Vinícius Júnior – criticamos e admiramos: análise do jogo contra o Japão na Copa do Mundo de 2026

Observações de Andrei Kleschenko.
Nos últimos dias, a timeline foi tomada por Romário.
Provavelmente, porque ele foi o grande protagonista da última Copa do Mundo realizada nos Estados Unidos.
Naquele torneio, Romário, após driblar a defesa sueca, marcou um gol inesperado, sem preparação, com a parte da frente do pé, no canto oposto. A reação do goleiro Ravelli, ao tirar a bola da rede, se tornou brevemente um meme. Parecia que ele não sabia ao certo o que sentir. Não entendia nem o que deveria sentir: admiração ou frustração. Sua expressão facial, com os braços caracteristicamente abertos, oscilava entre “O que foi isso?!” e “O que vocês querem de mim?”
Quando Romário jogava, os goleiros frequentemente ficavam com essas expressões. Esse chute, que me lembrava esgrima, era sua marca registrada. Romário, talvez o maior centroavante da história em espaços reduzidos, subordinava tudo em si à busca pela independência do tempo e dos metros extras. O drible economizava movimento e, ao mesmo tempo, privava os goleiros de um referencial visual que permitisse prever a direção e até mesmo o chute.
Cruyff dizia: “Romário é o melhor que já treinei. Ninguém sabia o que esperar. Ele tem uma técnica excepcional e marcava gols de qualquer posição com a ponta do pé”.
A FIFA incluiu o gol contra a Suécia entre os 100 melhores da história do Brasil.
Aos 58 minutos do jogo contra os japoneses, Vinícius, se posicionando na diagonal mais próximo da linha central, puniu o defensor por sua presunção com o primeiro toque e passou a bola entre as pernas em contra-ataque. Depois, carregou por 30 metros, driblou outro defensor com um corte e, com um chute familiar, mandou para o canto oposto sem preparação. A bola não foi no ângulo mais agudo. Suzuki conseguiu desviar para a trave.
Nada melhor foi visto no campeonato e, provavelmente, não será. Isso não é pessimismo; é simplesmente difícil superar algo assim. Se Vinícius tivesse marcado, o gol teria se tornado o emblema do torneio.

Se Vinícius tivesse marcado, seu grande desempenho teria ganhado um acorde culminante. Vinícius já é magnífico sem isso. Mas é justamente essa magnificência que exige um ápice, um apogeu, que elevaria seu jogo de hoje ao patamar da arte, e não apenas do esporte.
Mas, como estamos falando de esporte, voltemos a ele.
Vinícius Júnior, o ponta que é amado e odiado, e para o qual quase ninguém no futebol é indiferente, virou o jogo e salvou o Brasil.
Hoje houve dois jogos. O primeiro foi disputado antes do intervalo, e nele os japoneses sabiam de antemão tudo o que os brasileiros, pouco inspirados, fariam. O segundo foi jogado depois, e lá os asiáticos sobreviveram.
No primeiro, Vinícius jogou na meia-ponta e quase desapareceu. Parte disso é culpa de Ancelotti. Ele posicionou o ponta em uma zona que o adversário cobre melhor, e não criou um apoio adequado. O objetivo que Carlo buscava é claro: colocar o melhor jogador na área mais perigosa. Mas, para explorar isso contra o Japão, que fecha o centro com muita compactação, era necessário mover a bola mais rapidamente e criar arrancadas em profundidade que liberassem a zona. Douglas e Paquetá não fizeram isso.

Na verdade, Carlo tentou obter dele o que Neymar proporcionaria, se estivesse em forma. Não deu certo. O título usa a palavra “criticamos”, mas, na verdade, é difícil criticar alguém por não ser Neymar. Vinícius apenas mostrou que não pode fazer tudo, e, nesse caso, isso significa que ele não tem o primeiro toque e a criatividade de Ney. Ele é perigoso quando está perto do gol – o torneio já mostrou isso. Mas o Japão ocupou as zonas centrais de forma tão compacta que Vinícius se perdeu lá.
Após o intervalo, Carlo posicionou Vinícius o mais aberto possível, quase na linha. A jogada imediatamente forçou os japoneses a se esticarem; o centro ganhou um pouco de espaço, e a entrada de Endrick permitiu que ele fosse utilizado. Além disso, ficou claro que os defensores não conseguiam parar Vinícius, se ele recebesse o passe sem obstáculos e visse um pouco de espaço à frente. O Japão recuou, passou a jogar de forma mais passiva e baixa – cedeu as alas e a zona diante da área penal.
Essa jogada mudou completamente o cenário e definiu o domínio do Brasil.
Novamente, em parte, isso é mérito de Ancelotti: ele claramente leu o jogo dos japoneses e sabia que venceria. Mas isso não teria funcionado se não fosse por Vinícius. Parece que, no segundo tempo, ele decidiu provar que, mesmo não sendo Neymar, não há ninguém melhor que Vinícius sendo Vinícius. Os japoneses frequentemente o dobravam, isolando-o dos demais, tentando recuperar a iniciativa – nada funcionou.
Quando ele está tão bem, como neste jogo, todas essas vantagens numéricas são apenas uma formalidade.




