou ouvir sobre dores emocionais: “Fui forçado, não foi minha decisão”.
O pior é não ver os entes queridos e não poder se comunicar com eles normalmente. Minha esposa era testemunha no caso, então não nos permitiam visitas. Nos vimos pela primeira vez no tribunal, quando ela foi interrogada – após um ano e três meses. Só consegui perguntar como estava nossa filha.
Após um ano no centro de detenção, você já esquece a vida passada em liberdade. Seu cérebro pensa: “Esta é a minha vida agora. O que posso fazer?” De manhã, eu ia para o passeio, um pátio de 3 por 3 metros, algum tipo de exercício físico: fazia barras na grade, agachamentos, flexões, abdominais, usava uma corda de pular, uma bola de boxe.
Depois, voltava para a cela. As pessoas que passavam por lá vindo de Butyrka diziam que em Moscou havia cabines de chuveiro e tudo era limpo. Não tínhamos isso: piso de madeira podre, uma barreira improvisada para o banheiro. Mas na cela grande havia uma pia. Após o café da manhã, eu lia: ou livros espirituais, como a Bíblia, ou literatura ficcional. O tempo voava até o almoço.
Minha visão piorou, mas no geral, me recuperei rapidamente. Não cheguei a ir para a colônia – lá, dizem, é muito mais fácil. Há quadras esportivas, sauna, mais pessoas, e, se não estiver em um barracão de segurança máxima, você pode se mover livremente. No nosso centro de detenção, havia chuveiro quente uma vez por semana, e na cela, apenas água fria, que eu aquecia com um aquecedor e tentava me arrumar de alguma forma.
Após o almoço, era um período confuso, você fica cansado de ler e não sabe mais o que fazer. Com aqueles que não estão dormindo, você pode jogar xadrez ou gamão. E assim, dia após dia.
– Após passar 1,5 ano no centro de detenção, você entendia que poderia ser sentenciado a um período ainda maior?
– Vi colegas de cela sendo sentenciados a pelo menos 8 anos. No meu caso, entendia que seriam 12-13 anos de regime fechado. Já pensava no campo. Lá há mais ou menos liberdade, mas aqui é um espaço fechado e as mesmas conversas que você ouve 700 vezes – como o Dia da Marmota. A fé em Deus me ajudava a pensar que a justiça existe – disse Kukushkin em uma entrevista.




