Futebol

Carlo Ancelotti no Brasil – por que ele deve permanecer após a Copa do Mundo de 2026

Carlo precisa ficar.

No verão de 2025, Carlo Ancelotti chegou ao Brasil em seu momento mais crítico do século XXI. Após a Copa do Mundo de 2022, a seleção passou por três técnicos (Carlo é o quarto). Pelo menos 84 jogadores diferentes atuaram pela equipe nesse período.

O resultado intermediário da busca frenética foi o quinto lugar nas eliminatórias sul-americanas. O que é ainda mais assustador – a equipe simplesmente não tinha identidade nem direção de desenvolvimento.

Carlo é um técnico de elite, mas não um mágico. Com apenas um ano para corrigir a situação, o italiano escolheu um vetor claro: jogo baseado em transições e passes verticais para Vinícius em qualquer situação incerta. Esse caminho está próximo da filosofia do joga bonito? De forma alguma. É melhor do que as tentativas caóticas? 100%. Esse estilo poderia ter dado resultado na fase de mata-mata? Sim, mas com uma dose de sorte (algo que Carlo geralmente atrai).

Antes da Copa do Mundo, estudei especificamente o Brasil para um preview, então tive o desprazer de avaliar os jogos antes de Carlo. Acredite: houve um avanço. Até diria que gostei de como Ancelotti sincronizou os mecanismos principais em torno de uma ideia simples e clara centrada em Vinícius. O italiano foi consistente em todos os níveis, e não teria tempo para construir coisas mais complexas. Entender tais limitações é uma força antiga de Carlo. Ele permanece fiel a si mesmo nesse caso.

Ao avaliá-lo, é importante basear-se não em uma grandeza ilusória ou em discursos pomposos sobre as cinco estrelas na camisa, mas na situação que ele herdou. Para o torneio, Carlo ajustou os contra-ataques e a defesa em bloco médio/baixo. Iniciou o trabalho para encontrar a química ideal no ataque. Para o estilo de Carlo, o que importa não é uma estrutura rígida, mas sim o estabelecimento de conexões entre os jogadores.

Houve um leve progresso nesse aspecto, mas ele foi rapidamente interrompido por lesões. Durante o torneio, Carlo perdeu Rafinha e Lucas Paquetá. A segunda estrela e o jogador que melhor se adaptava a Vinícius na defesa. Antes do torneio, perdeu Wesley – um raro lateral que merece ser chamado de ala. Ele não é uma estrela, mas era um elemento importante em meio à crise da posição. Nos amistosos antes do torneio, ele era responsável pela amplitude pelo lado direito: sem ele, foi preciso buscar um novo equilíbrio nessa zona.

Mesmo com tantos problemas, a seleção brasileira de Carlo foi brilhante no primeiro tempo contra a Noruega. Não era a Brasil tradicional, mas foi convincente em um novo estilo. Estatísticas no intervalo: 35% de posse de bola, mas 21 a 4 em ações na área adversária. Esperavam, contra-atacavam, ameaçavam e conquistaram um pênalti incontestável. Mas esbarraram na partida da vida de Erling Nyuland.

No início do segundo tempo, criaram talvez a melhor chance. O ataque perfeito dessa seleção – transição para o Brasil, busca por Vinícius, seu passe genial e a finalização cara a cara de Endrick.

Depois, aconteceu algo que nem eu consigo justificar. A entrada de Neymar aos 0:0 em um esquema onde o principal recurso do Brasil eram os contra-ataques. Neymar, em sua forma atual, só é útil como coringa contra uma defesa fechada (e provavelmente com o placar a favor do adversário, que se retrai) – quando só é preciso atacar, e a habilidade de dar passes precisos supera qualquer desvantagem.

Com o placar em 0:0, quando a equipe já estava se saindo bem nos contra-ataques sem ele, Neymar se tornou um fardo. Os noruegueses pressionaram o Brasil, que defendia com oito jogadores de linha e meio. Foi uma falha de Anchi, mas em nível tático, não estratégico. E em uma situação que poderia não ter acontecido se os brasileiros tivessem marcado e se distanciado.

Podemos lembrar de outras questões, como a não convocação de João Pedro e a escalação de Roger Ibañez na direita da defesa contra o Marrocos. Mas, nesse exercício, é importante não perder o foco e não culpar Ancelotti como a fonte do problema.

Em nível estratégico, Ancelotti extraiu o máximo de uma situação difícil. Por “máximo”, não me refiro às oitavas de final como etapa, mas ao nível de jogo que a equipe apresentou, considerando as restrições de tempo e o legado.

Resumindo, como vejo a situação. Chame de “lista de desculpas” se quiser, mas, pessoalmente, esses fatores me parecem sinceramente significativos.

● Anchi assumiu o comando do Brasil em seu momento mais crítico no século XXI. Ele construiu o futebol em torno dos pontos fortes de Vinícius. Deu à equipe uma identidade – não a identidade que os sonhadores desejam, mas bastante compreensível para os pragmáticos.

● Foi forçado a reconstruir áreas importantes durante a competição. Perdeu Rafinha, Paquetá e Wesley. Buscar equilíbrio após o início do torneio é uma tarefa difícil. E, além disso, jogadores sem equivalentes diretos (literalmente cada um deles) foram eliminados. Só seria pior se Vinícius tivesse se machucado. Ignorar completamente isso, focando apenas no suposto status histórico, é absurdo.

● Mesmo assim, é eliminado em uma partida onde superou a Noruega em chances de gol e intensidade. Embora tenha perdido o controle no momento crucial (é uma pena que os jogadores não tenham ajudado, marcando antes).

Carlo nos acostumou demais a acreditar em contos de fadas. Infelizmente, nem sempre sua sobrancelha vira o jogo. O conto de fadas não deu certo, mas Anchi começou a tirar o Brasil de um pesadelo prolongado. Espero que isso seja reconhecido – e que, pelo menos, ele não seja responsabilizado.

Maria Vicente

Ela é uma renomada jornalista esportiva, formada pela Escola Superior… More »

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18 Comentários

    1. PARABÉNS!
      Você é melhor que o Zlatan. Ele disse ao vivo que a Noruega era responsável pelo Jogo Bonito, enquanto o Brasil era responsável pela ioga. Você é melhor.

  1. Um oásis de sensatez, obrigado Vadim
    Espero que os próprios brasileiros entendam que toda a histeria em torno de Neymar foi um completo absurdo e que, se ele não estivesse na equipe, o resultado poderia ter sido melhor
    E se, no lugar de Endrick, houvesse um atacante inteligente, pelo menos metade tão inteligente quanto Benzema, Vinícius teria sido o melhor assistente do torneio

    1. Os brasileiros não vão entender nada. Se Neymar não mudar de ideia sobre se aposentar, eles vão continuar o escalando. Lá, é como uma religião, a lógica não funciona.

  2. Transformou o Brasil em um ônibus abafado com a única ideia de ‘fique com dez na sua área e chute para o negro da esquerda’. Como se para isso não fosse preciso ser um treinador top. Estou feliz com o fracasso, o futebol puniu um técnico historicamente sortudo, que estava acostumado a ter superestrelas fazendo tudo por ele, enquanto os fãs criam memes sobre a sobrancelha milagrosa.

    1. A situação em que alguém simplesmente não entende por que Ancelotti é ‘historicamente sortudo’.
      Massimo Ambrosini, o principal motor do Milan, era uma superestrela?) Ou Lucas Vázquez e Joselu, que contribuíram significativamente para a Liga dos Campeões?)
      Ou Vinícius, que Ancelotti desenvolveu e transformou em superestrela)
      Ancelotti tem um gerenciamento de pessoas de alto nível, por isso bastava-lhe ter algumas estrelas adequadas, enquanto ele fazia os outros acreditarem que eram estrelas)
      E é exatamente por isso que não poderia funcionar no Brasil – lá, as duas principais estrelas são pouco adequadas (Vinícius e Neymar).

  3. Se o público impõe ao técnico mascotes na equipe para o principal torneio de quatro anos, quais são as perspectivas dele? Scolari não levou Romário em 2002 e ganhou a Copa do Mundo. Embora lá também houvesse histeria em massa dos fãs e da imprensa. No final, Scolari entrou para a história, embora mais tarde tenha sido expulso da seleção pelos mesmos palhaços que pressionavam por Romário. Ancelotti quis agradar a todos e entrou para a história com o pior resultado do Brasil na Copa do Mundo no século XXI.

    1. Talvez a vitória na Copa do Mundo esteja de alguma forma ligada ao fato de que a equipe tinha Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos e Cafu? Como se, nessa equipe, apenas Vinícius e Rafinha pudessem jogar em alto nível. O principal problema dessa seleção brasileira é simplesmente um elenco fraco para os objetivos declarados, e não Ancelotti.

    2. O elenco daquela seleção brasileira foi o mais barato (considerando a inflação, é claro) entre todos os vencedores da Copa do Mundo no século XXI. Dados oficiais. Isso é para quem quer retratar aquela seleção brasileira como uma incrível dream team. Mas não se lembra de nada de verdade, apenas olhou os nomes na lista.
      Posso falar com fatos. Ronaldinho estava apenas começando. Cafu tinha 32 anos e, infelizmente, já não estava no seu auge. Rivaldo estava em declínio, ficando cada vez mais no banco do Barcelona, e no mesmo ano começou a mudar de equipe a cada ano. E Ronaldo passou três temporadas antes da Copa do Mundo no departamento médico. Perdeu uma temporada inteira. Nas outras duas, jogou 7 e 10 partidas pelo Inter nos campeonatos. Ou seja, antes da viagem para a Copa do Mundo, ele tinha 17 partidas na Serie A em três (!) temporadas. Na época, muitos já não acreditavam que ele pudesse se recuperar.
      No auge, como se diz hoje, na época, talvez apenas Roberto Carlos entre os mencionados acima.

  4. Os brasileiros não vão entender nada. Se Neymar não mudar de ideia sobre se aposentar, eles vão continuar o escalando. Lá, é como uma religião, a lógica não funciona.

  5. PARABÉNS!
    Você é melhor que o Zlatan. Ele disse ao vivo que a Noruega era responsável pelo Jogo Bonito, enquanto o Brasil era responsável pela ioga. Você é melhor.

  6. A situação em que alguém simplesmente não entende por que Ancelotti é ‘historicamente sortudo’.
    Massimo Ambrosini, o principal motor do Milan, era uma superestrela?) Ou Lucas Vázquez e Joselu, que contribuíram significativamente para a Liga dos Campeões?)
    Ou Vinícius, que Ancelotti desenvolveu e transformou em superestrela)
    Ancelotti tem um gerenciamento de pessoas de alto nível, por isso bastava-lhe ter algumas estrelas adequadas, enquanto ele fazia os outros acreditarem que eram estrelas)
    E é exatamente por isso que não poderia funcionar no Brasil – lá, as duas principais estrelas são pouco adequadas (Vinícius e Neymar).

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