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«A Vergonha de Gijón» – a partida mais vergonhosa da história da Copa do Mundo. Também com a participação da Áustria e da Argélia – Copa do Mundo de 2026

Mas então os argelinos sofreram.

O Irã não avançou para as oitavas de final devido ao gol da Áustria contra a Argélia aos 96 minutos (3:3). Três minutos antes, os argelinos haviam marcado um gol que os colocava contra a Espanha e eliminava os austríacos do torneio. Mas então os argelinos se descuidaram – e suspeitamente permitiram o empate.

Agora, eles enfrentam a Suíça nas oitavas de final, um adversário mais conveniente, enquanto os austríacos celebram a classificação. Todos comemoram, exceto o Irã.

Que ironia, já que em seu tempo a FIFA introduziu partidas paralelas na última rodada após a polêmica partida entre Áustria e Alemanha Ocidental na Copa do Mundo de 1982, que entrou para a história como o “Desastre de Gijón”. E, na época, foi justamente a Argélia que ficou na posição do Irã.

Há 44 anos, os argelinos, estreando na Copa do Mundo, surpreendentemente derrotaram os então campeões europeus da Alemanha Ocidental (2:1), perderam para os austríacos (0:2) e venceram os chilenos na última rodada (3:2). Os africanos lideravam o grupo, mas a Áustria e a Alemanha Ocidental jogaram a terceira rodada um dia depois, pois na época não havia a regra de partidas paralelas.

Os alemães só se contentavam com a vitória, enquanto os austríacos poderiam perder por uma diferença de um ou dois gols. Nesse caso, ambas as seleções somariam quatro pontos e ultrapassariam a Argélia no saldo de gols. Os próprios argelinos ajudaram, já que na última rodada estavam vencendo por 3:0, mas acabaram com um placar de 3:2.

No final, a Alemanha Ocidental e a Áustria não se esforçaram, terminando a partida com um placar conveniente para ambos. Já aos 10 minutos, Horst Hrubesch – autor do duplo decisivo na final da Euro-1980 – colocou os alemães ocidentais à frente. Depois disso, ambas as equipes esqueceram o ataque, sem fazer nenhuma tentativa séria de marcar.

As equipes claramente estavam apenas matando o tempo enquanto aguardavam o apito final. No segundo tempo, a artificialidade atingiu o ápice: um total tiki-taka, em média uma interceptação a cada seis minutos, precisão de passes no próprio campo de 98%. Além disso, passes constantes para o goleiro – na época, os goleiros eram permitidos pegar a bola com as mãos após um passe intencional com o pé.

No vídeo, ouve-se um apito alto dos torcedores – a partida aconteceu na cidade espanhola de Gijón. Os fãs rapidamente entenderam tudo: alguns tentaram invadir o campo, um alemão queimou a bandeira da RFA, argelinos jogaram dinheiro no campo e espanhóis gritavam para que as equipes saíssem de lá.

Comentiristas na RFA e na Áustria também não pouparam palavras, chamando o jogo diretamente de vergonhoso e pedindo para desligar as televisões.

“O importante é que avançamos”, respondeu calmamente Lothar Matthäus. O atacante austríaco Hans Krankl se expressou de forma rude: “Nós avançamos para a próxima fase, e não estou nem aí para os alemães”.

Havia também quem nem pensava em um possível acordo: por exemplo, o atacante Walter Schachner se esforçou ao máximo em campo, quase atrapalhando o plano. E até lembrou que os jogadores combinaram no intervalo jogar para segurar o resultado, mas esqueceram de avisá-lo. Paul Breitner afirmou que alguns jogadores queriam lucrar com essa partida através de apostas.

Argélia apresentou um protesto e exigiu a anulação do resultado da partida. A FIFA recusou, mas logo implementou mudanças na fase de grupos: desde a Copa do Mundo de 1986, a última rodada de cada grupo é disputada simultaneamente. Agora, isso é aplicado em todos os torneios – na Liga dos Campeões atualizada, são 18 jogos de uma vez.

“Nossa atuação forçou a FIFA a fazer essa mudança, o que significa que a Argélia deixou sua marca na história”, disse o meio-campista Lakhdar Belloumi. O zagueiro Chaabane Merzekane observou: “Não ficamos com raiva. Ver duas grandes potências se humilharem para nos eliminar foi uma homenagem à Argélia. Eles saíram com vergonha, e nós com a cabeça erguida”.

A Alemanha Ocidental naquele torneio chegou à final, onde perdeu para a Itália. Mas os alemães não conseguiram apagar da memória dos torcedores aquele jogo específico da fase de grupos. Jornais espanhóis na época saíram com manchetes como “Anschluss” – uma referência à anexação da Áustria pela Alemanha nazista. Austríacos e alemães chamaram o jogo de forma desdenhosa de “Pacto de Não Agressão de Gijón” – outra alusão aos anos 1930.

Mas o nome mais famoso da partida é “A Vergonha de Gijón”. Em analogia com a “Vergonha de Córdoba” na Copa do Mundo de 1978, quando os alemães ocidentais precisavam vencer os desmotivados austríacos para seguir na disputa por medalhas, mas perderam inesperadamente.

Será que agora o Irã vai se lembrar da “Vergonha de Kansas”?

Matias Pereira

João Silva é um renomado jornalista esportivo português, formado pela… More »

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