Futebol

Haaland no City e na Noruega – dois jogadores diferentes: pressão, xG e companheiros

Palagin viu o novo Erling no Mundial.

Nas configurações básicas, Haaland não mudou nada.

Continua sendo um artilheiro excepcional, que encontra momentos em um nível único. Uma estrela super dependente, que precisa de parceiros e quase não está envolvida nas combinações.

A principal tarefa de Haaland, tanto no City quanto na seleção, é finalizar. E nisso, Erling se compara a outros gênios como Messi, Kane e Mbappé.

Mas é nos detalhes que estão as diferenças. Elas são inevitáveis, considerando o estilo da Noruega. Ele difere radicalmente do que Haaland está acostumado nos clubes. A seleção é a pior entre os times de Erling em termos de posse de bola. Não é uma pequena desvio da norma, mas sim significativo – mais ou menos 10 por cento. A diferença entre uma equipe dominante e outra que está disposta a ceder a bola e agir nos contra-ataques.

O principal efeito colateral é que, na seleção, Haaland enfrenta muito menos adversários. Parte de seus gols na Copa do Mundo foram marcados sem qualquer resistência. Ainda era necessário o seu característico arranque com finalização, mas no City, esses lances ocorrem com muito menos frequência. A área penal, geralmente, está lotada de jogadores adversários.

Avaliem a precisão do chute de Haaland. Na última temporada pelo City, 0,21 xG por tentativa. Na Copa do Mundo com a Noruega, 0,31 xG. Ambos são padrões altíssimos, mas a diferença ainda é enorme. No clube, Haaland passa mais tempo dentro da área penal. Na seleção, recebe oportunidades de maior qualidade.

Tudo isso se refere ao trabalho principal de Erling, mas, até agora, o que mais me impressionou na Copa do Mundo foi a força de Haaland no pressing. Na Premier League, eu não vi nada assim. Criticando Erling nesse aspecto, Pep uma vez disse:

“Gosto quando ele corre muito. Quando ele pressiona como um animal. Adoro quando Erling ativa esse modo. Apenas se coloque no lugar do defensor. Você está com a bola, avaliando as opções, e de repente, alguém com a compleição e o temperamento de Haaland está vindo em sua direção. Assustador? Muito!”

Pep criticava Haaland pelo pressing menos do que Sergio Agüero. Entendia que poderia exauri-lo e deixá-lo sem energia para o ataque. A intensidade do pressing do City com Haaland caiu para o nível de um time mediano da Premier League. Erling não recebe tratamento especial, mas Pep, geralmente, lhe dava a tarefa mais leve enquanto estava no clube.

Na Copa do Mundo, o cenário é outro. O sonho de Pep se realizou. Haaland pressiona como um animal.

Os adversários ficam com medo, enquanto Haaland, por sua vez, ganha momentos e gols bônus. Um fato estatístico: nos jogos com a Noruega, as equipes cometeram até agora o maior número de erros que resultaram em chutes (11). A pressão de Haaland é uma das principais razões.

Por que não vemos essa versão no clube? Em primeiro lugar, motivação especial. O “City” também é querido por Haaland, mas a seleção precisa dele aqui e agora. Em segundo lugar, a qualidade das jogadas – as seleções são piores que os clubes nesse aspecto. Talvez Haaland sinta que pode punir e investe esforços adicionais. Em terceiro lugar, a Noruega não pressiona constantemente – Haaland acumula energia e a gasta apenas no momento mais adequado.

Um detalhe crucial: Erling ativou o modo pressão máxima apenas depois que Martin Ødegaard foi posicionado ao seu lado. O capitão do “Arsenal” começou o torneio na ponta direita. Na primeira pausa para hidratação, Ståle Solbakken o devolveu à posição habitual – ao lado de Haaland. Ødegaard não é apenas um amigo e aliado de Haaland, mas um guru da pressão. Ele mesmo pressiona e consegue dar instruções que facilitam a tarefa dos companheiros. Com ele, Haaland é ainda mais perigoso nesse aspecto.

Outra diferença no estilo de Erling é que, na seleção, ele joga ao lado de outro atacante. Estamos falando de Alexander Sørloth. Ele tem um papel interessante – um centroavante de 193 cm que começa pelas pontas. A versão norueguesa de Mario Mandžukić. Sørloth está preso à ponta em termos de esquema, mas, na prática, frequentemente ajuda Haaland na área.

Como resultado, a Noruega cria dois tipos de oportunidades. Uma ameaça direta por ter não uma, mas duas torres na área. Até mesmo em bolas paradas, Haaland e Sørloth iniciam o movimento juntos – só se separam após o cruzamento:

Ou indiretamente, graças ao fato de Haaland e Sørloth atraírem a atenção dos defensores. Os companheiros de equipe ficam livres e podem decidir no espaço:

Mesmo quando Haaland e Sørloth estão separados, isso não significa que os adversários tenham vida mais fácil. Alexander atua no torneio como uma espécie de escudo. Ajuda a equipe na transição para o ataque pelas laterais. Não apenas domina passes longos, mas também impõe seu físico sobre o lateral-esquerdo adversário – que, por razões naturais, é menor e, geralmente, perde a disputa.

O primeiro gol de Haaland na Copa do Mundo veio da zona do lateral-esquerdo do Iraque. Sørloth o atraiu e criou espaço no segundo poste, que Erling, claro, aproveitou:

No clube, Haaland não tem um parceiro nem perto disso. Formalmente, ele conseguiu jogar no “City” com Julián Álvarez e Omar Marmoush. Na prática, ele raramente jogava com eles como dupla. Ambos, em diferentes momentos, reclamaram que jogavam pouco. Álvarez até deixou o time. Marmoush também está considerando. O motivo é a falta de apreço de Pep pelo esquema com dois atacantes. Por causa disso, Álvarez teve que jogar no meio-campo, e Marmoush desempenhou o papel desconfortável de ponta, com a tarefa de driblar em 1×1.

Serloth, nesse sentido, é diferente – não apenas pela estrutura física, mas também pela sua especialização em jogar na área. Haaland o entende melhor porque ele mesmo é assim.

A diferença final entre as duas versões de Haaland é que a Noruega utiliza muito mais sua estatura. A lógica é clara: o “City” pratica um futebol muito complexo, difícil de reproduzir no nível de seleções, então é preciso jogar de forma mais simples. A simplificação, no caso de Erling, parece ser exatamente isso – usar ao máximo seu jogo aéreo.

Na Copa do Mundo, Haaland disputa bolas aéreas 4,7 vezes por partida. No “City”, o índice era muito menor e variava entre 2,9 e 3,6. A eficiência também não se compara. A proporção média de duelos aéreos vencidos no “City” é um pouco acima de 50%. Na Copa do Mundo, é de 70,2%. Solbakken não apenas utiliza os pontos fortes de Haaland, mas também entende como direcioná-los para o benefício da equipe.

A saída da defesa dos noruegueses não está no mesmo nível que a do “City”. A solução é fazer um lançamento longo em direção ao Haaland. Não é a primeira opção (geralmente usam Sørloth), mas é uma alternativa bastante útil.

A criação de jogadas não é ruim, mas também não está no nível do “City”. A solução é carregar mais para a área com foco em Haaland. Considerando que o time tem dois centroavantes altos, a aposta é ainda mais relevante.

Por fim, as bolas paradas. Haaland é útil tanto como defensor extra na própria área quanto como uma arma potencial na área adversária. Mesmo que a bola não vá para Erling, os adversários o temem e tentam marcá-lo primeiro. Os companheiros ficam livres:

Pensamento final. Já não relacionado ao estilo no clube e na seleção: talvez Haaland ainda não tenha atingido seu potencial máximo nesta Copa do Mundo. Por exemplo, sua parceria com Ødegaard ainda não se desenvolveu completamente. Eles chegaram à Copa do Mundo como a dupla mais produtiva nas eliminatórias europeias – 4 gols juntos. No Mundial, até agora, organizaram apenas 1 – no jogo contra o Senegal. Além disso, esse ainda é o único momento que Ødegaard criou para Haaland.

A que isso pode estar relacionado? Em primeiro lugar, há uma inesperada falta de entrosamento entre eles. Existem questionamentos tanto para Haaland quanto para Ødegaard, e, em geral, para a química entre eles. Em segundo lugar, Martin passa muito tempo longe de Erling. Ele tem um papel monumental nas jogadas – recua para os zagueiros centrais e ajuda a avançar a bola. Desse posicionamento, é mais difícil assistir um atacante que não recua para buscar a bola.

Importante: isso não é de forma alguma uma crítica a Ødegaard. Mesmo nessas condições, ele organizou 3 gols – um em cada partida da Copa do Mundo em que começou como titular. Os mecanismos também estão bem ajustados. Se Ødegaard recua, seu lugar é necessariamente ocupado por um parceiro do meio-campo.

O efeito da surpresa funciona. O oponente está concentrado em Ødegaard, e o companheiro, nesse momento, faz uma arrancada repentina. Por exemplo, a jogada funciona bem com Partey Berg. Ele é, até agora, o principal assistente de Haaland na equipe (2 assistências). Não apenas identifica o espaço deixado por Ødegaard, mas também consegue se desfazer da bola no momento certo.

Haaland só precisa rolar para o gol vazio. Um cenário que raramente acontece no clube.

Uma coisa permanece inalterada: Haaland continua marcando muitos gols.

Ângelo Almeida

João Pedro Silva é um renomado jornalista esportivo português, formado… More »

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6 Comentários

  1. É mais ou menos como escrever um texto longo provando que à noite há menos luz do que durante o dia.

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