Futebol

Mohamed Waughby – o treinador que já fez do Marrocos campeão mundial Sub-20

Mohamed Ounahi – o sucessor de Walid Regragui.

Quatro anos atrás, nos surpreendemos com o Marrocos na semifinal da Copa do Mundo – e conhecemos o técnico-mágico Walid Regragui, que assumiu a seleção três meses antes do torneio.

E agora a história se repete: Mohamed Ounahi também chegou três meses antes da Copa – e não quebrou nada. A seleção de Marrocos se tornou a primeira africana a chegar às quartas de final duas vezes na história.

E mesmo com a França como adversária, esses rapazes têm chance de chegar à segunda semifinal consecutiva.

Começou a treinar aos 21 anos – no Maccabi belga. Essa experiência moldou suas convicções

A principal característica do Marrocos nos últimos anos é que a absoluta maioria dos jogadores da seleção cresceu em outros países. Os treinadores não são exceção: Regragui nasceu na França, e Wasseige, na Bélgica. Enquanto Walid jogou pela seleção do Marrocos e começou sua carreira de treinador lá, Mohamed trabalhou por 25 anos no futebol juvenil belga antes de ser convidado por sua terra natal histórica.

Wasseige, de 49 anos, cresceu nos subúrbios de Bruxelas, em uma família de origem rifenha (berberes marroquinos). O futebol entrou na vida de Mo, então com nove anos, durante a Copa do Mundo de 1986 no México, quando os belgas chegaram às semifinais e os marroquinos às oitavas de final (o melhor resultado até 2022). O garoto torcia por ambas as equipes, mas ele mesmo nem tentava se tornar um jogador de futebol. Mais tarde, ele se formou em pedagogia – tornou-se professor de educação física em uma escola e, aos 21 anos, começou a treinar paralelamente.

A escolha foi inesperada: o Maccabi de Bruxelas, um clube judeu local, o convidou para trabalhar com jovens. Wasseige ficou lá por seis anos (1997-2003) e valoriza muito a experiência adquirida: “Quando cheguei ao Maccabi, encontrei um grupo de pessoas muito solidárias e abertas, com norte-africanos e turcos jogando em quase todas as faixas etárias. Esse período me permitiu me abrir e abandonar preconceitos. Aprendi muito lá em um nível humano. Embora, em termos esportivos, nosso desempenho não tenha sido muito bom!

Lembro-me de que, quando comecei a ensinar, mal ousava abrir a boca. Não me sentia muito à vontade para falar em público. Mas o Maccabi me ajudou a ganhar confiança. Lá, descobri o trabalho de treinador”.

Trabalhou por 18 anos no sistema do Anderlecht. Formou Doku, Tielemans, Januzaj e um jogador do Marrocos

Em 2003, Wasseige juntou-se à academia do Anderlecht, onde lhe foi confiada a equipe Sub-9, que incluía o futuro meio-campista do Manchester United, Adnan Januzaj, e o futuro prodígio do Chelsea, Charly Musonda Jr. Mais tarde, o treinador trabalhou com esses mesmos jogadores nas equipes Sub-11 e Sub-14. Em seguida, ele assumiu o Sub-17 (com quem venceu o campeonato), o Sub-19 (chegando às semifinais da Liga Jovem da UEFA) e o Sub-21.

Na temporada 2015/16, Wahbi se tornou assistente de Besnik Hasi na equipe principal. O “Anderlecht” ficou em segundo lugar, garantindo uma vaga na Liga dos Campeões. Hasi deixou o clube no final da temporada, após o que seu assistente retornou ao trabalho na academia.

Em 2021, Wahbi deixou o “Anderlecht” após 18 anos de trabalho no clube. Em seu comunicado de despedida, o diretor da academia, Jean Kindermans, destacou vários jogadores que treinaram com o belga-marroquino: Youri Tielemans, Jérémy Doku, Leander Dendoncker, Bilal El Khannous.

Tielemans foi capitão nas equipes de Wahbi e agora usa a braçadeira de capitão na seleção belga, jogando na Copa do Mundo ao lado de Doku. El Khannous também está no torneio, atuando sob o comando de Wahbi pelo Marrocos.

Já tornou o Marrocos campeão mundial, pelo menos na categoria sub-20. No caminho para o troféu, derrotaram França, Espanha, Brasil e Argentina

Após sair do “Anderlecht”, a mídia belga relatou que o treinador recebeu uma proposta de contrato no Oriente Médio. Por um breve período, ele foi para o “Al-Fateh”, da Arábia Saudita, para ajudar um velho conhecido da academia do “Anderlecht”, Yannick Ferrera.

Mas, em março de 2022, Wahbi assumiu o comando da seleção sub-20 do Marrocos. O triunfo da equipe principal sob a liderança de Regragui já foi celebrado na África. E antes da semifinal contra a França, Wahbi não hesitou em escolher para quem torcer. Em entrevista à RTBF, a principal emissora de rádio e televisão de língua francesa da Bélgica, o treinador disse: “Nem se discute, eu apoio 100% o Marrocos. A única vez que tive que escolher foi quando os marroquinos jogaram contra a Bélgica.

Muitas vezes me perguntam: ‘Você se sente mais belga ou marroquino?’ Pela experiência de muitos conhecidos, posso dizer que depende do momento. Quando ia de férias para o Marrocos com meus pais, sentia-me mais belga. As pessoas me chamavam de ‘belga’. Mas na Bélgica, às vezes me sentia mais marroquino. Por exemplo, quando era jovem e ia beber com amigos, mas não me deixavam entrar em estabelecimentos porque parecia marroquino. Algumas pessoas com histórias semelhantes enfrentam uma crise de identidade. Há pessoas que são ao mesmo tempo belgas e marroquinas, como eu. Outras não sabem, e outras dizem que não são nem uma coisa nem outra.

Crescer na interseção de culturas permitiu que Ouahbi dominasse francês, árabe, darija marroquino (dialeto do árabe), espanhol e inglês. Isso já ajudava no Anderlecht. O diretor do departamento social do clube, Jean-François Lenvain, explicava o papel do treinador também por sua origem: “Ver uma série de jovens norte-africanos dos bairros de Bruxelas no nosso time principal é motivo de orgulho. Dez anos atrás, isso seria impossível. Esses garotos têm seus próprios costumes, que às vezes diferem das regras do Anderlecht. Em certo momento, a falta de uma língua comum entre nós tornou a presença de pessoas como Mo no clube essencial”.

Na seleção juvenil de Marrocos, que também é composta majoritariamente por marroquinos naturalizados, essas habilidades de comunicação do treinador foram claramente úteis. O resultado fala por si: em 2025, o Marrocos Sub-20 chegou à final da Copa da África (perdeu para a África do Sul por 0:1) e, em seguida, venceu surpreendentemente o Campeonato Mundial.

Poucos acreditavam no troféu antes do início do torneio: a cotação era de 28.00. Mas as surpresas começaram já na fase de grupos: começaram com uma vitória sobre a Espanha (2:0), depois eliminaram o Brasil (2:1, sofrendo o gol apenas aos 90+2). A derrota mínima para o México (0:1) já não influenciou em nada – Marrocos venceu o grupo, deixando os brasileiros fora das eliminatórias.

Nas oitavas de final, os marroquinos derrotaram a Coreia do Sul (2:1), nas quartas de final, os EUA (3:1), e na semifinal, passaram pela França (1:1, 5:4 nos pênaltis). Antes da final, também não acreditavam em Marrocos – a vitória sobre a Argentina tinha uma cotação de 5.80. Mas ainda no primeiro tempo, o marroquino nascido Yassir Zabiri marcou dois gols e deu ao país uma vitória histórica – 2:0.

E isso em um torneio no Chile – onde Argentina e Brasil estão muito mais acostumados a jogar. No final, os argentinos precisaram ser consolados por Lionel Messi: “Não fiquem desanimados, rapazes! Vocês tiveram um desempenho impressionante no torneio. Todos queríamos ver vocês levantando o troféu, mas estamos felizes com o que conquistamos e orgulhosos de como defenderam a camisa azul e branca com todas as forças”.

Trânsito perfeito: com Ouahbi, 0 derrotas em 10 jogos. Acreditam até em vitória na Copa do Mundo

Em dezembro de 2025, Wahbi foi nomeado técnico da seleção olímpica para preparar a equipe para os Jogos de 2028. No entanto, após o Marrocos conquistar a vitória na final da Copa da África, Walid Regragui renunciou inesperadamente. As tentativas da federação de convencê-lo não funcionaram – o autor do milagre marroquino estava determinado a sair: “Esta decisão não é uma rendição, mas uma escolha ponderada pelo bem do país e do nosso futebol. Faz parte da evolução da equipe. Deixo uma seleção forte, que sabe seu valor e não teme mais buscar seus objetivos. Esta equipe não está amarrada e está pronta para enfrentar os melhores”.

Assim, o cargo foi para Wahbi, que assumiu a oitava melhor equipe do mundo alguns meses antes de um grande torneio. Sua primeira ação foi agradecer ao antecessor: “Por tudo o que você fez por nós. Como técnico da seleção juvenil, pelo seu apoio nos últimos quatro anos, pelos conselhos e pelo contato próximo com os jovens jogadores. Obrigado pelo legado que você nos deixou”.

Por enquanto, a transição encanta: sete vitórias e três empates em dez partidas, já ocupando o sétimo lugar no ranking da FIFA. Isso apesar de terem enfrentado Holanda, Brasil, Noruega, Equador, Paraguai e Canadá.

Após a vitória sobre os holandeses, Wahbi destacou o estilo dominante com o qual sua equipe avançou para as oitavas de final: “Não esperava um bloco defensivo tão baixo da Holanda, pois geralmente eles gostam de controlar a posse de bola. Vi essa abordagem do adversário como um sinal de respeito. Controlamos completamente a partida”.

Emocionado com a vitória, o técnico correu primeiro para a família – abraçou a esposa e os filhos. Ele tem três filhos: dois meninos e uma menina.

Como especialista em trabalhar com jovens, Uahbi está trazendo novos talentos. Em maio, estrearam pela seleção o melhor jogador do vitorioso Mundial Sub-20, Othman Maamma (“Watford”), e o herói da final, Zabiri (que após o torneio foi para o “Rennes”). Uahbi ainda não os levou para a Copa do Mundo adulta, mas no torneio brilha o jovem de 18 anos, Ayoub Bouaddi, do “Lille”, que Marrocos conseguiu “roubar” da França.

Em todas as cinco partidas, entrou em campo o meio-campista de 20 anos do “Strasbourg”, Samir El Mourabet, que Uahbi já convocava para a seleção jovem. Ele não se tornou campeão mundial jovem apenas porque o “Strasbourg” não o liberou.

Agora, Uahbi já é questionado sobre um potencial ouro na Copa do Mundo de 2026. O treinador responde que, há quatro anos, a mentalidade da equipe mudou – para uma mentalidade vencedora. Mas ele pede que não se relaxe:

“Entramos em uma nova dimensão, onde jogadores e torcedores acreditam em Marrocos, e os adversários nos respeitam. Precisamos ver como lidar com isso, dando 100% em cada jogo, seja contra o Brasil, seja contra o Haiti. Ninguém poderá nos parar se jogarmos como sabemos. Mas não há invencíveis: se errarmos, voltaremos para casa. Acredito muito no trabalho duro, e temos tudo para nos tornarmos uma grande nação do futebol.”

Sofia Ramos

Ela é uma renomada jornalista esportiva, formada pela Faculdade de… More »

Artigos relacionados

4 Comentários

  1. Um técnico incrível, não tem como negar. Claro, ele tem uma geração de jogadores poderosa, mas veja os portugueses com jogadores ainda mais incríveis e não conseguem fazer nada

    1. Eu analisei, não é um técnico totalmente incrível, mas é bom e para o Marrocos é ótimo. Então, chuteiras debaixo da mesa, troféus em cima da mesa

  2. E quem poderia imaginar que, até os 22 anos, o Marrocos se tornaria uma das principais seleções do mundo?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo