Futebol

Uruguai contra Espanha – ônibus a pedido dos jogadores e análise de Vadim Lukomsky

Análise de Vadim Lukomsky.

A Espanha derrotou o Uruguai (1:0). A equipe de Marcelo Bielsa está indo para casa.

A preparação para a partida foi marcada por escândalos táticos, intrigas e investigações. A publicação El Espectador revelou uma série de informações internas, sendo a principal delas que Sergio Rochet, Manuel Ugarte, Rodrigo Bentancur e Federico Valverde, em nome da equipe, foram discutir com Bielsa a intensidade dos treinos e a tática para enfrentar a Espanha.

Os jogadores sugeriram jogar com um bloco baixo e explorar contra-ataques. Segundo as informações, Bielsa recusou e deu uma palestra aos jogadores sobre sua visão de futebol. Ainda assim, o Uruguai entrou em campo sem uma pressão agressiva. No primeiro tempo, a Espanha teve 74% de posse de bola, enquanto os uruguaios se defenderam principalmente próximos à sua própria área.

Não podemos saber o motivo exato: talvez Bielsa tenha sido convencido; talvez o técnico tenha perdido completamente o controle, e os jogadores implementaram seu próprio plano. Mas, mesmo sem conhecer os motivos, podemos mergulhar nos detalhes do jogo e entender o que funcionou e o que não funcionou para o Uruguai.

O “ônibus” do Uruguai: até 6 jogadores na linha + marcação individual forte

O Uruguai adotou uma postura passiva em campo. A pressão foi feita de forma muito esporádica. E, durante a maior parte do primeiro tempo, a equipe ficou recuada próximo ao próprio gol. No entanto, essa abordagem foi eficaz para neutralizar a Espanha. A equipe de Luis de la Fuente não criou chances claras – o gol de Alex Baena veio de um erro flagrante de Fernando Muslera.

No terço defensivo, era comum o Uruguai se organizar com seis defensores:

Na maioria das vezes, as posições bônus na linha de defesa eram ocupadas pelo volante Manuel Ugarte (que atuava como Mikel Merino) e pelo ponta-direita Agustín Canobbio (que marcava Marc Cucurella).

Em alguns momentos, apenas um deles descia:

Geralmente, o número de defensores na linha era determinado pela posição dos oponentes. Por exemplo, se o defensor espanhol Marc Cucurella avançava ao ataque, o Uruguai reorganizava-se com seis jogadores. Enquanto ele não participava do ataque, mantinha-se com cinco.

Mesmo em seu próprio campo, o Uruguai atuava com marcações individuais. Na meia-campo, Rodri e Pedri receberam atenção semelhante, sendo marcados por Fede Valverde e Rodrigo Bentancur.

Essencialmente, o Uruguai aplicou uma marcação individual intensa contra todos os espanhóis, exceto os zagueiros centrais. A eles era concedida liberdade, mas todas as possibilidades de criar jogadas perigosas eram controladas com muita atenção. Faltou à Espanha a velocidade no passe para confundir as marcações individuais. Possivelmente, isso seria implementado no segundo tempo, se não fosse pelo gol sofrido.

Outro detalhe importante: os uruguaios não apenas atuaram de forma extremamente compacta, mas também com muita firmeza (o árbitro permitiu). Ao mesmo tempo, estavam bastante atentos (ninguém perdeu seus oponentes). Em termos de neutralização, o plano funcionou bem. O problema: ele exigia que todos os esforços fossem concentrados apenas nas tarefas defensivas.

Com um futebol tão passivo e uma postura tão recuada, o Uruguai não conseguiu nem mesmo criar ataques esporádicos. Em todo o tempo, a equipe finalizou três vezes – uma delas da sua própria metade do campo. A única tentativa dentro da área foi após uma jogada de bola parada.

Um plano tão focado na defesa deixava a equipe dependente de erros. Quando o adversário pressiona tanto, sempre pode acontecer um gol inesperado. Infelizmente, foi o que ocorreu. O goleiro Muslera, responsável pelo gol, que teve um torneio infeliz, pediu para ser substituído no intervalo.

Juan Sanabria mereceu respeito por sua atuação contra Yamal

No futebol altamente marcado do Uruguai, Juan Sanabria – lateral-esquerdo do clube da MLS “Salt Lake”, que começou o torneio como reserva de Matías Viña – foi o responsável por marcar Lamine Yamal.

Sanabria teve um tempo espetacular contra Yamal. Ao contrário de outros adversários, o Uruguai não usou uma marcação dupla contra a estrela da Espanha: muito dependia da qualidade das ações do oponente direto:

Ele não apenas contia o Yamal na lateral, mas também o perseguia até o limite nas descidas:

Sanabria teve um tempo inspirado: 7 desarmes (o maior número da partida) e 78% de duelos vencidos (sem contar bolas aéreas) refletem a qualidade de suas ações.

Para ser justo, quase todas as ações positivas de Sanabria ocorreram na primeira metade. No início do segundo tempo, ele recebeu um cartão amarelo. Por esse motivo e pela necessidade de marcar, foi substituído aos 70 minutos – Maxi Araújo terminou a partida como lateral-esquerdo ofensivo.

Desativar completamente Yamal é uma tarefa quase impossível, mas Sanabria se saiu bem, especialmente considerando que o plano envolvia frequentes duelos 1-contra-1.

Segundo tempo: tentativas frustradas de abrir o jogo, substituição polêmica de Valverde

Após sofrer o gol, o Uruguai tomou algumas medidas para abrir o jogo. Poucas funcionaram, mas vamos analisar os detalhes mesmo assim.

1. O gol coincidiu com a lesão de Ugarte. Em seu lugar, entrou Nicolás de la Cruz – um meio-campista de perfil completamente diferente. Mais ofensivo e criativo. O trabalho inicial de Ugarte foi assumido por Bentancur, e o meio-campo ficou mais aberto. Pelo menos em termos de características dos jogadores.

2. No segundo tempo, a pressão foi acionada:

Houve algumas seleções promissoras, mas, em geral, é difícil tirar a bola da Espanha, mesmo com pressão total. A posse de bola dos espanhóis no segundo tempo foi de 60%. Menos do que antes do intervalo, mas ainda um nível de controle bastante digno. Precisão de passes – 88%. Em suma, registramos uma mudança de intenção, mas a pressão do Uruguai não se tornou uma arma eficaz.

3. Aos 57 minutos, Bielsa substituiu Valverde. Parece que sem lesão. Substituir o jogador mais estrelado em tal situação é um bom indicador de problemas nos bastidores. No lugar de Fede, entrou o atacante Federico Viñas. A equipe passou a jogar com dois atacantes.

4. Aos 70 minutos, Brian Rodríguez, um ponta adicional, entrou no lugar de Sanabria. O artilheiro do Uruguai no torneio, Maxi Araújo, que atuou como meio-campista esquerdo, recuou para a posição de lateral-esquerdo.

Formalmente, cada uma dessas mudanças tornava o Uruguai mais ofensivo. Na prática, não foi possível criar chances regulares. A intenção de jogar com mais ousadia nem sempre se traduz em um jogo mais aberto.

É interessante que a Espanha não criou mais chances contra um Uruguai que estava arriscando. Falhas como essas se tornaram mais frequentes:

Faltaram boas decisões e execução no campo adversário. Em alguns lances, os espanhóis simplesmente desperdiçaram chances claras de criar perigo. No lance abaixo, Fabián Ruiz deixou Nico Williams, que pedia a bola, completamente frustrado – o meio-campista girou e passou para o goleiro:

O verdadeiro problema do Uruguai foi a situação em que chegou para enfrentar os espanhóis. Após os tropeços iniciais, teve que jogar contra o adversário mais forte do grupo sob uma pressão enorme.

O plano dos uruguaios foi excessivamente cauteloso (o que leva a supor uma influência significativa dos jogadores), mas funcionou bem para conter o adversário. Já jogar de forma mais ousada no segundo tempo não deu certo. De qualquer forma, essa partida foi digna em termos de qualidade. A verdadeira catástrofe foram as duas primeiras rodadas.

Matias Pereira

João Silva é um renomado jornalista esportivo português, formado pela… More »

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