Futebol

Luis de la Fuente – o arquiteto da fantástica Espanha: a história do técnico

Segunda grande final.

Luis de la Fuente, que já conquistou a Euro 2024 com a Espanha, agora a levou à final da Copa do Mundo! Com uma vitória convincente sobre a França (2:0), ele busca o segundo grande troféu consecutivo (e ainda há a final da Liga das Nações de 2025).

Tudo o que você precisa saber sobre o incrível treinador de 65 anos.

Janeiro de 2023. O pouco conhecido Luis de la Fuente está em sua primeira coletiva de imprensa como técnico principal da Espanha.

Ele está nervoso, as mãos tremem um pouco. E então vem a primeira pergunta:

– Não sabemos nada sobre você. Descreva Luis de la Fuente em uma frase?

– Desculpe, responderei de forma simples. Sou uma boa pessoa.

A conversa correu bem. O novo técnico respondeu alegremente à pergunta sobre sua nomeação: “Eu estava em casa quando me ligaram: ‘Olá, Luis. Você se importa de aceitar um desafio difícil?’ O que eu respondi? Nada. Eu chorei de felicidade”.

“Ele jogava como um lixo”. Os primeiros passos de De la Fuente

Luis nasceu na comarca de Haro, uma das regiões da província de La Rioja, no norte da Espanha. A região é conhecida por seus vinhos e pelo vibrante festival Batalla de Vino, durante o qual são despejados 50 mil litros de vinho tinto nas pessoas em homenagem ao santo padroeiro São Pedro.

Não, a família De la Fuente não estava envolvida na produção de vinho. O próprio Luis também não bebe, embora na juventude pudesse “beber vinho aos litros”, o que mais tarde afetou sua saúde. O pai, Alberto, fazia bicos e era fanático pelo Athletic. Ele era sócio, pagava as contribuições com responsabilidade e ia a todos os jogos em Bilbao.

Uma vez, Alberto bebeu tanto em uma viagem que simplesmente deixou o filho perto do estádio. Os torcedores do Athletic ajudaram: acalmaram o menino assustado e o colocaram em um ônibus de volta para Haro.

Luis lembra da história rindo. A paixão do pai determinou a vida do técnico: aos 16 anos, ele entrou na academia do Athletic, por insistência de Alberto. Um ano depois, foi promovido ao time reserva, e cinco anos depois, o jovem De la Fuente começou a jogar no time principal. A ascensão rápida foi ajudada pelo lendário atacante Agustí Gainza – na época responsável pela base, ele viu um lateral-esquerdo no jovem que sonhava em ser atacante e marcar gols.

Mais tarde, o técnico do time principal, Javier Clemente, admitiu: se não fosse pela mudança de posição, De la Fuente teria ficado mofando no reserva. “Esse cara falava muito e jogava como um lixo, temperamento difícil. Um jovem agitado. Tivemos sorte de estar ao lado dele”, riu Javier. Luis considera Clemente um de seus referenciais morais.

Em sete anos no Athletic, De la Fuente disputou 146 partidas e conquistou dois campeonatos. Os locais se identificaram com sua dedicação. Em 1987, Luis foi para o Sevilla por quatro anos. Voltou ao Athletic, mas decidiu se aposentar no Alavés. Tudo por causa do treinador da época, José Antonio Iruregui – foi ele quem inspirou De la Fuente a se tornar técnico.

“Iruregui é o melhor motivador da história. Ele construía uma família”, relembrou Luis. – Ninguém em sã consciência quer trabalhar com um tirano. José dizia: ‘Vocês sabem jogar. Não quero ensinar vocês. Não estamos na escola. Contem como foi o dia de vocês. Se estiver ruim, podem descansar. Meu trabalho é criar um novo plano nesses casos’.

Iruregui até convidou Luis para sua comissão técnica quando chegou ao Villarreal em 1997, mas De la Fuente recusou: assumiu o modesto Portugalete, prometendo ficar três anos, se pudesse controlar todos os processos. A diretoria aceitou, e o técnico valorizou a confiança. Após ficar um ano a mais no Portugalete, em 2001, o técnico foi para a academia do Sevilla.

Quatro anos depois, veio o tão esperado convite das categorias de base de seu clube de origem, o Athletic.

De la Fuente odeia o futebol de clubes

O Athletic confiou a Luis os jovens de até 19 anos. Ele os preparou tão bem que, em pouco tempo, não apenas subiu para a equipe principal, mas também ocasionalmente substituiu os treinadores do time principal.

“Sempre gostei de treinar jovens, porque sinto que posso ensiná-los algo. O sentido da minha profissão não é apenas mostrar como a bola deve se mover, mas também provar com o meu exemplo que o esporte é a escolha certa. Em tenra idade, muitos duvidam que valha a pena dedicar a vida toda a uma profissão. Motivação não é sempre sobre dinheiro”, compartilhou o treinador em 2019.

Tudo estava indo muito bem. Até que, em 2011, o Alavés foi atrás de De la Fuente.

O Alavés ofereceu a ele a oportunidade de se tornar treinador principal pela primeira vez. Luis arriscou – e se arrependeu: durou nove partidas na Segunda Divisão, vencendo quatro. A demissão, da qual De la Fuente só soube pela imprensa. A diretoria não atendia às chamadas. Os jogadores do Alavés também não sabiam de nada.

“Ele é uma pessoa maravilhosa. Talvez até demais. Mas os jogadores gostavam da sua abordagem”, lembrou Carlos Indiano, com quem se cruzou no Alavés. – Nem sempre jogávamos bem, mas ele tratava os jogadores com respeito, de forma justa. Lembro-me de que, em uma partida, Luis escalou um garoto de 18 anos, mas ele estava tremendo de medo. Ele não conseguia entrar em campo. Perguntamos ao treinador – Luis deu de ombros e respondeu: ‘A diretoria pensa em vendê-lo. Parabenizem o garoto pela estreia’.

Após esse choque, De la Fuente tirou uma folga de dois anos. Logo veio a percepção: ele não conseguiria trabalhar em clubes, onde não há confiança e tempo para construir laços com os jogadores. A pressão sobre o treinador é injustificavelmente grande. “Passei a odiar tudo isso. Entendo que não consegui lidar emocionalmente. Não culpo ninguém, mas nos clubes distorceram o conceito de treinamento. Não ganhamos dinheiro, treinamos jogadores”, lembrou o treinador.

A tentativa no Alavés deixou uma cicatriz, que ainda o incomoda. Luis recusava ofertas de clubes, até que, em 2013, a Federação Espanhola de Futebol o contatou.

Luis – o professor da Espanha. Quase se afogou com Rubiales

O novo treinador agradou pessoalmente a Luis Rubiales, um dos representantes da associação de futebol espanhola. O futuro presidente ficou impressionado com o trabalho nas categorias de base do Sevilla, mas especialmente com o progresso de Jesús Navas e Antonio Puerta. Foi De la Fuente quem os levou à equipe principal, e Navas até o chamava carinhosamente de “tio de cara importante”.

Luis, claro, aceitou a proposta. Em nove anos, trabalhou em todos os níveis e sempre com bons resultados: em 2015, conquistou o Europeu com a seleção sub-21, e quatro anos depois, defendeu o título. A prata com a seleção olímpica em Tóquio foi o ápice de sua carreira como treinador. A atual Espanha foi moldada por De la Fuente: passaram por ele Unai Simón, Marc Cucurella, Mikel Merino, Rodri, Dani Olmo, Mikel Oyarzabal, e foi ele quem convocou pela primeira vez Joselu, Robin Le Normand e Lamine Yamal.

De la Fuente não se limitou à seleção sub-21: frequentemente aconselhou Enrique e trabalhou na escola de treinadores. Seu aluno mais famoso é o campeão mundial Lionel Scaloni. “Esse cara foi meu professor na escola de treinadores. Ele é um ótimo sujeito, me ajudou muito. Desejo a ele tudo de melhor”, reconheceu o argentino.

Já como presidente, Rubiales chamava De la Fuente de seu homem e do treinador ideal para a seleção principal. Após o desastre no Catar, Luis se tornou a única opção, em meio às notícias sobre o convite a Marcelino. Rubiales defendia sua escolha, embora muitos dirigentes se opusessem devido à falta de experiência.

Mas o presidente insistiu. Logo depois, Rubiales se envolveu em um enorme escândalo – e quase arrastou De la Fuente para o fundo do poço.

Quando a história do beijo em Jenni Hermoso veio à tona, o presidente convocou uma coletiva de imprensa e afirmou que não renunciaria de jeito nenhum. O discurso controverso foi aplaudido por muitos, incluindo De la Fuente. No entanto, a Espanha não gostou das palavras de Rubiales, e o treinador da seleção principal começou a ser criticado na imprensa junto com o presidente.

Foi necessário pedir desculpas urgentemente: “Entendo que cometi um erro. Peço perdão a todos que se sentiram ofendidos pelas minhas ações. Isso está errado. Eu entendi isso. Por favor, me perdoem. Foi um erro humano. O mais importante é que eu percebi que apoiei a pessoa errada.

De la Fuente se distanciou publicamente de Rubiales. Logo depois, sentiu as consequências do escândalo – as atividades da federação foram suspensas. Na primavera, Pedro Rocha assumiu a presidência. Imediatamente, o diretor geral, o chefe de comunicação e o diretor esportivo foram demitidos. Este último se chama Albert Luque, um dos funcionários de confiança de Rubiales.

Luque é uma figura importante. Ele defendia a continuidade do trabalho com os métodos de Enrique e era responsável pela escalação, acompanhava os jogadores e aconselhava os treinadores em todos os níveis, mas nos últimos seis meses estava afastado devido a investigações de corrupção. Isso foi um golpe duro para a seleção. Parte das responsabilidades de Luque foi repassada a De la Fuente. Ele teve que trabalhar em dobro.

“A figura de Albert é extremamente importante”, explicou o treinador. – É crucial ter alguém lidando com esse tipo de questão. Quero focar apenas no aspecto esportivo e não me preocupar com coisas que não deveriam ser responsabilidade do treinador. Tudo o que posso fazer é me adaptar, me dedicar ao máximo. São tempos difíceis.”

O treinador revelou detalhes em entrevista ao Relevo: por exemplo, ele mesmo elaborou e formalizou seu contrato, com a ajuda de um advogado conhecido. “Conversamos com treinadores e jogadores. As relações não devem ser responsabilidade do treinador. É muito mais prático e eficiente. Vou me gabar para vocês: sabem, me tornei um ótimo interlocutor.”

A formação desta seleção também coube a De la Fuente. “Preciso de pessoas boas. Pessoas que acreditem na ideia”, contou o treinador mais tarde. – Elas devem aceitar o papel. Teremos um processo complexo, tempos difíceis. Se os jogadores não aceitam a realidade, ficam de fora. Entendo que me falta autoridade, mas isso precisa se tornar uma regra. Nem todos me agradam. Tudo depende de como os jogadores entendem sua profissão.”

De la Fuente é obcecado por esporte

Já na Euro, admirávamos a forma física de De la Fuente, aos 63 anos. Agora, vejam como ele está aos 65.

Qual é o segredo? “Tenho medo de envelhecer, para ser sincero”, admitiu Luis. – “Na juventude, bebia álcool, saía para caminhar com frequência. Com o tempo, isso se tornou um fardo. Então percebi: era hora de cuidar da forma física. Quero conhecer meus netos nas minhas melhores condições”.

Luis diz que segue uma dieta paleo estrita – baseada no princípio de consumir o que nossos ancestrais comiam. Todas as manhãs, mesmo durante o Euro, ele começa com um passeio de bicicleta e depois vai para a academia.

Após todo o trabalho de treinador – uma pequena corrida. No final da tarde, mais bicicleta e depois um jantar reforçado.

“É tudo bastante simples”, explica De la Fuente. – “Depois de encerrar a carreira, eu precisava ser um exemplo para os jogadores mais jovens. Isso é a base da minha abordagem como treinador. Imagine ser treinado por um velho gordo. Preciso motivar os rapazes a praticar esportes. Isso me motiva”.

Muitos comparam De la Fuente ao grande Luis Aragonés – o treinador que estabeleceu as bases para a seleção mais forte da história.

Mas será que ele superará Aragonés se conquistar a final nos EUA?

Já naquela primeira coletiva de imprensa, De la Fuente disse: “Está na hora de recuperarmos nossa identidade. Estamos perdendo nossa essência”.

Agora, a Espanha não apenas recuperou sua identidade. Parece invencível.

Lara Faria

Ela é uma renomada jornalista esportiva, formada pela Faculdade de… More »

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10 Comentários

  1. Um técnico incrível. Se entre 2008-2012 podíamos dizer que a Espanha vencia principalmente pelo elenco, agora quase não há estrelas desse nível (com a possível exceção de Rodri). Deschamps, comparado a De la Fuente, parece um professor de educação física

  2. Flick talvez tenha algo a aprender com De La Fuente. Quero ver esse mesmo futebol no Barça, e não esse sofrimento. Ainda mais porque esse futebol é o estilo tradicional e característico do Barça. Na primavera, o estresse é tanto que não se sabe para onde correr, mesmo sem assistir aos jogos. De qualquer forma, vão levar pelo menos dois gols, os jogos começam com 0:1. No Barça, têm Pedri e Olmo, De Jong no lugar de Rodri, Yamal e Ferran (que infelizmente querem vender – isso é um ERRO ENORME).

  3. Os espanhóis foram bem, mas hoje a França perdeu para si mesma. Jogo desastroso do Deschamps, primeiro chute a gol aos 60 minutos, nenhum ataque organizado, foi um fracasso total

  4. Pozzo continua sendo o único técnico a vencer a Copa do Mundo duas vezes. Talvez De La Fuente consiga algo.

  5. Terminar o jogo sem marcar é demais ))) Isso é o bumerangue deles por toda a arrogância dos franceses na semana passada )))

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