Futebol

Escoceses trouxeram o futebol para o Brasil – a história de Thomas Donohoe e Charles Miller

Até meados do século XIX, a Grã-Bretanha havia se tornado o maior império de todos os tempos. Enormes colônias geravam renda em todos os continentes. Mas na América do Sul, ela chegou tarde. Possuía apenas a relativamente pequena Guiana. Os países que realmente despertavam o interesse da Câmara dos Lordes já estavam armados com populações soberanas e armamentos mais perigosos que cascas de frutas cítricas.

Tentando se estabelecer na região, os ingleses agiram de forma diferente. Em 1845, a coroa, buscando impedir a importação de escravos, autorizou a marinha a deter qualquer navio brasileiro suspeito. O Brasil declarou o bloqueio como um ataque à liberdade de comércio.

Dezesseis anos depois, quando este conflito já havia sido resolvido, surgiu um novo. Um navio britânico encalhou nas costas do Rio Grande do Sul. A tripulação morreu. A carga foi saqueada.

A Coroa culpou o Brasil pela tragédia. A pressão exercida pelo consulado levou à prisão de vários marinheiros britânicos no Rio, que incitavam à revolta. O embaixador britânico exigiu grosseiramente a demissão dos policiais e compensação pelo navio. Quando o Brasil recusou, os ingleses recorreram à pirataria em suas águas.

Alguns anos depois, o conflito foi resolvido; os setores financeiro e industrial britânicos se expandiram significativamente no Brasil. Os funcionários enviados pelas empresas eram todos especialistas: banqueiros, engenheiros, mecânicos. Eles ganhavam bem, e um estilo de vida é mais fácil de vender quando polvilhado com sucesso. O país foi tomado pela anglomania. Ao entrar em setores lucrativos da economia, o Império exportava cultura ao mesmo tempo. E, claro, isso significava a exportação do futebol.

Em 1863, nos subúrbios de Glasgow, nasceu um menino chamado Thomas Donohoe. Dez anos depois, ele conseguiu um emprego como tingidor na gráfica onde seu pai trabalhava. Não havia nada de incomum nisso. Mas quase imediatamente, o rapaz criou uma equipe na empresa que jogava futebol aos fins de semana. Pelos dados fragmentados, ele se saía bem. Ao crescer, Thomas chegou à seleção do subúrbio.

A verdade é que o jogo não trazia dinheiro. Ele cresceu, casou-se; tinha bigodes imponentes, e a família crescia rapidamente. Thomas encontrou um lugar mais vantajoso: uma fábrica têxtil precisava de um tingidor para a filial brasileira. Em maio de 1894, ele partiu para o Rio.

O lugar onde se estabeleceu era novo: uma fábrica têxtil e apenas uma rua adjacente a ela. Chamava-se Bangu. O escocês rapidamente se integrou à comunidade britânica local, logo se tornou um dos seus, mas sentia falta de algo. Os passeios de bicicleta em grupo, o principal hobby de domingo, não o inspiravam.

Depois de se instalar, Thomas escreveu para a esposa e pediu que viesse com as bolas e as crianças. Imagino o reencontro: o porto do Rio, todos de calças brancas, é claro, as damas com chapéus, e o enorme bigodudo Donoho, emocionado pela longa separação, beijando-os exatamente nessa ordem: primeiro as crianças, depois as bolas e a esposa. Agora ele tinha algo para fazer nos fins de semana. E, claro, não se tratava da família.

Em setembro de 1894, num terreno baldio ao lado de uma fábrica têxtil em Bangu, subúrbio do Rio, a bola foi chutada pela primeira vez na história brasileira. Trabalhadores britânicos jogaram 5 contra 5 (ou, segundo outras fontes, 6 contra 6). Certamente, foi uma partida cuja habilidade ficaria eternizada nos séculos, se houvesse alguém por perto capaz de cantá-la. Gols eram marcados das maneiras mais inusitadas; dribles que desafiam as leis da física e o bom senso. E por aí vai.

Um mês depois, em São Paulo, o segundo centro de influência britânica, outro escocês desembarcou – Charles Miller. Ele nasceu no Brasil, filho de um engenheiro ferroviário. Em 1884, quando o jovem completou dez anos, foi enviado para uma escola de elite em Southampton. Lá, ele se apaixonou pelo esporte e, dizem, descobriu um talento considerável. Tornou-se uma estrela da cidade.

Nas férias, Miller visitava os pais e, em 1888, criou o “SPAC” (“São Paulo Athletic Club”). Na época, ele estava mais inclinado ao críquete. Após concluir os estudos e retornar definitivamente à América, o escocês de 20 anos levou consigo o que havia de mais valioso: um conjunto de regras da Associação de Futebol e duas bolas murchas. O “SPAC”, fundado por ele, tornou-se o primeiro clube de futebol do Brasil. Donoho, que tentava fundar um time em Bangu, ficou para trás: o dono da fábrica têxtil acreditava que o jogo desviaria os funcionários do trabalho.

Em 14 de abril de 1895, ocorreu em São Paulo a primeira partida de futebol verdadeira (11 contra 11, como manda o figurino) em território brasileiro. O organizador foi Miller. Os ferroviários locais enfrentaram a companhia de gás. Antes de começar, o escocês foi ao círculo central e leu as regras do jogo.

Com o tempo, o «SPAC» se tornou um clube de rúgbi, que aos poucos pratica outros esportes. Mas no alvorecer do futebol brasileiro, ele era uma grande força. Em 1902, o enérgico Miller criou a primeira liga da história: o Campeonato Paulista. Seu clube conquistou quatro títulos em nove anos.

«Quando estive em São Paulo em 1897, ninguém tinha ouvido falar de futebol lá e, provavelmente, em todo o Brasil», descreveu em uma carta o jornalista e viajante alemão Hans Nöbeling. – Para mim, é inegável que a honra de trazer a primeira bola de futebol pertence a Charles Miller».

Hoje, existe um monumento ao bigodudo Donoho em Bangu. O escultor Clésio Régis tem certeza: «Thomas trouxe a bola para o Brasil 8 meses antes de Charles Miller. Seus apoiadores reconhecem isso, mas dizem que era apenas para brincar. As pessoas constantemente esquecem de Bangu, mas a primeira bola de futebol neste país foi trazida exatamente para cá».

O historiador do futebol brasileiro Antonio Carlos Napoleão discorda: “A ideia de que algum rapaz da Escócia jogou algumas partidas no Rio é muito vaga. Isso é jogar futebol, não é introduzir o futebol. São coisas completamente diferentes. Charles Miller fundou o futebol no Brasil. Ele criou o primeiro clube e organizou o primeiro campeonato oficial”.

Essa discussão tem mais de cem anos. Mas, independentemente de quem foi o primeiro, o desenvolvimento continuou. No início do século XX, surgiram cada vez mais clubes. O futebol brasileiro tornava-se mais profissional, e quanto mais a concorrência se intensificava, mais evidente era que ele não se contentava mais com o nível anterior.

Em 1907, o “Atlético Paulista”, buscando uma maneira de superar o “SPAC”, usou suas conexões e recorreu ao secretário da Associação de Futebol, Frederick Wall. Ele recomendou o professor escocês Jock Hamilton.

Aconteceu que o professor no passado foi um meio-campista talentoso, mas em 1907, perto dos quarenta anos, já havia se aposentado. Provavelmente, no “Atlético” não entenderam imediatamente para que ele serviria. No entanto, Hamilton representou um novo ciclo de desenvolvimento. O escocês se tornou o primeiro treinador na história do futebol brasileiro. Jock foi o primeiro no futebol local a implementar um programa de treinamento e preparação para adversários específicos, além de trabalhar com os filhos dos membros do clube. Essencialmente, ele criou o protótipo dos modernos sistemas de clubes com um setor juvenil estruturado.

Não menos importantes são suas ideias. Na história inicial do futebol, há um momento em que o jogo arcaico se transformou em um jogo coletivo. Esse momento coincidiu aproximadamente com a fundação do “Queen’s Park” escocês. Na década de 1870, os rapazes que se uniram no clube chegaram a uma visão completamente nova.

Antes disso, o futebol se baseava apenas no drible. O passe existia exclusivamente na forma de longos lançamentos. As equipes se alinhavam em 1-1-8 ou 2-2-6, ocupando a primeira linha, e avançavam. Aqueles que conseguiam tomar a bola corriam em direção ao gol. Um ataque se diferenciava do outro apenas pela distância do gol em que a jogada começava e onde terminava.

No “Queens Park” reuniram-se homens que conseguiam passar a bola uns para os outros de forma eficiente e não gostavam da constante confusão. Eles decidiram jogar de maneira diferente, não como todos os outros: com passes curtos e movimentação coletiva. Foram apelidados de “aranhas” porque jogavam como se estivessem tecendo uma teia, e, provavelmente, inicialmente havia um tom de desdém nisso. Mas o “Queens” demonstrou claramente o quanto o futebol coletivo superava o antigo esporte individual. A revolução aconteceu. O jogo de passes curtos tornou-se a marca registrada da Escócia. De 1874 a 1884, a Escócia venceu 9 dos 11 jogos contra a ultrapassada seleção inglesa.

No entanto, como geralmente acontece, nos níveis mais baixos as mudanças foram mais lentas; os escoceses, que importaram o futebol para o Brasil, trouxeram sua versão antiga. O jogo aqui permaneceu individual: roubou a bola, partiu para cima, nada de excessos. Jock Hamilton mostrou ao Brasil o estilo escocês das “aranhas”. O “Atlético Paulista”, rapidamente influenciado, venceu o próximo campeonato estadual.

“O passe fluido, que permite aos brasileiros expressar livremente seu talento, é uma invenção escocesa”, afirmava o escritor Billy Kay. “Nós o levamos para a Inglaterra, para a América do Sul e para o resto do mundo”.

O novo estilo se espalhou mais rápido do que na Grã-Bretanha; os brasileiros claramente se identificaram com ele. Em cinco anos, em 1912, todos jogavam assim. Na mesma época, o mecânico escocês Archie McLean chegou a São Paulo por alguns meses para ajustar máquinas em uma fábrica têxtil da J&P Coats. Mas ele acabou ficando. Para não se entediar, Archie criou o “Scottish Wanderers” e se inscreveu no campeonato estadual.

Acontece que McLean não veio de mãos vazias. Com ele chegou o mais recente presente escocês, a inovação mais fresca do futebol: o jogo de parede como a mais alta expressão e evolução lógica do futebol de passes curtos. Archie jogava como ponta-esquerda, trocava passes com o meia e imediatamente aparecia por trás da defesa, novamente combinava com o centroavante e recebia a bola na frente do goleiro. Os brasileiros se apaixonaram por ele instantaneamente. McLean, que driblava a defesa adversária sem precisar de fintas, ganhou o carinhoso apelido de “Veado”. Quando ele jogou pela seleção estadual contra o Rio, o novo recurso conquistou o país.

Nas décadas seguintes, o futebol brasileiro avançou tanto que o escocês nunca sonhou em alcançar. Mas tudo isso, desde os dribles de Pelé na frente do gol na final da Copa do Mundo até as jogadas de Ronaldinho, surgiu graças a alguns escoceses que não apenas trouxeram a bola para o país, mas também a direcionaram por um caminho específico.

Yasmin Fonseca

Ela é uma renomada jornalista esportiva, formada pela Faculdade de… More »

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