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Seleção de Cabo Verde na Copa do Mundo de 2026: 6 jogadores de Roterdã e mobilização portuguesa

Tcherniavski explora as ilhas.

Você já sabe que em Cabo Verde há duas vezes menos cabo-verdianos do que no exterior. Os emigrantes vivem principalmente nos EUA e em Portugal.

Na convocação da seleção de Cabo Verde, também há mais jogadores nascidos no exterior, embora a diferença não seja tão significativa.

A delegação mais séria é a dos Países Baixos: 6 jogadores de 26. À primeira vista, nada de especial, mas há um detalhe surpreendente. Todos eles nasceram na mesma cidade – Roterdã!

Todos os rotterdãenses estão no elenco da seleção de Cabo Verde para a Copa do Mundo de 2026.

1. Jamiro Monteiro – 3 jogos, 230 minutos.

2. Sidney Cabral – 2 jogos, 166 minutos.

3. Deroy Duarte – 3 jogos, 165 minutos.

4. Dailon Livramento – 2 jogos, 122 minutos.

5. Laros Duarte – 3 jogos, 101 minutos.

6. Garry Rodrigues – 2 jogos, 77 minutos.

Não é coincidência. Roterdã é um hub único para Cabo Verde. Lá residem 20 mil cabo-verdianos, o que representa cerca de 3% da população total da cidade.

Roterdã é chamada de 11º ilha de Cabo Verde. Como isso aconteceu?

Recentemente, explicamos em detalhes sobre a emigração de Cabo Verde, mas vamos repetir as principais razões:

• Nas ilhas, praticamente não há água potável – até mesmo no século XIX, durante as secas, as pessoas morriam em massa de fome e sede;

• Em Cabo Verde, até o final do século XX, a situação era insuportável – não havia trabalho decente nem futuro, as pessoas fugiam em navios americanos e europeus.

* *

Cabo Verde está convenientemente localizado na rota dos navios para a América, mas parar nas ilhas não era tão simples. Os ventos oceânicos e as correntes submarinas, além das perigosas costas rochosas, dificultavam a parada.

No entanto, havia uma ilha conveniente – São Vicente. Sua baía é uma cratera submersa de um vulcão extinto, que protegia de influências externas e permitia que grandes transatlânticos e navios de guerra atracassem.

No final do século XIX, os britânicos instalaram enormes depósitos de carvão em São Vicente: alugaram terras de Portugal, trouxeram carvão da Inglaterra e do País de Gales e organizaram um grande abastecimento. Ele foi amplamente utilizado por navios que viajavam da Europa para a América do Sul/Norte e vice-versa.

Ao mesmo tempo, lá foi instalado um cabo telegráfico submarino – conectando a América, a África e a Europa. Assim, a ilha de São Vicente tornou-se atraente não apenas pela localização, mas também pelo seu conteúdo. Antes do boom do carvão, viviam lá 350 pastores, e depois cerca de 80 mil pessoas. O fator foi o surgimento de algum tipo de trabalho.

Para reabastecimento e descanso em São Vicente, navios britânicos, holandeses e americanos faziam escala, e os locais interagiam constantemente com os estrangeiros e se educavam. Aprendiam e iam trabalhar com eles – como marinheiros, foguistas e carregadores.

Mais do que os outros, os holandeses precisavam de marinheiros. Roterdã, nas décadas de 1950 e 1960, crescia rapidamente e se tornava o maior porto do mundo, mas após a Segunda Guerra Mundial, havia uma terrível escassez de mão de obra. Os rapazes de Cabo Verde eram perfeitos: acostumados ao trabalho pesado desde a infância e treinados em assuntos marítimos, não pediam muito dinheiro e viam nesse trabalho a chance de suas vidas.

Assim, nas décadas de 1950 e 1960, os primeiros marinheiros cabo-verdianos partiram de São Vicente para Roterdã. Nos Países Baixos, eles cumpriam seus contratos e, em seguida, aproveitavam o fato de serem considerados cidadãos portugueses e possuírem passaportes europeus. Isso lhes permitia permanecer nos Países Baixos e trabalhar em terra – por exemplo, em estaleiros e fábricas de reparo naval.

De Cabo Verde para Roterdã, fugiam para não participar das guerras coloniais na África

Por um lado, os passaportes portugueses eram uma vantagem, mas, por outro, um problema. O regime de António de Oliveira Salazar, nas décadas de 1960 e 1970, desencadeou longas guerras coloniais em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, e os cabo-verdianos estavam sujeitos à mobilização geral no exército português, assim como os habitantes de Lisboa.

Obviamente, os cabo-verdianos não queriam ir para as selvas de Angola e Guiné para lutar contra outros africanos igualmente oprimidos. Além disso, muitos de Cabo Verde apoiavam o movimento guerrilheiro pela independência de seu próprio país.

Muitos fugiram para Roterdã por motivos políticos e se integraram à comunidade já estabelecida. Os holandeses não se preocupavam com os imigrantes ilegais, mas sim apoiavam a migração – os cabo-verdianos supriam a demanda por mão de obra barata.

É verdade que, em Roterdã, a polícia secreta portuguesa agia ativamente. Eles capturavam cabo-verdianos fugitivos diretamente nas ruas e os enviavam para Lisboa.

Às vezes, usavam artimanhas: ofereciam supostos bons contratos em navios com bandeiras convenientes, atraíam-nos para o mar e os levavam enganados para Portugal. Ou interceptavam cartas de Roterdã para Cabo Verde e descobriam os endereços dos fugitivos. Lá, eles eram capturados e também enviados para a guerra.

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Tudo isso só terminou por volta de 1975, quando Cabo Verde conquistou a independência de Portugal.

Aqueles que partiram levaram, ao longo dos anos, amigos e parentes para Roterdã. Todos juntos continuaram trabalhando no porto e até moravam perto uns dos outros. Atualmente, em Roterdã, estão concentrados 90% de toda a diáspora de Cabo Verde nos Países Baixos. E 9% da população do distrito portuário de Delfshaven é composta por cabo-verdianos.

Lá há muitos restaurantes e cafés locais, toca-se música africana, realizam-se festivais típicos, e nas ruas, além do holandês, é possível ouvir o crioulo cabo-verdiano – uma língua crioula baseada no português.

Não é surpreendente que nas escolas de futebol de Roterdã e cidades próximas haja muitos descendentes de Cabo Verde.

Seis deles estão na Copa do Mundo. E agora tentarão parar Lionel Messi e a seleção da Argentina.

Iara Sousa

Ela é uma renomada jornalista esportiva, formada pela Faculdade de… More »

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