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Messi e Ronaldo na Copa do Mundo de 2026: prós e contras do jogo das lendas

Não tem como evitar as comparações.

Não tem como escapar das comparações entre lendas: esta Copa do Mundo é a última (ou não?) para Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. E ambos estão quebrando recordes desde os primeiros jogos.

Embora o torneio tenha começado de maneiras diferentes para cada um: Messi destruiu a Argélia com um hat-trick (3:0) e fez um doblete contra a Áustria (2:0), enquanto Cristiano Ronaldo, junto com Portugal, decepcionou ao empatar com a República Democrática do Congo (1:1), mas brilhou contra o Uzbequistão (5:0).

Vamos analisar como foi o início da Copa do Mundo para essas lendas, o que pode ser dito sobre o desempenho deles e como influenciaram suas equipes.

Messi é o centro das atenções da Argentina, enquanto Ronaldo só foi integrado no segundo jogo

Messi, de 39 anos, e Ronaldo, de 41, permanecem como os principais jogadores da Argentina e de Portugal. Seu conforto é prioridade para os técnicos Lionel Scaloni e Roberto Martínez. Ambos têm liberdade em campo, mas a de Messi é um pouco maior. Leo recua, abre para os lados, recebe entre as linhas e até sai da pressão a partir da posição de lateral direito. Os demais se adaptam aos seus movimentos: ou buscam passes penetrantes ou se desmarcam.

Ronaldo também tem liberdade de ação. Ele pode recuar para dialogar com um companheiro ou ficar na área esperando por cruzamentos ou passes rasteiros. Às vezes, a posição de Cristiano se torna mais fixa, dependendo das tarefas. Por exemplo, no primeiro tempo contra a RD Congo, ele recuou mais, e após o intervalo, se movimentou mais pelo centro.

Martínez opta por uma estrutura flexível com três meias, mas ainda assim ataca principalmente pelas alas. Surpreendentemente, apesar da enorme superioridade territorial de Portugal e do foco da equipe em um único jogador no ataque, a participação de Ronaldo é relativamente baixa. Contra a RD Congo, foram apenas 25 ações no jogo inteiro, enquanto Bernardo Silva, substituído no intervalo, teve 23. Pedro Neto, que jogou 70 minutos, acumulou 54. Os outros titulares de linha participaram pelo menos 89 vezes. Os reservas também foram mais ativos: o ponta direita Francisco Conceição teve 37 ações no segundo tempo, e o lateral direito Nélson Semedo, 19 em cerca de 20 minutos. No entanto, é importante considerar a posição: centroavantes geralmente participam menos, especialmente em um cenário onde uma equipe domina a posse de bola por mais de 70% do tempo.

Contra o Uzbequistão, Ronaldo foi muito mais ativo: 34 ações, 10 delas na área, e sete finalizações (o melhor do jogo). Ainda assim, sua participação segue baixa. Dos titulares, apenas Neto participou menos que Ronaldo (25), mas jogou apenas um tempo.

Mas os números dizem pouco. O mais importante é que, durante todo o jogo contra a RD Congo, Cristiano raramente tocou na bola em zonas perigosas. Só teve seu primeiro contato no centro do campo no meio do segundo tempo, e antes disso não participou de jogadas perto do gol adversário.

Sem dúvida, um detalhe marcante que revela problemas de ambos os lados: Portugal, com 75% de posse de bola, não conseguiu entregar a bola ao principal jogador do ataque, e o próprio Ronaldo se mostrou praticamente inútil no esquema dominante.

Agora, compare com o mapa de toques contra o Uzbequistão. Uma ameaça colossal na área e recuos adequados para o meio-campo. Claro, é preciso considerar o contexto: o nível do adversário, o estilo de jogo (a RD Congo avançava a linha e minimizava os espaços, enquanto o Uzbequistão, ao contrário, concedia mais espaço). Mas também registramos melhorias positivas no jogo de Ronaldo.

O envolvimento de Messi é muito maior. Aqui está uma boa ilustração de sua utilidade multifacetada: contra a Argélia, Leo conectava e criava em diferentes zonas. O gol anulado veio após uma arrancada pela direita, no espaço entre o zagueiro central e o lateral. O primeiro e o terceiro gol saíram da zona central: Messi se posicionou para receber um passe em profundidade de Rodrigo De Paul em um ataque posicional, depois conectou um contra-ataque rápido. No segundo gol, Leo se fixou na terceira parte do campo, completamente pela esquerda, de onde passou para Nicolás González.

No final, temos um cenário em que Messi é uma das principais opções para continuar o ataque.

Mas também é importante notar que uma comparação direta aqui não é totalmente correta. Scaloni e Martínez têm diferentes exigências para os líderes. Messi pode se mover tranquilamente de qualquer zona sem prejudicar a estrutura. Já Ronaldo é necessário na área para atrair cruzamentos, e suas saídas para o meio podem ser úteis, mas: a) essa não é sua função principal; b) nesse caso, a posição de atacante fica vaga.

Por isso, contra o Uzbequistão, Portugal entrou em campo com uma estrutura mais clara: Vitinha, Bruno, Neves e Félix garantiam a conexão no meio, enquanto Mendes, Cancelo e Neto davam apoio pelas alas. Graças a isso, a progressão no meio e as entregas pelos flancos funcionaram melhor, e de lá para a área. No final, Ronaldo se concentrou na ameaça ao gol, sem se desgastar com descidas pouco construtivas para o meio. A estrutura o ajudou nisso.

A Argentina se adapta melhor a Messi, enquanto Portugal carece de química

A diferente participação de Messi e Ronaldo no jogo da equipe é consequência de vários fatores. Um deles é a interação com os companheiros. No caso de Leo, elas são bem ajustadas: os companheiros criam espaço para ele, se movimentam e oferecem opções de passe. Graças à química da equipe, Messi e o time se entendem intuitivamente. Um ótimo exemplo é o primeiro gol contra a Argélia. De Paul escolheu um passe inteligente pelo centro, Lautaro Martínez e Thiago Almada avançaram, atraindo os defensores para mais perto do gol e criando alguns metros extras para Messi acelerar.

Na seleção de Portugal, ao contrário, nem sempre há entrosamento suficiente. No segundo turno, houve progresso, mas primeiro vamos falar sobre os aspectos negativos, que se manifestam em duas coisas.

A primeira é quando Cristiano recua para o meio-campo. Na maioria das vezes, essas investidas são inúteis: como mencionado anteriormente, ninguém ocupa seu espaço no ataque, e as interações no meio-campo não trazem nenhum benefício ou criam oportunidades. No final, Ronaldo falta nas jogadas na área, e seu recuo não agrega qualidade.

A segunda é nas movimentações dentro da área. Ronaldo e outros atacantes frequentemente se sobrepõem. Às vezes, por culpa do próprio Cristiano. Vocês sabem qual episódio servirá de exemplo. Ele não é o único, apenas o mais evidente.

Portugal abriu a defesa da RD Congo pelo lado direito graças ao movimento inteligente de desmarcação de Conceição e ao passe penetrante de João Neves. Mas o mais importante foi a liberdade ao entrar na área e o promissor 3 contra 3 dentro dela.

Ronaldo estava próximo ao jogador na trave mais próxima, um pouco mais atrás dele no centro da área estava Bruno Fernandes. Normalmente, nessas situações, o ataque faz um movimento cruzado: o atacante na trave mais próxima se abre para receber um passe ao longo do gol, enquanto o mais distante corre em curva para a trave mais próxima.

Bruno fez exatamente isso: reduziu o ritmo e se abriu para receber um passe para trás. Só que Ronaldo permaneceu na mesma posição. No final, Bruno não recebeu a bola em uma posição perigosa, e Cristiano chutou mal devido ao zagueiro que o marcou. Esse foi um dos dois momentos mais perigosos de Portugal no segundo tempo.

Agora sobre o lado positivo. Ronaldo continua se movendo de forma magnífica dentro da área. O primeiro gol contra o Uzbequistão é atemporal. Sua característica arrancada em direção ao primeiro poste, na zona entre os zagueiros centrais. A essência desse movimento é que ele surge em um ponto cego para ambos os defensores: um não vê Ronaldo porque está focado no cruzamento, o outro já perdeu a arrancada e reage com atraso.

Merece destaque especial o Bruno. Ele não interferiu no movimento sincronizado para o lado próximo, mas freou inteligentemente e atuou como um buffer. Ronaldo ainda teve algumas boas oportunidades de finalização em cruzamentos, além de papéis interessantes em bolas paradas. Ou seja, em um cenário em que ele é constantemente abastecido com cruzamentos das alas e os companheiros se adaptam ao movimento na área, Cristiano ainda é um jogador de elite.

Quão importantes são Messi e Ronaldo para suas seleções?

Com Leo, é simples. Ele foi o melhor jogador da partida contra a Argélia: um hat-trick, papel fundamental na criação de jogadas e uma infinidade de decisões brilhantes com a bola. Na defesa, Scaloni se adaptou à estrela: mudou para o 4-4-2 (De Paul cobrindo a ala direita), ocasionalmente usando cinco jogadores com Almada descendo pela esquerda e aplicando pressão em momentos específicos. Houve algumas imperfeições. A Argélia preparou uma jogada interessante: o meia-esquerdo Ibrahim Mazraoui se movia atrás de Messi, o que permitiu que a Argélia encontrasse espaços periodicamente. No entanto, não conseguiram aproveitar a vantagem.

O jogo contra a Áustria foi uma continuação do espetáculo. Messi marcou dois gols, quebrou a pressão austríaca e desorganizou o 4-4-2 com passes para a esquerda (resultando no pênalti e no primeiro gol), ditando o ritmo. Messi é o pilar das elegantes combinações da Argentina pelo meio. De Paul, Fernández e Alexis Mac Allister fizeram passes arriscados e penetrantes, Martínez e Almada se movimentaram bem, e Messi conectou tudo. O segredo da Argentina está na adaptação perfeita do time ao redor de Messi. Esse detalhe foi bem descrito por um autor:

“É verdade que a Argentina é um time do número 10, mas também é um time onde os dez jogadores são operários. Por mais ambíguo que possa soar. O sacrifício sem a bola é impressionante. Lautaro corre incansavelmente de defensor para defensor, enquanto Messi observa de primeira fila. De Paul, Mac Allister e Enzo, em um minuto, passam de finesse a agressividade na marcação. Se é para sufocar, não é exatamente um time do número 10. É um time de meio-campistas no sentido mais amplo da palavra.”

Com Ronaldo, é mais complicado. Há a opinião de que sua presença empobrece o jogo de Portugal, fazendo com que o time pense mais em cruzamentos das alas do que em progressão pelo meio. Talvez. Mas não há evidências empíricas de que seria diferente sem ele.

O jogo fraco de Portugal contra a RD Congo não se deve apenas aos problemas com Cristiano. A estrutura descoordenada também atrapalhou. No primeiro jogo, Portugal fez 20 cruzamentos. A primitividade se sobrepôs à falta de preparação, os passes não chegavam a Cristiano, e os congoleses dominaram o jogo aéreo com tranquilidade.

Além disso, em termos de cruzamentos para a área, Portugal nem está entre as top-5 equipes da Copa do Mundo. Na primeira rodada, Uruguai (34), Espanha (27) e Suíça (22) fizeram mais cruzamentos. Mais do que isso, para Portugal, esse índice é muito abaixo da média em comparação com as eliminatórias (em média, 28 cruzamentos por partida).

Contra o Uzbequistão, Portugal melhorou a estrutura e fez ainda menos cruzamentos – 17. A variedade no ataque foi alcançada com o uso de outras táticas (como bolas paradas). No entanto, a principal fonte de perigo durante o jogo ainda eram as jogadas pelas alas. A principal diferença em relação ao jogo contra a RD Congo é que elas foram bem trabalhadas. Isso influenciou o desempenho de Ronaldo.

Muito depende dos adversários

Não é o fator chave, mas também é importante. A RD Congo defendeu de forma disciplinada e compacta, neutralizou os cruzamentos com calma e praticamente não caiu nas armadilhas de profundidade. Isso permitiu que resistissem e destacassem os problemas de Portugal. O Uzbequistão, por outro lado, permitiu que Portugal se estabelecesse nas alas e avançasse. Como resultado, no primeiro caso, a equipe de Ronaldo foi lenta, enquanto no segundo, dominou o adversário.

A trajetória da Argentina é um pouco semelhante. A Argélia foi um adversário muito confortável devido à defesa caricata e ao ataque desorganizado. Contra a Áustria, foi mais difícil: Messi, em geral, cumpriu sua tarefa, mas a Argentina jogou de forma muito mais pragmática e rigorosa no segundo tempo do que no primeiro.

Mas o mais importante: após a primeira rodada, no confronto entre Messi e Ronaldo na Copa do Mundo, tudo parecia óbvio, mas agora a emoção voltou. Aguardamos a próxima rodada!

Ângelo Almeida

João Pedro Silva é um renomado jornalista esportivo português, formado… More »

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