Futebol

Argentina não é o time de Messi – Caixa atrás da Escola nº12

Acho que é importante falar sobre isso.

Messi está fazendo algo incrível. Nunca vimos alguém dominar o jogo dessa maneira. Ele transformou uma fórmula matemática complexa em um coração desenhado no asfalto.

Mas a beleza da Argentina é que, mesmo um jogador como ele, é apenas parte de algo maior.

Esse time consegue se defender com dez jogadores enquanto Messi recupera as energias. A forte Áustria, com sua pressão, quase não criou oportunidades.

De Paul distribui passes no estilo de Xavi, depois corre 30 metros para pressionar o adversário e, em seguida, volta 30 metros para cobrir uma zona defensiva que Messi não cobriria. Enzo Fernández mantém a posse de bola sob pressão com a calma de um aristocrata que não foi mimado. Mac Allister joga como dois volantes.

Todos nesta Argentina são técnicos e inteligentes. Mínimo de erros técnicos, mínimo de decisões estranhas, mesmo nos micromomentos. Quando partem para o ataque, é de forma precisa e contundente. Quando cometem faltas, é com tanta habilidade que a cabeça do árbitro fica em dúvida: é amarelo ou não é? Quando passam a bola sob pressão, é para o pé mais distante, de forma que não dá para recuperar sem cometer falta.

Não são jogadores de futebol – são uma gangue de Buenos Aires. Astutos, implacáveis, habilidosos.

Este time pode ignorar o melhor jogador da história por dois minutos, para explodir em 10 segundos e realizar um ataque vertical, como se a pressão da Áustria fosse uma piada.

E em 2022, era um time ainda mais vertical, porque valorizava menos a bola como instrumento de defesa. Porque Messi, na época, era mais forte e perigoso. O risco era justificado. Agora, o time é mais cauteloso e cuidadoso. Consigo mesmo e com quem faz o incrível.

Este time entende intuitivamente como cobrir a principal vulnerabilidade (Messi na defesa). Em cada disputa. Quando cometer falta, onde chegar, como se posicionar, quem cobrir. Isso só se aprende através da cultura, através de milhares de quadras entre ruas estreitas. Isso só se pode recordar.

Este é o time de Lionel Scaloni.

Chegando em 2018, ele não apenas lidou com um elenco envelhecido e uma juventude crua, com a troca de gerações, que bate como ressaca após uma bebedeira triste. Lidou com escândalos, com a sensação de Messi como um estranho entre os seus. Com os problemas financeiros da federação (através de títulos e estabilidade), com a questão de como encaixar as palavras “equipe” e “Messi” no mesmo campo semântico.

Ele não apenas construiu uma seleção de classe, que joga um bom futebol. Conhece sua fraqueza e sua força. A Argentina de 2022 é, de modo geral, a melhor seleção em termos de matemática do jogo que já vi. Mas Scaloni, de alguma forma, preservou e protegeu do que é mais importante, dos tendências clichês.

Identidade.

Olhando para essa equipe, é possível estudar a mentalidade argentina. Parece que, mesmo compreendendo, quais são eles, as pessoas do outro lado do mundo, que por algum motivo vendem carros e apartamentos para ver uma partida de futebol.

Não é religião. Mas uma forma de pensar, uma maneira de entender o complexo através do simples. O que nos parece sacrifício, para eles é rotina. Vida.

Nesta seleção da Argentina, poderia facilmente se encaixar Maradona; ela se adapta ao novo líder. Impulsivo, ardente, que queima a defesa não com inteligência, mas com instinto animal e talento.

Ela se adapta, mas permanece sendo ela mesma. Astuta, implacável, habilidosa. Com um toque suave na bola (e com aquele som de um bom passe em um estádio barulhento), com uma entrada dura que pode ou não resultar em cartão amarelo. Com suor e esforço, com talento e vulnerabilidade.

Se alguma vez vi espírito no futebol, é este. A seleção da Argentina.

A equipe que Lionel Scaloni construiu.

Maria Vicente

Ela é uma renomada jornalista esportiva, formada pela Escola Superior… More »

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