O dinheiro do rei, os métodos do ‘MU’ e o espírito especial: o que é o futebol da Jordânia – A caixa atrás da escola nº 12

Conheçamos mais de perto.

A seleção da Jordânia surpreende com contrastes:
● 47ª em valor de elenco na Copa do Mundo de 2026: 20 milhões de euros segundo o Transfermarkt, dos quais 10 milhões são o preço da principal estrela, Musa Al-Taamari, do Rennes. Apenas a seleção do Catar é mais barata (19,9 milhões).
● Quase metade dos jogadores jordanianos vem da liga local, que está longe de ser a mais forte até mesmo na Ásia. Os clubes raramente se classificam para a Liga dos Campeões, participando principalmente do segundo torneio asiático em importância.
● Os salários médios na liga jordaniana são de 2 mil dólares por mês.
Mas, mesmo assim:
● A seleção da Jordânia é uma equipe muito sólida. Vice-campeã da Copa da Ásia de 2023 (durante o torneio, enfrentou a Coreia do Sul duas vezes: empate na fase de grupos e vitória na semifinal).
● Classificou-se com confiança para a Copa do Mundo de 2026: na segunda rodada, superou a Arábia Saudita, e na terceira, garantiu a vaga para os EUA com uma rodada de antecedência.
● Na primeira rodada da Copa do Mundo de 2026, lutou com dignidade contra a Áustria (1:3). Poderia muito bem ter conquistado pontos.
Como tais polaridades se combinam?
Para entender, Terentyev conversou com o jogador russo Islam Pekov, que atuou no campeonato jordaniano, e com o treinador Biber Kagado, que trabalhou no sistema do futebol jordaniano, inclusive como dirigente.
Como é jogar no campeonato jordaniano? Um jogador russo conta

Islam Pekov tem 27 anos e mais de 100 partidas na Segunda Liga russa. No início de 2025, ele passou alguns meses no Al-Ahli, da Jordânia.
“Tudo começou com uma mensagem do técnico Bibert Kaghado”, diz Islam Pekov. – Ele me conhecia, trabalhamos juntos em Maikop [na Segunda Liga]. Respondi: ‘Vou terminar a temporada, entrar em forma e depois podemos conversar novamente’.
Na época, eu jogava pelo Mashuk-KMV, ganhamos o Bronze [Segunda Liga 2B], depois fomos para o Prata e, mais tarde, para o Ouro [Segunda Liga 2A]. Mas, devido a problemas de saúde, tive que deixar o time, precisava de uma cirurgia. Hérnia inguinal – dos dois lados.
Os problemas começaram ainda no Prata.
Joguei seis ou sete partidas, sentia que algo estava errado. As dores na virilha eram tão intensas que me tornei o mais lento do time – algo que nunca tinha acontecido na minha vida. Simplesmente não conseguia acelerar.
Os treinadores perceberam, mas ninguém conseguia entender o motivo. Me tratei, consultei médicos – nada ajudava. Ficou psicologicamente difícil permanecer no time. Não conseguia jogar direito, ajudar os companheiros. Além disso, havia a questão financeira: no Prata, os bônus do Mashuk eram de 50 mil rublos [por vitória]. Como não estava jogando, além do salário, não recebia nada.
– Quais são os salários médios na Segunda Liga?
– Depende da idade. Para os mais jovens, 20 a 40 mil rublos. Para os experientes, 100 a 120. Naquela época, [os jogadores] ganhavam muito bem.
– Você entendia que não podia jogar. O que aconteceu depois?
– Pensei: por que torturar a mim mesmo e ao time? Voltei para casa e lá encontrei um jogador de futebol conhecido. Ele, depois de me ouvir, disse imediatamente: ‘É hérnia inguinal. Mesmo que você pare, ainda assim precisará de cirurgia. Cem por cento’.
Fui para Krasnodar, fiz a cirurgia. Sou grato ao Mashuk por ter ajudado com a operação. Mas, como estava claro que a recuperação levaria tempo, rescindimos o contrato de comum acordo.
Depois de um tempo, Bibert me escreveu novamente. Ele estava indo bem no Al-Ahli, de Amã, levou o time às semifinais da Copa. Embora essa seja, provavelmente, a equipe mais pobre da liga.
Dois meses após a cirurgia, fui para a Jordânia. Sem pré-temporada, sem nada – nem sequer toquei na bola. Só estava fortalecendo [os músculos], ia à piscina. Sabia que estava completamente fora de forma, tinha três ou quatro quilos a mais. Mas, naquele momento, o clube já tinha comprado as passagens aéreas, e assinamos o contrato.
Fui para o Al-Ahli junto com outros dois jogadores da Rússia (Azamat Atayev, do Yalta, e Vadim Abidokov, do Nart).

– Quanto tempo no total você perdeu por causa da lesão?
– Mais ou menos seis meses.
– Por que decidiu ir mesmo assim?
– Queria ver qual era o nível lá – comparar com o nosso. Além disso, o salário – na Jordânia, me ofereceram um contrato de 2,2 mil dólares por mês. Na época, isso equivalia a 220 mil rublos.
– Como é o ambiente da liga local?
– Sinceramente, nem tudo me agradou. Nos jogos das 5 melhores equipes, há muitos torcedores – estádios lotados. Muito barulho. Nos outros jogos, o público é bem menor. Às vezes, jogávamos para 50-100 espectadores.
Enquanto estivemos lá, não cheguei a jogar contra as 5 melhores. Por isso, não peguei a atmosfera mais vibrante.
Mas é conveniente que a maioria dos estádios esteja na capital – Amã. Quatro campos naturais, um artificial. 15-20 minutos, e você está lá – não é como na Rússia, onde se viaja 12-13 horas para Rostov, Astrakhan, Yalta.

– Qual foi o nível da liga?
– Acho que os dois primeiros times da Jordânia poderiam jogar na RPL. Mas estariam no final.
Lá há muitos jogadores interessantes, que são muito fortes tanto fisicamente quanto tecnicamente. Uma pessoa podia lidar com três, sendo rápida e poderosa ao mesmo tempo. Isso impressionou.
A maioria dos caras do nosso time tinha outro trabalho além do futebol. Alguns no banco, outros na recepção de hotéis, outros com seus próprios negócios. Não sei como é em outros clubes, mas acho que nas equipes de topo os jogadores não têm empregos extras. Lá os salários são de 10 a 12 mil dólares. É muito bom para a Jordânia.
A principal impressão que tive foi que todos são muito unidos. Nas treinamentos, as disputas eram duras, ninguém tirava o pé, não havia piedade. Mas depois, eram como irmãos, melhores amigos. Ninguém se ofendia: tipo, por que você pulou [nas pernas]?
Simplesmente caía, levantava e continuávamos jogando. Um grupo incrível.
– Em que mais isso se manifestava?
– Por exemplo, o capitão da equipe [Mohamed Dahshan] era de etnia bjedyg. Ele era um dos que entendia russo. Ele tem sua própria clínica perto do estádio – se houvesse uma lesão ou mal-estar, íamos até ele. E tudo de graça.
Muitos caras ajudaram na adaptação. Nos convidavam para restaurantes, shows, nos levavam para os treinamentos. Em geral, na Jordânia, as pessoas são muito bondosas. Hospitalares. Aqui, às vezes, podem olhar torto para você se você fizer alguma pergunta. Lá, sempre ajudam.
Quando chegamos, estávamos na fila para o visto e para trocar dólares por dinares. Sem conhecer o idioma, foi difícil. Um homem se aproximou, que ouviu o russo (ele estudou em Nalchik por 10 anos e agora vive no Afeganistão): “Deixe-me ajudar?” Ficamos muito gratos: ele pegou os passaportes, fez o visto e depois trocou o dinheiro.
– Onde você morava?
– Morávamos em três – eu, Azamat [Ataev] e Vadim [Abidokov] – em um apartamento de cinco cômodos. Muito confortável.
Era praticamente no centro de Amã [capital da Jordânia]. Perto havia muitos cafés, encontramos um restaurante cabardino e pedíamos comida constantemente. Os cabardinos, que eram vários na equipe, nos indicaram.
A comida na Jordânia é incrível, muito saborosa. E a Coca-Cola – é diferente, original. Também queríamos ir com os caras ao Mar Morto – afinal, é uma maravilha do mundo, mas não deu tempo.

– A região tem sido instável nos últimos anos devido a conflitos militares. Você se sentiu seguro?
– Quando chegamos, havia um acordo de paz [assinado em 1994 entre Israel e Jordânia]. Por isso, nada de extraordinário aconteceu. Depois que saímos, a guerra recomeçou – os caras do time gravaram um vídeo direto de suas casas, mostrando Israel atacando o Irã com mísseis.
Lá tudo é muito próximo: você atravessa um rio e está em Israel. Atravessa outro e está no Iraque.
Mas os caras do time não tinham medo, eles nos contavam: o exército jordaniano é tão forte que poderia conquistar o Afeganistão em dois dias. Eles têm tanques russos.
Aliás, um dos caras até lutou pelo Irã contra Israel. Mas, por causa da barreira do idioma, não conseguimos conversar em detalhes sobre isso.
– No final, ficamos no time por 3,5 meses. Por que tão pouco?
– Trocaram o técnico que nos convidou. O clube estava disposto a pagar alojamento e alimentação, mas ofereceu reduzir o salário para 50 mil rublos. Não fazia sentido ficar. Lá tudo é muito mais caro do que na Rússia – no mínimo duas ou três vezes mais.
– Por exemplo?
– Acho que 20 ovos de galinha custavam (convertendo de dinares) cerca de 900 rublos.
Mas, de qualquer forma, foi uma experiência interessante. Eu voltaria com prazer, mas só se fosse com o mesmo técnico.
O futebol local era construído por um treinador do Manchester United

Bibert Kaghado, que convidou Pekov para o “Al-Ahli”, nasceu nos EUA. Seus pais (mãe circassiana, pai cabardino) mudaram-se para a América em 1969, e foi lá que ele começou a jogar futebol.
No meio da década de 90, Kaghado retornou à Rússia, jogou 10 partidas pelo “Spartak-Nalchik” na Primeira Liga, e depois atuou na Liga Jordana pelo “Al-Ahli” e “Shabab Al-Ordon”.
Quando se tornou treinador, conquistou a medalha de bronze na Copa Árabe com a seleção jordaniana de futsal em 2008, trabalhou na Associação de Futebol da Jordânia e treinou as seleções Sub-17 e Sub-20 (incluindo jogadores que foram para a Copa do Mundo nos EUA em 2026).
“Em 2009, a Jordânia convidou Jonathan Hill para a federação”, diz Kaghado. – Um especialista conhecido na Inglaterra: trabalhou nas academias do “Manchester United”, “City”, e depois [como parte da comissão técnica do time principal] no “Fulham”. Tornei-me seu assistente – implementamos suas ideias.
Na Jordânia, mesmo na minha época, havia bons jogadores. Individualmente. Mas faltava disciplina, habilidades táticas e físicas. Embora a seleção já pudesse brilhar. Na Copa da Ásia de 2004, perdemos para o Japão nas quartas de final apenas nos pênaltis. Era uma equipe muito boa.
Hill chegou para trabalhar em um fundamento já consolidado. No início dos anos 2000, a família real da Jordânia (especificamente o príncipe Ali bin Al-Hussein, presidente da federação de futebol e vice-presidente da FIFA) começou a construir centros de treinamento em todo o país.
“Isso foi feito para sistematizar o treinamento – tanto técnico quanto mental. Para que houvesse um plano de trabalho comum”, diz Kaghado. – Agora existem 12 academias principais, além de filiais. Em todo o país, são realizados testes – os melhores, a partir dos 13 anos, são selecionados para esses centros. Mesmo que a família de um menino talentoso não tenha recursos ou dinheiro, eles recebiam uma chance.
Depois, há um plano detalhado – tanto para o trabalho individual quanto em equipe. Não é como: ‘Eu joguei futebol – entendo tudo, entrem [no quadrado] cinco contra dois’. Não, para cada jogador há nuances sobre como torná-lo melhor. Mesmo em um único treino.
Porque todos são diferentes. Cada um precisa de uma abordagem específica.
Um dos focos do treinamento é o combate. Como disputar a bola de forma dura, mas limpa. Não se trata apenas de cartões amarelos e vermelhos, mas também da capacidade de manter a posse de bola sob pressão. Um jogador que não sabe disputar a bola de forma limpa atrapalha o plano de jogo. Suponha que você esteja aplicando uma pressão alta, encurralando o adversário, mas um dos jogadores comete faltas constantemente na disputa. Interrompendo a pressão.
E para quem isso é útil? As fases de transição são a parte mais importante do jogo atualmente. Nela, é preciso ser muito preciso, inteligente.
– Nas seleções juvenis, você se cruzou com alguém da atual seleção da Jordânia?
– Sim. Dois estão na Copa do Mundo de 2026: Ehsan Haddad (capitão e lateral-direito) e Yazan Abu-Arab (zagueiro central) – fui eu quem os levou para a seleção juvenil da Jordânia.
Podiam ter ido também Adam Al-Quraishi, que se lesionou na Copa Árabe e não conseguiu se recuperar a tempo, e Baha Faisal e Saleh Ratib, que estavam na preparação para a Copa do Mundo, mas não foram incluídos na lista final.

— Quais são os salários médios na Jordânia?
— Cerca de 2000 dólares por mês. Os jogadores da seleção recebem entre 8 e 10 mil dólares.
– A seleção da Jordânia tem o 47º elenco mais valioso nesta Copa do Mundo, só é mais barato que o do Catar. Quase metade dos jogadores vem da liga jordaniana. Mas a seleção é forte: vice-campeã da Copa da Ásia, classificação para a Copa do Mundo. Como isso é possível?
– A liga jordaniana tem um nível digno. Sim, não é frequente que se classifiquem para a Liga dos Campeões da Ásia, mas no segundo torneio mais forte da região (Liga dos Campeões da AFC 2) eles se classificam e se saem muito bem. Além disso, há vários jogadores na França, Egito, Catar, Coreia do Sul, Arábia Saudita e Iraque.
Mas o mais importante é que essa seleção tem espírito. Mentalidade. Viu o jogo contra a Áustria? Os jordanianos são confiantes, lutam até o fim, independentemente do status do adversário.
Entenda, no nível profissional, a diferença de classe não é tão gigante quanto pode parecer. As diferenças estão nos detalhes: alguém é um pouco mais rápido, mais técnico, alguém vê o campo e o espaço melhor. Às vezes, a diferença é na velocidade das decisões – frações de segundo. Sim, isso determina muita coisa, mas essa desvantagem pode ser reduzida com espírito, dedicação e vontade.
Por isso, muitos jordanianos jogam melhor na seleção do que nos clubes.
Aqui também destacaria o papel da família real da Jordânia. O Rei Abdullah II bin Al-Hussein, o Príncipe Ali são muito próximos da equipe. Eles se encontram, conversam. Os jogadores veem isso, mostram respeito e não querem decepcionar as pessoas.

Além disso, o trabalho que começou há 27 anos (com a construção de centros de treinamento) está dando frutos. Por exemplo, no amistoso contra a Colômbia antes da Copa do Mundo, o estádio estava lotado, com uma atmosfera incrível. Perdemos por 0:2, mas jogamos muito bem, especialmente no primeiro tempo.
Sim, ainda falta infraestrutura. Precisamos de mais estádios: atualmente, há [grandes arenas] 5-6. Mas não tudo de uma vez.
P.S. Ao nos despedirmos, pedi a Kagado que mencionasse lugares que valem a pena visitar na Jordânia.
“É um país incrível. Com muitos lugares interessantes que não existem em nenhum outro lugar do mundo. O Mar Morto, cidades antigas – Petra e Jerash, onde a arquitetura secular foi preservada. Bibliotecas que guardam os documentos mais antigos. Desertos maravilhosos, onde nômades ainda vivem. Em tendas. Se você passar por lá, eles oferecerão chá, café.
Então, se você tiver a oportunidade, claro, venha à Jordânia. As pessoas lá são maravilhosas, sempre dispostas a ajudar e orientar. E a culinária é excelente.”




