Futebol

Messi é fantástico. E o resto da Argentina? – Argonautica

Reflexões de Artem Denisov.

A Argentina marcou 14 gols na Copa do Mundo de 2026, com Lionel Messi marcando oito gols e dando uma assistência. Além disso, a Argentina marcou duas vezes contra Cabo Verde em escanteios cobrados por Messi. Marcou dois gols contra a Jordânia, quando Messi simplesmente não estava em campo. Resta apenas o gol decisivo contra o Egito, mas mesmo lá é possível encontrar a influência de Messi: ele apontou com o dedo para onde passar durante o desenvolvimento do ataque (não para ele).

A contribuição de Messi para o jogo da Argentina é inestimável. Nível fenomenal. Mas há muitos debates sobre o resto da equipe. Há uma opinião bastante popular de que, ao lado de Messi, há jogadores medianos que ele carrega apesar de tudo.

Tese central do texto: Messi é o melhor e mais importante jogador da Argentina, mas o restante do grupo está bem organizado para destacar ainda mais as qualidades mais fortes de Leo e maximizar sua utilidade.

A Argentina é, objetivamente, uma equipe incomum para o futebol em 2026. Não há nenhum driblador rápido pelas alas em seu elenco. Muitas equipes têm dois, um em cada flanco. A Argentina tem zero. Não há a opção de levar a bola para a linha de fundo e resolver a jogada no um contra um. Não há a opção de esticar a defesa adversária com esses dribladores. Aliás, em termos de dribles, a Argentina ocupa apenas a 32ª posição entre os 48 participantes da Copa do Mundo.

Além disso, a Argentina começou o torneio sem laterais ofensivos que, na ausência de dribladores pelas alas, poderiam avançar e atacar com cruzamentos. A Argentina fez seis cruzamentos em toda a fase de grupos. No mínimo, metade do que qualquer uma das outras 47 seleções.

A equipe de Lionel Scaloni não tem uma formação fixa com a bola – 3-2-4-1, ou 3-1-6, ou 4-2-4. A Argentina ataca por meio da interação dos jogadores, sem a necessidade de colocá-los em uma estrutura rígida. Julian Nagelsmann, após a derrota para o Equador, criticou publicamente os jogadores alemães por abandonarem suas posições dentro do sistema estabelecido. Já na Argentina, Rodrigo De Paul e Messi aparecem juntos na posição de lateral-direito – e de lá iniciam uma jogada que termina na área adversária.

Por fim, a Argentina quase não pressiona, adaptando-se a Messi. Ele está praticamente ausente da fase defensiva. Muitas vezes, a Argentina se defende com dez jogadores. O adversário tem longos períodos de posse de bola. Primeiro, a Argentina recua após perder a bola para se reorganizar e se preparar para a defesa posicional. Segundo, recuperar a bola em minoria é objetivamente mais difícil do que com o time completo. A Argentina divide as posições 30-35 em recuperações altas da bola.

Se tentarmos enquadrar a Argentina nos padrões do futebol moderno, como Nagelsmann faz com seus jogadores, vemos uma equipe sem pressão, sem a capacidade de driblar pelas alas no um contra um, limitada a ataques pelo centro. Uma equipe fraca. Mas até que ponto essa avaliação é adequada, se a Argentina nem tenta se manter dentro desses padrões?

Na prática, a Argentina ataca pelo centro com cinco meio-campistas. Aqui está a formação inicial: Alexis Mac Allister, Enzo Fernández, Rodrigo De Paul, Thiago Almada e Lionel Messi. Messi tem liberdade total de movimento. Os outros também têm bastante liberdade, na verdade. Para simplificar, pode-se imaginá-los em um quadrado, com Mac Allister e Enzo mais recuados, e Almada e De Paul mais adiantados. Mas, em questão de segundos, isso se transforma em um losango, com Mac Allister na base, Almada no topo, e Enzo e De Paul nas laterais. Mais alguns segundos, e volta a ser um quadrado, mas agora com De Paul na base ao lado de Mac Allister, e Enzo no mesmo nível de Almada.

O ponto-chave é que cada meio-campista da Argentina se adapta ao movimento de Messi.

Se Leo recua para o centro do campo, um dos meio-campistas reage instantaneamente com uma arrancada para frente, tornando-se imediatamente uma opção para um passe em progressão de Leo. Na fase de grupos, Almada foi quem mais fez isso com frequência.

Muitas vezes, quando Messi recua, quase todos os meio-campistas avançam ativamente. Um exemplo do jogo contra o Egito: Leo iniciou um ataque que, em apenas dois passes, resultou em um pênalti marcado. O movimento de Enzo, Mac Allister e De Paul para frente é uma reação ao movimento de Messi para trás.

Nem sempre é Messi quem constrói o ataque. Aqui está um exemplo: De Paul e Mac Allister começam no mesmo nível, então um recua para os defensores, enquanto o outro avança a partir da posição de meio-campista, recebe o primeiro passe e imediatamente lança a bola para Messi. Sem dribles, sem domínio físico, apenas movimento inteligente e passes de qualidade. Em dois passes, a Argentina desorganizou a defesa.

Às vezes, surgem soluções geniais, como o passe de De Paul para Messi contra a Argélia – uma das melhores assistências do torneio. Depois disso, Messi marcou o primeiro gol na Copa do Mundo de 2026.

Uma ressalva importante: dificilmente algum meio-campista que apoia Messi está tendo um torneio individualmente excepcional. Almada, por exemplo, se sincronizou muito bem com Messi (lembra quando ele deixou a bola passar antes do gol contra a Áustria?), mas contra Cabo Verde tomou muitas decisões ruins no último terço e não voltou para a defesa com a agilidade necessária. Enzo fez alguns bons passes em contra-ataques rápidos, mas esses momentos são raros no jogo da Argentina.

Os exemplos acima não são para elogiar os meio-campistas argentinos; são mais para contrapor a ideia de que todos são medíocres. Na verdade, esses jogadores se adaptam bem ao estilo de Leo.

Aos centroavantes, as críticas são mais justificáveis: Lautaro Martínez e Julián Álvarez atraem bem os dois zagueiros centrais, e Lautaro, em quase todas as partidas, faz bons pivôs para Messi, atuando como terceiro elemento após o passe vertical, mas ambos carecem de eficiência dentro da área.

Ao longo do torneio, os adversários foram se adaptando ao jogo centralizado da Argentina. Cabo Verde congestionou a zona de meio-campo. Claro, a Argentina sofreu, mas ainda assim encontrou uma solução. Cabo Verde, ao marcar os meio-campistas, não exerceu pressão alguma sobre os zagueiros centrais da Argentina. Lisandro Martínez teve total liberdade. Foi ele quem fez o lançamento espetacular para Messi no lance em que Leo abriu o placar.

Este não é um caso isolado. Lisandro regularmente abria a defesa de Cabo Verde com um único passe. E não era apenas Messi o destinatário.

Contra o Egito, Scaloni escalou Nicolás Tagliafico na esquerda da defesa, em vez de Facundo Medina. Tagliafico é um lateral-esquerdo de ofício, enquanto Medina é um zagueiro central. Assim, Scaloni quis ativar mais o flanco esquerdo no ataque: Tagliafico, em seu estilo característico, acelerava pelas costas dos defensores egípcios.

Primeiro, conseguiu um pênalti, depois cruzou para Álvarez – o melhor momento do jogo no primeiro tempo. E quem fez o lançamento, entre outros, foi Leandro Paredes, que foi escalado como titular no lugar de Almada exatamente para essa interação. Mac Allister foi mais para frente, mais perigoso nas ameaças ocultas nas bolas aéreas – ele cabeceou com perigo em um cruzamento de De Paul.

Os lançamentos de Lisandro contra Cabo Verde e as arrancadas de Tagliafico pelas costas na lateral contra o Egito mostram que a Argentina ainda pode criar chances, mesmo que o adversário feche a zona central com todas as chaves. Scaloni percebe que agora é impossível penetrar apenas pelo centro. Isso cria um dilema para o adversário. Claro, é preciso bloquear a zona central, mas também é preciso se preocupar com os lançamentos e as transferências para as alas.

E, por último: talvez você também tenha se deparado com comentários do tipo: “Tire Messi, e a Argentina com esse jogo desmoronará”. É um experimento mental estranho. A Argentina organiza completamente o jogo, adaptando-se a Messi, às suas melhores qualidades. Tire Messi, e a Argentina jogaria de forma completamente diferente.

Uma pergunta razoável: e se Messi, mais cedo ou mais tarde, tiver um desempenho fraco? Bem, será ruim. Mas a Argentina não tem um plano B enquanto Leo joga. A única opção é adaptar o jogo de toda a equipe a ele. E é difícil adaptar melhor do que nesta Copa do Mundo. Messi retribui com um futebol excepcional.

Yasmin Fonseca

Ela é uma renomada jornalista esportiva, formada pela Faculdade de… More »

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10 Comentários

  1. Messi é fantástico, Sinner é magnífico, Kane e Haaland são perfeitos, e a Suíça é a melhor da história. Tudo isso em uma única edição. O esporte é diversificado!!

  2. Outras seleções precisam ter dois elencos equivalentes: dribladores de ponta, melhor ainda se tiverem três, laterais rápidos, atacantes super eficazes, meias centrais que recuperam todas as bolas atrás e avançam com força, zagueiros centrais confiáveis com um primeiro passe perfeito, goleiros que jogam com os pés, mas também são seguros nas saídas e na linha. Simplesmente porque eles não têm um Messi. A Argentina tem, então basta deixá-lo criar

    1. Messi, devido à idade, é mais um garçom, então atacantes com boa finalização são necessários, porque Álvarez e Martínez estão perdendo muitas chances

  3. Lembro imediatamente do gol da vitória da Argentina contra o Egito.
    A estrela da Inter, Lautaro, correu relutantemente atrás da bola e parecia que inicialmente queria parar e recuar, mas no último momento viu um companheiro e cruzou para a área. E ele tinha acabado de entrar como substituto e estava fresco!
    E assim é (quase) sempre na seleção argentina. Jogadores brilhantes e estrelados não parecem estar em 100% de suas capacidades

    1. Lautaro já tem PTSD na seleção, ele realmente não parece ele mesmo)
      Toda vez que vejo jogos da Inter, simplesmente não o reconheço
      Ele anda tão poderoso, irritado, confiante
      Chega na seleção – vira uma ovelhinha
      mistério

  4. A Suíça não pega estrelas do céu. Não tem jogadores superestrelas. Muito menos do nível de Messi. Mas é uma equipe muito sólida, acima da média. Quase no topo. Muito entrosada. Muito tática. Os argentinos enfrentaram até agora equipes africanas, que nunca se destacaram por um jogo coletivo bem estruturado. Mas hoje (amanhã à noite) eles vão enfrentar uma equipe europeia, com todas as implicações disso. E não tenho certeza de que, sem o gênio de Messi (que deve ser considerado separadamente da equipe), os argentinos conseguirão passar pelos suíços.
    E, de qualquer forma, eu torço pelo Xhaka. Quero que ele mostre a esses tatuados arrogantes o lugar deles.

  5. A Argentina está decepcionando até agora. Em 2022, parecia que em 4 anos essa equipe ficaria ainda mais forte. Na Copa América 2024 e nas eliminatórias, eles se saíram muito bem, mesmo sem Messi. Eu esperava que este fosse o torneio de Álvarez, mas até agora a Argentina passou por todos os jogos com dificuldade, e em alguns momentos, graças a Messi. Há grandes dúvidas sobre Scaloni, em todos os jogos do torneio (exceto o amistoso contra a Jordânia), a equipe mal conseguiu passar por equipes medianas. Messi já tem 39 anos, a energia pode acabar contra o Egito. Em geral, os sul-americanos estão jogando terrivelmente neste torneio. O Uruguai não se classificou, o Equador não impressionou, o Paraguai se destacou por suas entradas duras, a Colômbia jogou de forma bastante apagada, e sobre o Brasil todos sabem. Restam os argentinos com um Messi de 39 anos.

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