Iraque, petróleo e pobreza – por que um país rico se tornou miserável

Iraque é o quinto país do mundo em reservas comprovadas de petróleo bruto, depois da Venezuela, Arábia Saudita, Irã e Canadá (Rússia é a oitava).

Em 2026, as autoridades anunciaram a descoberta de um gigantesco campo petrolífero no sul do país. Suas reservas excedem 8,8 bilhões de barris – mais do que toda a Noruega possui.
Anualmente, o Iraque extrai mais petróleo do que os Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Catar.
No entanto, em vez de ser associado à imagem de uma Noruega do Oriente Médio, o Iraque é relacionado a guerras, ditadura e pobreza. O PIB per capita está no mesmo nível de Cabo Verde e Namíbia, a expectativa de vida está entre a da Venezuela e a da Síria, e a porcentagem de subnutrição é semelhante à da Nigéria e Burkina Faso (16%).
Para onde vai o dinheiro do petróleo? E é verdade que os Estados Unidos estão extraindo o petróleo iraquiano?
Vamos analisar.
Europeus extraíam o petróleo, mas foram expulsos – e o Iraque enriquceu
A busca por petróleo no território do Iraque começou em 1912, quando a terra estava sob o domínio do Império Otomano. O pioneiro na exploração geológica foi o empresário turco-britânico de origem armênia Calouste Gulbenkian (o mesmo que mais tarde comprou obras-primas do Hermitage dos comunistas e as exibiu em seu museu em Lisboa).
No final da década de 1920, a equipe de Gulbenkian descobriu petróleo, mas não havia dinheiro suficiente para o desenvolvimento completo. O empresário encontrou investidores e criou o consórcio Turkish Petroleum Company (TPC). Os fundadores foram a britânica APOC, a holandesa Shell, a francesa Total e a americana NEDC (mais tarde Exxon Mobil), cada uma recebendo 23,75% das ações. Gulbenkian ficou com 5%.
As empresas não apenas extraíam petróleo, mas também construíam oleodutos, terminais, estradas e controlavam todo o ciclo, desde a perfuração até a venda. O Iraque recebia royalties, enquanto o lucro principal ia para os acionistas.

A verdade é que o dinheiro não ia para o Império Otomano – que já havia se dissolvido na época –, mas para o Iraque independente. Por um tempo, o país esteve sob mandato britânico, até se tornar um Estado pleno em 1930.
O sistema “nós extraímos e vendemos – vocês recebem um valor fixo” funcionou por várias décadas. As autoridades iraquianas não se opunham: primeiro, reinava o rei Faisal I, aliado da Grã-Bretanha, e depois, as contradições internas eram tão intensas que a economia ficou em segundo plano.
Em 1958, a monarquia caiu. O novo governo revisou a concessão petrolífera: o Iraque passou a receber da TPC não um valor fixo, mas uma porcentagem por cada barril vendido.
O padrão de vida não mudou, e os golpes militares continuaram. Em 1971, o partido Baath, que assumiu o poder, anunciou um foco no desenvolvimento social e se aproximou da URSS. O consórcio pressionava as autoridades, reduzindo intencionalmente a produção, o que resultava em menos dinheiro para o orçamento. Em resposta, o Baath nacionalizou a TPC – todo o petróleo e a infraestrutura passaram para o controle estatal.
A nacionalização coincidiu com a alta dos preços do petróleo: US$ 3 por barril em 1971, US$ 12 em 1973 e US$ 37 em 1980.
O primeiro aumento está ligado à crise do petróleo, quando os países árabes se recusaram a fornecer combustível às nações que apoiavam Israel na Guerra do Yom Kippur – EUA e Europa Ocidental. A redução da produção quadruplicou o preço do barril.
O segundo aumento foi consequência da Revolução Islâmica no Irã, após a qual o país rompeu relações com os Estados Unidos e seus aliados.
Os lucros extraordinários transformaram o Iraque: na década de 1970, seu PIB cresceu 1.325% (sim, 14 vezes), e a economia entrou no top 3 do Oriente Médio. O governo iniciou a industrialização, desenvolveu a agricultura, construiu rodovias e sistemas de água, abriu escolas, universidades e hospitais (educação e saúde se tornaram gratuitas). Saddam Hussein, que sucedeu o presidente al-Bakr, até recebeu um prêmio da UNESCO pela erradicação do analfabetismo.
Em 1980, o Iraque obteve US$ 27 bilhões com a exportação de petróleo. Para comparação: a União Soviética lucrou apenas US$ 8 bilhões.
A guerra destruiu tudo: um país desenvolvido voltou à Idade Média
A prosperidade tinha um lado obscuro: antes mesmo de assumir o cargo, Hussein já detinha poder ilimitado. Formalmente, o Iraque era governado pelo presidente al-Bakr, mas na prática, ministros, serviços secretos e comandantes do exército respondiam apenas a Saddam.

Várias vezes ele realizou expurgos no partido e nas forças armadas: os desleais eram presos e executados. Havia rumores de que até al-Bakr foi colocado em prisão domiciliar, e ele não deixou o cargo por problemas de saúde, como foi oficialmente relatado.
Em 1979, no vizinho Irã, o xá secular foi derrubado. O poder foi assumido por xiitas radicais liderados pelo aiatolá Khomeini. O sunita Hussein temia que a revolução se espalhasse para o Iraque, onde os xiitas eram maioria. Além disso, os países disputavam a posse da província rica em petróleo de Khuzistão (controlada pelo Irã) e também competiam pela liderança no Golfo Pérsico.
Em setembro de 1980, as tropas iraquianas cruzaram a fronteira. O plano de Hussein previa uma operação militar rápida. Segundo ele, o Irã, enfraquecido pela revolução e sem aliados ocidentais, não resistiria à invasão. E o exército modernizado do rico Iraque anexaria rapidamente os territórios contestados.
Nos primeiros dias, o Iraque avançou dezenas de quilômetros em território inimigo. Logo, a ofensiva estagnou. Hussein propôs negociações de paz, mas as autoridades iranianas apresentaram exigências duras. Saddam pediu preparação para uma guerra prolongada.

A convocação de reservistas, a mudança de tática e o desenvolvimento de armas químicas não ajudaram: dois anos depois, os iranianos libertaram seu próprio território e transferiram o conflito para o Iraque. A guerra se transformou em uma guerra de trincheiras e durou até 1988.
Em oito anos, 120 mil soldados iraquianos morreram e outros 300 mil ficaram feridos. O dano econômico foi de 150 bilhões de dólares – cinco vezes a receita anual do petróleo no período de pico (e o Iraque não tinha outras fontes de renda). O Iraque não ganhou nada: o Khuzistão permaneceu com o vizinho, a fronteira quase não mudou, e não houve vencedor.
A era do socialismo iraquiano do petróleo já havia terminado durante a guerra. Programas econômicos e sociais foram encerrados, a população foi convidada a apertar os cintos, e Saddam recorreu a empréstimos internacionais. O motivo: gastos exorbitantes no setor de defesa e os preços do petróleo. Após 1980 (37 dólares), os preços caíram por seis anos consecutivos, até atingirem 15 dólares por barril.
Em 1990, Hussein precisava de dinheiro. Ele acusou o Kuwait de roubar petróleo iraquiano de um campo fronteiriço e exigiu 16 bilhões de dólares em compensação. Após a recusa, invadiu o país vizinho e o ocupou em quatro dias.
Antes dessa guerra, Hussein era apoiado pelos Estados Unidos e pela Europa. Nem mesmo o uso de armas químicas contra seus próprios cidadãos em 1988 teve impacto. A invasão do Kuwait mudou tudo: o Ocidente se posicionou contra, e, pela primeira vez, a União Soviética o apoiou.
No início de 1991, a coalizão da ONU iniciou a operação “Tempestade no Deserto”. Em um mês, o Kuwait foi libertado, o exército iraquiano foi derrotado, e sanções foram impostas ao regime de Hussein. O Conselho de Segurança da ONU proibiu todas as relações comerciais e econômicas com o Iraque, incluindo a compra de petróleo.
O Iraque perdeu todas as receitas em moeda estrangeira e qualquer importação. O PIB caiu para 25% do nível de 1980, e o país ficou sem alimentos, medicamentos e outros bens essenciais. Para evitar a fome, em 1996, a ONU lançou o programa “Petróleo por Alimentos”. O Iraque foi autorizado a exportar combustível em troca de alimentos e medicamentos.
Em 15 anos, o país passou de uma economia em rápido crescimento para uma catástrofe humanitária.

Petróleo – única fonte de renda do Iraque (isso é um enorme problema)
As restrições ao petróleo foram suspensas em 2003, após a invasão dos EUA e a queda de Saddam Hussein. A ideia foi proposta por americanos e britânicos, e a ONU votou a favor.
A produção não aumentou imediatamente. Sob sanções, o setor se degradou, e campos petrolíferos e fábricas sabotaram o trabalho da administração americana. Em 2004-2005, o Iraque enfrentou escassez de combustível e energia – foi necessário comprar de países vizinhos.
Mas, com o tempo, o país se recuperou mais rapidamente. Em 2006, o PIB cresceu 5%, e em 2007, 36%. A atividade econômica também cresceu: as pessoas compravam carros e imóveis, e dezenas de milhares de novas empresas eram registradas. “Seja ou não uma guerra civil, o Iraque tem uma economia, e – o que é surpreendente – ela está se desenvolvendo maravilhosamente”, escreveu a empresa de análise britânica Global Insight em um relatório.
Em 2009, a produção de petróleo voltou ao nível pré-guerra e, desde então, só aumentou. Em 2022, o país anunciou receitas recordes com exportações.

Mas nem mesmo se tornar um país de segundo mundo é possível – o Iraque permanece pobre. Há várias razões para isso.
Em primeiro lugar, uma série de eventos catastróficos: a guerra com o Irã – sanções da ONU – invasão dos EUA – guerra civil. Em segundo lugar, a corrupção. Segundo estimativas de organizações internacionais, uma parte significativa das receitas do petróleo desapareceu por décadas em um aparato estatal inchado, sistema de patronagem e propinas. Em terceiro lugar, a doença holandesa – quando o crescimento acelerado em um setor da economia (geralmente na extração de recursos naturais) leva a uma crise em outros setores.
O termo surgiu nos Países Baixos após a descoberta do campo de gás de Groningen na década de 1970, mas também se aplica ao Iraque. O fluxo de petrodólares permitiu que, por décadas, não se pensasse em diversificação econômica e tecnologia, facilitando gastos irrefletidos e não punindo erros.
Na década de 1970, a exportação de petróleo representava 99% das receitas orçamentárias. O número não mudou significativamente nas décadas de 1980, 2000 ou depois. Em 2018, 90% do dinheiro nos cofres públicos vinha do petróleo.
No papel, a economia cresce em ritmo de dois dígitos, mas na realidade tudo depende da extração e exportação. Quase não há outra indústria no país.
A Rússia extrai tanto petróleo iraquiano quanto os Estados Unidos
Uma teoria popular: os americanos invadiram o Iraque por causa do petróleo e ainda controlam o setor – é por isso que o país é tão pobre. Será que é assim?

Após a suspensão das sanções e a retomada das exportações, os americanos de fato administraram o petróleo e transferiram os lucros para uma conta no Federal Reserve Bank de Nova York. A ideia era usar esses fundos para pagar as dívidas de Saddam, indenizar o Kuwait e, posteriormente, financiar a reconstrução do Iraque. E foi exatamente o que aconteceu.
Paralelamente, a administração Bush considerou privatizar os campos petrolíferos iraquianos, mas a ideia foi abandonada. No final, o governo local os colocou em leilão internacional. Os americanos (com exceção da ExxonMobil e da Occidental Petroleum) não participaram do processo: a infraestrutura precária e a falta de estabilidade política e econômica os desanimaram.
“Não valia a pena o esforço”, afirma Raad Alkadiri, sócio-gerente da consultoria 3TEN32 Associates, que vivia no Iraque na época.
Isso não intimidou outros participantes: em um ano, as autoridades concederam direitos de exploração por 20 anos em 10 campos. O consórcio formado pela britânica BP e pela chinesa CNPC venceu a licitação para desenvolver o maior deles, Rumaila. Outro campo supergigante, Majnoon, foi conquistado pela holandesa Shell e pela malaia Petronas. A russa Lukoil e a norueguesa Equinor obtiveram acesso a West Qurna. Em Badra, a Gazprom, a Petronas e empresas da Coreia e da Turquia foram selecionadas.
A participação total de estrangeiros em cada caso não ultrapassa 75%, com o restante reservado ao Iraque. A distribuição final da produção de petróleo é a seguinte: 25% – Iraque, 20% – Ásia, 19% – Reino Unido, 16% – EUA, 14% – Rússia, 6% – Europa.

Ou seja, a América, representada pelas empresas privadas ExxonMobil e Occidental Petroleum, extrai 1/6 do petróleo iraquiano, o que é apenas 2% a mais do que a produção das empresas russas.
Os contratos de extração terminarão em 2030, e as empresas poderão renová-los por mais cinco anos.
O petróleo no Iraque pode ser extraído por mais tempo: com os volumes atuais de produção, ele durará pelo menos 90 anos.
Mas a história mostra que não se trata da quantidade de recursos. E sim, se o país poderá, pela primeira vez em meio século, evitar uma nova guerra e aprender a viver não apenas dependendo do petróleo.





“Hussein obteve poder ilimitado.”
“O plano de Hussein previa uma operação militar rápida”.
“Logo, a ofensiva estagnou.”
Já vimos isso em algum lugar…
Khuzestan era uma província próspera. Habitada por árabes étnicos, Hussein queria ‘retorná-la ao seu porto de origem’. No final, a região foi atingida por uma catástrofe, a infraestrutura foi destruída, e centenas de milhares de pessoas se tornaram refugiadas. As cidades de Khorramshahr e Abadan se tornaram fantasmas. Essa é a nova Iraque
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Mais uma vez, percebi que a guerra é muito, muito ruim
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“O Iraque era rico por causa do petróleo, e depois atacou seu vizinho”
A que você está se referindo?
Isso não nos ameaça, ser ricos por causa do petróleo…
Hussein em 1980: “Tomei a decisão de realizar uma operação militar especial. Seu objetivo é proteger as pessoas que, ao longo de oito anos, têm sido submetidas a abusos, genocídio pelo regime do aiatolá Khomeini”.
Khuzestan era uma província próspera. Habitada por árabes étnicos, Hussein queria ‘retorná-la ao seu porto de origem’. No final, a região foi atingida por uma catástrofe, a infraestrutura foi destruída, e centenas de milhares de pessoas se tornaram refugiadas. As cidades de Khorramshahr e Abadan se tornaram fantasmas. Essa é a nova Iraque
Isso não nos ameaça, ser ricos por causa do petróleo…
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Hussein em 1980: “Tomei a decisão de realizar uma operação militar especial. Seu objetivo é proteger as pessoas que, ao longo de oito anos, têm sido submetidas a abusos, genocídio pelo regime do aiatolá Khomeini”.
Um lembrete para quem não viveu naquela época.
Os Estados Unidos invadiram o Iraque, usando como pretexto a existência de armas químicas de Hussein, que nunca foram encontradas. E, supostamente, as amostras dessas armas químicas, que Powell apresentou no Conselho de Segurança da ONU, eram apenas uma farsa. Os EUA não escondem isso.
David Kelly, autor do artigo sobre armas químicas no Iraque, admitiu em 2003 que nunca houve nada lá. Aliás, ele foi encontrado morto em 2003. Oficialmente, suicídio.
As perdas da população civil do Iraque devido às ações dos EUA são estimadas entre 700 mil e 1,1 milhão de pessoas. Esse é o ‘erro’.
Ninguém sabe ou dirá os motivos reais. É óbvio que são interesses estratégicos dos EUA. Coisas assim não são feitas sem motivo. E não é apenas por causa do petróleo.
E sim, Hussein não era um santo. Lutou com seus vizinhos (ninguém faz isso, certo?). Mas a invasão dos EUA no Iraque foi um crime puro e simples.
Um fã de Stefanov resumiu bem o autor, mas perdeu os pontos principais
Tudo ficará claro quando as pessoas com o argumento ‘Teoria popular: os americanos invadiram o Iraque por causa do petróleo e ainda controlam o setor… A Rússia extrai tanto petróleo iraquiano quanto a América’ conhecerem a figura de Dick Cheney e como funciona o Fundo de Desenvolvimento do Iraque
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Um fã de Stefanov resumiu bem o autor, mas perdeu os pontos principais
Tudo ficará claro quando as pessoas com o argumento ‘Teoria popular: os americanos invadiram o Iraque por causa do petróleo e ainda controlam o setor… A Rússia extrai tanto petróleo iraquiano quanto a América’ conhecerem a figura de Dick Cheney e como funciona o Fundo de Desenvolvimento do Iraque
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