Futebol

Primeiro jogador negro da seleção francesa – Seu pé

“Aranha Negra”.

Nos anos 1990, heróis da seleção francesa se tornaram Trezeguet, Desailly, Thuram, Vieira, Karembeu. Com a chegada deles, a equipe literalmente se transformou – agora, em grandes torneios, brilhavam jogadores negros.

Mas muito antes deles, ainda nos anos 1930, o primeiro foi Raoul Diagne. Seu pai era da África, Raoul nasceu na América do Sul e jogou futebol até mesmo durante o nazismo.

O pai de Raoul é mais famoso que o filho. Ele se tornou o primeiro deputado negro do parlamento francês

O sobrenome Diagne estava em evidência no início do século XX. Na primavera de 1914, o “Partido Republicano Radical” venceu as eleições na França. Os esquerdistas, que, no entanto, após o início da Primeira Guerra Mundial, se aliaram a forças mais conservadoras. Uma das 592 cadeiras no parlamento foi para o então 41 anos Blaise Diagne. Pela primeira vez na história da França, um negro se tornava deputado.

Blaise nasceu na ilha de Gorée, na costa do Senegal – na época, uma colônia francesa. Recebeu uma boa educação e conseguiu um emprego no serviço público. O trabalho envolvia viagens – a metrópole enviava o jovem funcionário ora para o Congo, ora para a Reunião, ora para Madagascar. Em 1910, ele estava do outro lado do Atlântico – na Guiana Francesa, onde nasceu seu filho Raoul.

Graças à eleição do pai para o parlamento (Blaise concorreu por quatro comunas do Senegal, cujos residentes receberam direito a voto), a família se mudou para a Europa. Apesar de sua origem, Diagne não era partidário da independência das colônias francesas. Ele acreditava que, no futuro, os habitantes dos territórios ultramarinos deveriam se tornar cidadãos plenos da república.

Com essas ideias, ele foi enviado de volta à África quando o país precisava de novos soldados. A Primeira Guerra Mundial estava em seu auge, e o governo francês pensou em expandir o recrutamento para as colônias. Em 1917, Diagne-sênior se tornou o rosto da campanha: viajou pela África Ocidental e convenceu os locais a se alistarem no exército. Ele acreditava que o serviço militar abriria o caminho para a igualdade. E muitos responderam: apenas no início de 1918, 63.000 pessoas foram recrutadas.

Aqueles que voltaram da frente não receberam a igualdade prometida. No entanto, isso não afetou a carreira política de Diagne. Em 1920, ele se tornou prefeito de Dacar, e na década de 1930, ingressou no governo nacional como secretário de Estado do Ministério das Colônias.

Raoul Diagne – o defensor que se tornou um excelente goleiro

O pai esperava que Raoul se tornasse militar ou médico, mas ele se interessou pelo esporte. Desde os 13 anos jogava futebol, e em 1926, chegou ao Racing de Paris. Lá, chamaram a atenção sua altura considerável para a idade – Raoul acabou atingindo 1,87 metro. O defensor geralmente atuava na lateral direita, combinando velocidade com técnica e, apesar de seu porte, era ágil. Por isso, ganhou o apelido de “Aranha Negra”.

Em 1931, quando o goleiro do Racing se machucou, Diagne até jogou no gol e foi tão bem que o mantiveram com as luvas por mais alguns meses. Raoul chegou a ser convocado para a seleção de Paris – justamente como goleiro.

No clube, Diagne se destacou. Não era um líder incontestável, mas não se perdeu quando a liga profissional começou em 1932. No primeiro campeonato, até marcou gols (como lateral, é claro), e já na temporada 1935/36, foi campeão nacional com o Racing. Depois, Raoul acrescentou à sua coleção três Copas da França. O último troféu foi conquistado em 5 de maio de 1940.

Naquela época, a Segunda Guerra Mundial já estava em andamento, o campeonato foi interrompido, mas a Copa ainda mantinha a ilusão da vida em paz. Poucos dias após a final, a Alemanha invadiu o Benelux, derrotou a França, e Diagne teve que deixar a capital.

Em 1940, foi chamado para o Toulouse, um time da “zona livre” da França – a parte que não foi ocupada pelos alemães. O campeonato foi dividido em duas zonas, e em 1942, Raoul ajudou o Toulouse a ficar em segundo no grupo. No mesmo ano, o Reich acabou ocupando o restante da França. Para um jogador negro, ficou mais perigoso, e ele se mudou para o Annecy – um clube da zona de ocupação italiana, onde, como Diagne esperava, as regras eram mais brandas. No entanto, alguns meses depois, os alemães chegaram lá também – e introduziram tropas. Não havia mais para onde fugir.

Naquela época, Diagne, junto com seu ex-companheiro do Racing, Edmond Weiskopf, abriu um bar. Eles o chamaram de Le Coup Franc – “Pênalti”. Weiskopf era judeu húngaro, mudou de sobrenome e conseguiu documentos falsos. Ele e sua família acabaram tendo que se esconder dos alemães, mas sobreviveu. Diagne, por sua vez, conseguiu chegar ao final da guerra relativamente tranquilo. Depois disso, continuou jogando futebol – primeiro no Nice e depois no Senegal. Quando a colônia conquistou a independência, ele treinou a seleção senegalesa.

Diagne jogou na Copa do Mundo de 1938. O próximo francês negro a participar de uma Copa do Mundo só apareceu 40 anos depois

Raoul foi convocado para a seleção francesa em 1931 – a primeira vez que um jogador negro defendia a equipe. Os torcedores reagiram com moderação. Talvez o defensor tenha sido beneficiado por seu sobrenome conhecido – os franceses conheciam principalmente seu pai. Mas isso não significa que o país não tivesse problemas com racismo. Pelo contrário: no mesmo ano de 1931, Paris sediou a Exposição Colonial Internacional. Nela, a França se apresentava como moderna, racional e esclarecida. Já os povos colonizados eram retratados como exóticos, presos ao passado e até mesmo como tribos selvagens. A exposição promovia uma hierarquia clara e o papel de liderança da metrópole em diferentes regiões do mundo.

A vida e a carreira de Diagne não se encaixavam muito bem nesse conceito: ele falava francês fluentemente, estava bem assimilado e tinha um ótimo desempenho em um dos melhores clubes do país. Sua convocação para a seleção foi totalmente merecida. Ele disputou 18 partidas, um número bastante significativo para a época. A equipe se reunia raramente.

Ele não foi convocado para a Copa do Mundo de 1934, mas dois anos depois, Diagne jogou o torneio em casa. Naquela época, não havia fase de grupos – as equipes começavam a partir das oitavas de final. Na primeira rodada, eles eliminaram a Bélgica, mas depois perderam para os campeões mundiais, os italianos. Em ambos os jogos, Raoul foi titular.

Dian permaneceu na seleção até 1940. O próximo francês negro a jogar em uma Copa do Mundo foi apenas em 1978, quando o zagueiro Marius Trésor, natural da Guadalupe, e Gérard Janvion, da Martinica, foram à Argentina.

Victória Simões

Ela é uma renomada jornalista esportiva, formada pela Faculdade de… More »

Artigos relacionados

13 Comentários

  1. Um fato curioso: o irmão de Diagne, após a guerra, mudou-se para a Ucrânia, onde se casou com uma ucraniana. Ele teve um filho chamado Alexander, mas a funcionária do cartório errou e registrou como Alexander Dikany. Bem, Alexander teve um filho chamado Andrey, e acho que vocês já entenderam o resto….

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo