Futebol

Lionel Scaloni – como ele transformou a Argentina de um time tóxico em uma família

Lyubov Kurcheva – sobre a revolução silenciosa.

Lionel Scaloni transformou a seleção argentina até deixá-la irreconhecível. Em quatro anos, de uma equipe tóxica e desunida, ela chegou a uma surpreendente coesão.

Resultado: a chance de chegar novamente à final da Copa do Mundo e se tornar a primeira seleção desde 1962 a conquistar dois títulos consecutivos.

Contamos a história do caminho único de Scaloni.

Conflitos entre treinadores, xamã no vestiário, Messi isolado – essa era a Argentina na Copa de 2018

20 de junho de 2018. A Argentina se prepara para o último treino antes de partir para Nizhny Novgorod, onde disputará a segunda partida do grupo contra a Croácia. O assistente Sebastián Beccacece (sim, o mesmo loiro da seleção equatoriana na Copa de 2026) distribui coletes para os titulares e reservas. Nesse momento, o técnico Jorge Sampaoli percebe de longe que um atacante, que ele não planejava escalar desde o início, recebe um colete da cor errada. Preocupado, ele se dirige a Beccacece e aponta o erro. Começa uma discussão. Os jogadores estão por perto – e esperam. Quando a briga ameaça se transformar em uma luta, os jogadores (sendo Javier Mascherano o principal mediador) intervêm – e apagam o incêndio.

Esse é apenas um dos episódios da vida da seleção na Copa de 2018, onde a Argentina mal conseguiu passar da fase de grupos e depois perdeu para a França nas oitavas de final.

Sampaoli assumiu a seleção em uma situação complicada – até a classificação para a Copa do Mundo estava em risco. A Argentina jogava de forma truncada, em grande parte devido às constantes mudanças na escalação e no esquema tático, à falta de uma estratégia consistente e ao desequilíbrio causado pelo foco excessivo no ataque.

O clímax das eliminatórias foi a vitória por 3:1 sobre o Equador, com um hat-trick de Leo Messi, após a qual foi possível respirar aliviado. Mas a preocupação na seleção era tanta que, para o jogo, trouxeram até um xamã, Manuel de Gorina, como precaução. Pagaram suas passagens de ida e volta e reservaram um quarto de hotel. A mídia argentina relatou que ele estava constantemente ao lado da equipe. Tudo isso em nome da classificação para a Copa do Mundo. O que acontecia incomodava os líderes da seleção, que havia chegado à final da Copa de 2014. Afinal, muitos deles sabiam que 2018 poderia ser a última chance de conquistar o tão sonhado troféu.

Antes do torneio na Rússia, o vestiário fervia. Primeiro, o goleiro titular Sergio Romero foi cortado da lista. Tudo por causa de uma lesão, embora ele estivesse confiante de que se recuperaria a tempo do primeiro jogo. Sampaoli insistia que precisava de um goleiro disponível para todos os jogos preparatórios. Mas, no vestiário, Romero era considerado um jogador-chave, e acharam que essas explicações não eram suficientes. “Isso irritava”, diz uma fonte.

Um problema também surgiu em torno de Sergio Agüero. Em abril de 2018, ele passou por uma cirurgia para estar pronto para a Copa do Mundo, mas depois se deparou com pedidos estranhos do técnico. “Sampaoli queria que eu fosse para a Argentina uma semana antes e acelerasse um pouco a recuperação do joelho”, contou Agüero em um documentário. “Qual era o sentido? Ainda faltavam 20 dias para o primeiro jogo. O médico me dizia: ‘Sampaoli quer que você treine. Ele acha que, sem isso, você não poderá ir para a Copa do Mundo’. Era uma pressão enorme. Absolutamente sem sentido”.

Na própria Copa do Mundo, a situação só piorou. “Sampaoli dizia ‘a’, e Beccacece dizia ‘b’ sobre o mesmo exercício”, relata uma fonte ao Infobae. “A quem os jogadores deveriam ouvir? Às vezes, Sampaoli e Beccacece simplesmente paravam de se falar. Ou Sebastián não aparecia nas reuniões da equipe”.

Sampaoli não conseguia lidar não apenas com o assistente, mas também com a gestão da equipe. “Ele não sabia como trabalhar com a seleção”, acredita a fonte. “Às vezes, Sampaoli tentava se comportar como se fosse mais importante que os jogadores. Mas eles não são apenas peças em um tabuleiro tático”.

O pico de insatisfação veio após a derrota por 0:3 para a Croácia na segunda rodada da fase de grupos – a classificação da Argentina para as oitavas de final ficou em risco. O jornalista Ariel Senosiain, no livro “El Mundial es Historias”, relata o seguinte diálogo entre os jogadores-chave e o técnico:

– Não entendemos suas instruções e não confiamos mais em você. Queremos expressar nossa opinião.

– Opinião sobre o quê?

– Sobre tudo.

– E vocês, rapazes, vão unir a equipe, conduzir os treinos e cuidar de tudo o mais?

Foi nesse momento que Lionel Messi explodiu.

– Você me perguntou dez vezes quais jogadores eu gostaria de ver na equipe e quais não. Eu nunca citei nenhum nome. Diga a todos se não for verdade.

É importante destacar: na época, Messi também não era o mesmo que estamos acostumados a ver nas últimas duas Copas do Mundo. “Ele só se comunicava com os mais próximos e compartilhava seus sentimentos apenas com eles”, diz uma fonte do Infobae com amplo acesso à vida interna da seleção argentina. “Naquele momento, Messi nem sequer falava alto no vestiário. Essa função era de Mascherano”.

Naquela conversa, estavam presentes não apenas os 23 jogadores e os três treinadores, mas também o presidente da Associação de Futebol Argentino, Claudio Tapia. Ele já sabia que os jogadores-chave planejavam essa conversa com Sampaoli, então disse a ele apenas:

– Você precisa aceitar isso.

Assim, estabeleceu-se um “duplo comando” na equipe, representado nesta foto de Sampaoli e Mascherano sobre o tabuleiro tático.

Depois disso, Beccacece quis se demitir bem no meio do torneio. Ele achava que o técnico principal não podia ceder tanto aos jogadores. Tapia evitou a saída: pediu que ele ficasse, já que a equipe ainda o ouvia.

Sampaoli ainda hoje nega a “dupla liderança”. Reconhece apenas problemas de comunicação. Em uma entrevista recente à rádio La Red, ele foi questionado:

– Os jogadores escolheram a escalação para o jogo contra a Nigéria sozinhos?

– Preciso tirar o moletom, porque está ficando quente – brincou Sampaoli. – Não, não foi assim. Depois do jogo contra a Islândia, muita coisa aconteceu. Discussões, muitos nervos, desconfiança do técnico para com os jogadores, e dos jogadores para com o técnico. Tudo porque não conseguíamos encontrar a causa do que aconteceu.

Aquela foto com Mascherano em campo… Eu apenas conversei com ele, como conversei com todos os jogadores. Então, não, sinceramente, eles não escolheram a escalação.

A Argentina venceu a Nigéria por 2:1, mas nas oitavas de final foi eliminada de forma brilhante pela França – 3:4.

“Olhem para os nossos rostos”, disse Agüero. “Nos últimos Mundiais, eles expressavam tristeza. Neste, havia a sensação de que as coisas eram como deveriam ser. Estávamos irritados, mas sabíamos que tudo terminaria assim. Tudo estava nas mãos da Federação. Precisamos corrigir a situação para a próxima Copa do Mundo.

Se tivéssemos chegado às semifinais ou à final, teria sido um milagre. Estávamos em um estado terrível.”

“Um completo absurdo”, confirmou Nicolás Otamendi. “Nada saía como queríamos. Não havia um bom ambiente. Gostem ou não, isso se reflete em campo. Não conseguimos encontrar o estilo que o técnico buscava. Entender suas ideias era difícil.”

“Não gosto de falar sobre o que acontecia no vestiário”, admitiu Messi. “Mas, definitivamente, foi uma Copa do Mundo anormal em muitos aspectos. Vou parar por aqui.”

Scaloni viu tudo isso de dentro. Ele foi assistente de Sampaoli na Copa de 2018 e se tornou o técnico principal sem experiência

O segundo assistente naquela seleção, após Beccacece, era Lionel Scaloni, responsável pela análise dos adversários e pela comunicação com os jogadores. Antes, ele havia trabalhado na comissão técnica de Sampaoli no Sevilla, o que o levou à seleção.

“Não sei se foi uma decepção”, refletiu Scaloni sobre os resultados da Copa de 2018. “As expectativas iniciais também não eram das melhores. Chegamos à Copa do Mundo em uma situação complicada, quase não nos classificamos. Mas, com grandes jogadores, todos veem você como um adversário forte, mesmo que não seja favorito. No fundo, sabíamos que não estávamos jogando no nosso melhor, não estávamos no auge da forma. O grupo era difícil. Mas também não éramos uma equipe que pudesse atuar no nível exigido por uma Copa do Mundo. É importante entender: Croácia e França eram melhores que nós. Nos faltava confiança extra e a preparação adequada. Por isso, as coisas não deram certo.”

Após a Copa do Mundo, a AFA se separou de Sampaoli e da maior parte de sua comissão técnica. Apenas Scaloni e outro assistente, Matías Manna, permaneceram. Tapia sugeriu que eles tentassem trabalhar com a seleção Sub-20, que também estava passando por mudanças na comissão. Na época, Scaloni enviou uma mensagem para Sampaoli: “Quero ficar na AFA”. “Provavelmente ele não gostou”, disse Lionel dois anos depois. “É compreensível: o assistente quis se tornar o principal. Desde então, nunca mais conversamos. Mas eu fiquei por causa do trabalho na Sub-20. Nem passava pela minha cabeça que estaria na equipe principal. Essa proposta veio depois”.

Paralelamente, a AFA convidou Mauricio Pochettino e Diego Simeone para assumir a seleção. Eles recusaram. “Ninguém queria pegar essa equipe”, disse Nicolás Tagliafico. No final, a proposta foi para Scaloni, que não tinha nenhuma experiência como técnico principal. Ele só havia treinado crianças de 10 anos.

Diego Maradona ficou chocado: “Ele é um ótimo cara, mas não consegue nem organizar o trânsito. Como vocês podem entregar a seleção para o Scaloni? Estamos todos loucos? Tudo bem que ele sabe fazer um bom assado (prato típico de carne grelhada), mas treinar a seleção nacional?!”

“Até hoje não sei se sou bom o suficiente”, disse Scaloni em 2020. “Ou talvez a seleção seja demais para mim? Os seis jogos como interino foram muito úteis. Inconscientemente, eu trabalhava pelo futuro da equipe. Não sentia que estava lutando pelo cargo. Eu trabalhava para quem viesse depois de mim. Depois, me disseram: ‘Estamos satisfeitos, os torcedores estão satisfeitos, os jogadores estão satisfeitos. Continue’. Quase dois anos se passaram, e agora sinto que estou pronto para treinar. Não faço ideia de onde vamos parar”.

Mas sabemos para onde essa nomeação inesperada levou.

Primeiro passo de Scaloni: montar a comissão técnica certa

Ele incluiu pessoas que entendem perfeitamente o que significa a seleção argentina. Roberto Ayala (capitão de longa data, que jogou em três Copas do Mundo, quatro Copas América e duas Olimpíadas), Walter Samuel (duas Copas do Mundo e uma Copa América) e Pablo Aimar (duas Copas do Mundo e duas Copas América).

Scaloni cercou-se não de pessoas que apenas concordariam com ele, mas de indivíduos com um status muito maior no futebol local do que ele mesmo. César Luis Menotti, com quem a Argentina se tornou campeã mundial em 1978, disse: “Quando ele contou que Samuel, Ayala e Aimar fariam parte da comissão técnica, fiquei tranquilo. Vocês só precisam ver o relacionamento que eles têm. Eles não falam muito, não dizem bobagens e não fazem promessas vazias. Tudo com moderação. E cada um tem um papel claro. O técnico é o técnico. Os assistentes são os assistentes. Eles vivem como quatro amigos. São pessoas muito boas, sem extremismos. E isso é transmitido aos jogadores.”

“Temos uma ótima comissão técnica, que não deixa nada ao acaso”, acredita Leo Messi. “Sempre acontece o que eles dizem antes de cada jogo.”

Também desempenham papéis importantes na comissão técnica o analista de vídeo Matías Manna, o preparador físico Luis Martín e o treinador de goleiros Martín Tocalli.

“Lionel não faz nada sem motivo”, contou Ayala na biografia de Scaloni. “Se ele planeja um jogo, faz isso inúmeras vezes. Ele tem uma frase engraçada: ‘Há mudanças’. Ele a repete com frequência. Quando Scaloni aparece de manhã com seus *pensieri* (do italiano ‘pensamentos’), já rimos, pois sabemos o que nos espera.”

*Pensieri* é uma piada interna da comissão técnica. É assim que chamam as reflexões noturnas de Scaloni antes dos jogos.

Outra frase importante de Scaloni: “Quero saber o que vocês pensam”. Na seleção argentina, a comissão técnica toma todas as decisões importantes sobre a escalação e a convocação para grandes torneios em conjunto. “Não o vemos como um chefe”, diz Ayala. “Mas sim como uma referência que nos ajuda a crescer. Ele nos ouve, dá espaço para nos expressarmos. Estamos muito confortáveis na equipe. E Scaloni é um trabalhador incansável, o que nos motiva a trabalhar.”

Segundo passo de Scaloni: devolveu a alegria de jogar pela Argentina

Um grande apoio para Scaloni no início de seu trabalho foi o campeão mundial de 1978, Menotti, que em janeiro de 2019 foi nomeado diretor das seleções da AFA. “Estou aqui para ajudar o técnico da maneira que puder”, disse ele na apresentação. “Ajudarei a todos, mas o técnico é o principal, e eu tenho um papel de apoio. Tentarei ajudá-lo a cometer o menor número possível de erros.”

A primeira lição de Scaloni veio ainda durante as negociações com a AFA. Menotti insistiu para que Scaloni não aceitasse um contrato curto. “Um dia, [o presidente da federação] Tapia me ligou propondo uma reunião, e eu não estava no prédio da AFA desde 1982… – contou Menotti ao Clarín. – Foi quando ele me disse que havia escolhido Scaloni. Eu não o conhecia, então o convidei para uma conversa. Falamos por muito tempo. Aconselhei-o a não aceitar o contrato de dois meses que a AFA insistia, mas sim a fechar um acordo para toda a qualificação, com renovação em caso de classificação para a Copa do Mundo.”

Na apresentação, Menotti disse:

“Acho que a Argentina enfraqueceu por mil razões. Não se trata de sucesso ou fracasso das equipes – afinal, nossa seleção recentemente chegou à final da Copa do Mundo.

Parece-me que a conexão foi perdida. Adoro quando os jogadores sabem o que significa jogar pela seleção. Eu senti isso na pele. Éramos esperados em todas as províncias. Sou obcecado pela ideia da seleção argentina e continuo sonhando com uma equipe nacional que venha do povo.”

Esse foi o primeiro ensinamento que Scaloni recebeu de Menotti. “Ele deixou claro: ser convocado para a seleção é um privilégio – lembrou Lionel em 2020. – Se você vem, faz isso com entusiasmo. Foi isso que conversamos com os novos jogadores. Não deve haver sentimentos pesados. Você nem sequer é obrigado a vir. E ninguém garante seu lugar no time titular. Mais de trezentos jogadores esperam pela chance de vestir essa camisa. É ótimo quando os convocados dizem aos jornalistas: ‘Meu sonho se realizou’. Depois, é preciso provar isso, sem se ressentir se não for escolhido. Agora temos um bom grupo: os meninos se dão muito bem e se tratam com simpatia. Eles entendem que qualquer um pode ocupar o lugar de qualquer um. E isso é o mais importante: eles não acham que, após dois bons jogos, garantiram o lugar no time por 10 anos.”

Era importante recuperar a sensação de felicidade ao jogar pela seleção. “Tentamos trazer algo infantil dos jogadores – disse Scaloni logo após vencer o prêmio The Best da FIFA. – O sonho de infância. Incutimos o desejo de conquistar algo pelo país, pela nossa camisa. Nos concentramos no sentimento de pertencimento: não há nada acima da seleção argentina. Eles entenderam. Assim, a equipe surgiu. Não diria que é invencível, mas está pronta para qualquer desafio.”

Além disso, Scaloni iniciou uma reestruturação e confiou em jogadores que antes não eram tão importantes na seleção argentina. Por exemplo, Rodrigo de Paul estreou em outubro de 2018, enquanto Leandro Paredes e Giovani Lo Celso ganharam papéis mais significativos sob o comando de Scaloni.

Terceiro passo de Scaloni: criou conforto para Messi e o conectou à equipe

Uma questão muito importante foi o futuro de Leo Messi. Após o pesadelo da Copa do Mundo de 2018, a seleção novamente enfrentou a ameaça de sua saída. “Quando eu era assistente na Copa do Mundo na Rússia, também estávamos próximos”, contou Scaloni em 2025. “Conversávamos constantemente, e ele sabia muito bem o que eu pensava na época. Isso foi um momento importante.”

A conversa com Messi foi uma das primeiras decisões de Scaloni como técnico principal. “Vamos convocar muitos novos jogadores e queremos que você se junte a nós e aproveite isso”, disse Scaloni, segundo seu biógrafo Diego Borinsky.

O que Scaloni fez por Messi?

1. Aproximou-o da equipe – ele deixou de ser visto como um “pôster na parede”.

“Quando Scaloni foi nomeado, ele organizou uma chamada de vídeo com Messi”, conta Borinsky. “Ele queria transmitir que um novo capítulo estava começando e que Leo fazia parte dele. No final, Scaloni cumpriu todas as promessas. Ele é o técnico mais próximo de Messi em termos de diferença de idade. Eles até foram companheiros de equipe (em 2005 e 2006). Scaloni criou condições ideais para que ele se sentisse confortável e rendesse ao máximo. Além disso, aproximou-o da equipe: tirou o pôster de Leo da parede e colocou uma foto no criado-mudo.”

“Eu disse aos meninos: ‘Leo é um de nós’”, relembrou Scaloni em 2020. “Os jogadores mais jovens começaram a se aproximar dele, conversar e compartilhar experiências. Isso ajudou.”

2. Fez Messi parte da equipe.

“Conectar Messi com os demais não é fácil”, admitiu Scaloni. – Ele dá tanto em campo que há o risco de a equipe não conseguir acompanhá-lo.

Acho que fizemos algo para superar as dificuldades de jogar com Messi. É importante que todos se sintam livres e se dediquem ao máximo. Os novos jogadores também são bons, caso contrário, seria impossível construir uma equipe em torno de Messi. Leo precisa de um estilo que poucos podem jogar. Nossa juventude é capaz disso.

3. Tirou de Messi o peso de ser o líder principal.

Por muitos anos, esperavam de Messi algo semelhante a Maradona: praticamente uma vitória solo na Copa do Mundo. Ou pelo menos na Copa América. Essas expectativas eram muito pesadas para Leo, por isso Scaloni reduziu a pressão.

Após a derrota para a Arábia Saudita na partida de estreia da Copa do Mundo de 2022, ele se reuniu com os jogadores que convocava com mais frequência: Emiliano Martínez, Nicolás Otamendi, Rodrigo De Paul, Lautaro Martínez. Pediu que animassem a equipe e “não pressionassem o camisa 10”, mas o deixassem em paz.

Durante toda a noite, os treinadores discutiram a derrota – e combinaram fazer de tudo para que os jogadores não os vissem abatidos. No treino seguinte, a Argentina apareceu com bom humor – com a crença de que ainda havia chances. Apenas energia positiva.

4. Apesar da forte adaptação a Messi, Scaloni insiste: a Argentina é uma equipe, e não apenas Leo.

Antes da partida contra a Austrália, Scaloni foi questionado sobre Messi no contexto dos rumores sobre problemas de saúde de seu pai. O treinador desviou o foco:

“A equipe é o que passa por qualquer situação, boa ou ruim. Sempre é melhor dividir isso com os amigos. Todos nós sentimos isso. Messi também. Prefiro não falar mais sobre isso.”

Após o jogo contra a Jordânia, uma nova pergunta sobre Messi.

“Já não sei mais o que dizer sobre o Leo”, respondeu Scaloni. “Mas, se posso adicionar algo, é que hoje ele poderia ter jogado os 90 minutos e se tornado ainda mais lendário. Mas ele preferiu que os companheiros tivessem tempo de jogo. Leo pensa no time.”

Aliás, a palavra grupo é uma das mais frequentes nas entrevistas de Scaloni. Grupo, e não Messi.

Leo retribui o cuidado: “Entre nós há uma confiança enorme. Podemos falar sobre tudo.”

Quarto passo de Scaloni: a atmosfera acima de tudo

Em março de 2019, logo após a nomeação de Scaloni como técnico permanente da seleção, o site Infobae escreveu que ele mudou até a forma como o time se alimenta. Antes, os jogadores sentavam em pequenos grupos com companheiros habituais, mas com Scaloni, todos foram colocados em uma grande mesa. “Com a chegada dessa comissão, muitos detalhes como esse mudaram”, observou Lautaro Martínez.

Em maio de 2026, algumas semanas antes do início da Copa do Mundo, foi lançada a série documental El método Scaloni (“O Método Scaloni”). Segundo seus criadores, o objetivo é explicar o fenômeno do técnico da seleção, que se resume ao lema: “Se estamos bem, somos capazes.”

A principal tradição da Argentina é se reunir para assados e churrascos coletivos, que os jogadores preparam junto com os cozinheiros. A comissão técnica acredita que esse tipo de lazer ajuda a relaxar durante torneios tensos.

Na última Copa do Mundo, os argentinos até preferiram a universidade do Catar a um hotel cinco estrelas. Tudo para ter permissão para instalar uma área de churrasco. Um representante da seleção explicou na época: “Visitamos o campus várias vezes e decidimos ficar lá não apenas porque toda a infraestrutura necessária estava disponível, mas porque poderíamos fazer assados. Isso é muito importante para nós, faz parte da cultura argentina. No Catar, queríamos nos sentir em casa, e a melhor maneira de fazer isso era dar aos jogadores o sabor de casa enquanto estavam focados no futebol.”

Durante a Copa de 2026, a tradição foi mantida – agora, o assado coletivo acontece após cada etapa importante. Por exemplo, antes do jogo contra a Jordânia, o churrasco foi feito na base em Kansas. Como relatou o Infobae, estavam presentes não apenas os jogadores e treinadores, mas toda a equipe da seleção. O The Times destacou que o próprio presidente da federação, Tapia, colocou a carne na grelha.

Um episódio ilustra bem o clima desses encontros. Enquanto aquecia o pão para hambúrgueres, Emiliano Martínez apontou para os espetos de frango e disse: “Isso é para os veganos”. Agora, o evento é descrito como um *ritual de convivencia*, ou seja, um ritual de vida em grupo da equipe.

“Eu amo esse trabalho não porque gosto do 4-3-3”, disse Scaloni. “Gosto de passar tempo com os meninos, comer churrasco, tomar mate e jogar [o jogo de cartas] truco. São essas coisas que valorizamos muito.”

Scaloni valoriza especialmente a experiência e a capacidade de se dar bem com os companheiros. Em parte por isso, quem entrou na equipe primeiro foi o Nicolás Otamendi, de 38 anos, e não o Marcos Senesi, que teve uma ótima temporada no Bournemouth. Senesi só chegou à seleção após a lesão de Leonardo Balerdi.

E mais um fato.

Desde o início contra a Suíça, nove jogadores que começaram a final da Copa do Mundo de 2022 contra a França há três anos e meio estavam em campo. Só não estavam Otamendi (que entrou aos 105 minutos do banco) e Ángel Di María, que se aposentou da seleção.

Quinto passo de Scaloni: emoções e lágrimas não são fraqueza

Um dos momentos mais marcantes da Argentina nesta Copa do Mundo foram as lágrimas de Lionel Messi após a difícil vitória sobre o Egito.

“Estava muito irritado com o pênalti”, explicou Messi após o jogo. “Senti que decepcionei a equipe em um momento crucial. Felizmente, o destino reservou algo especial, e consegui igualar o placar”.

Lionel Scaloni não conseguiu dar entrevistas após a partida. “Desculpe, estou transbordando de emoção. Que time! É tudo, preciso ir”, disse ele, com lágrimas, antes de sair da câmera.

Com ele, a Argentina é emoção e abertura.

“Eu me emociono com muita frequência”, admitiu Scaloni após o Egito. “As lágrimas vêm por si só. No vestiário também. Os caras até me chamam de chorão”.

Esse apelido – La Llorona – surgiu para Scaloni após a final da Copa do Mundo de 2022.

Ele fez um discurso antes da final: “O time vai jogar assim, Di María vai jogar pela esquerda”, e foi isso, – lembrou Emiliano Martínez na série El método Scaloni. – E depois chorou. “Sabe, eu queria dizer a vocês…” E chorava, chorava. Quando tentava falar de novo, só piorava.

“Scaloni tentou falar, mas não conseguia, e disse: ‘Pablo [Aimar], vai você’, – riu-se Leo Messi. – E ele respondeu: ‘Eu também não consigo’. Não tenho certeza se algum dos treinadores acabou falando algo.

“Agora às vezes nós o provocamos – acrescentou Rodrigo De Paul. – ‘Olha, lá vai o chorão’. Acho que foi o pior discurso pré-jogo da história.

Vale notar: nenhum dos jogadores viu nas emoções de Scaloni um sinal de fraqueza.

No final, Messi falou.

“Leo falou menos do que antes da final da Copa América, mas meus olhos se encheram de lágrimas – lembrou Ángel Di María. – Não por nervosismo, mas pela beleza do momento. Viver isso é o melhor que pode acontecer a um jogador de futebol.

Após o emocionante retorno contra o Egito, Scaloni disse: “Tática e estratégia são importantes, mas sem isso, teríamos sido eliminados.

“Isso” são justamente as emoções que às vezes o dominam no vestiário.

A Argentina percorreu um caminho enorme em quatro anos: da desunião, da desconfiança na comissão técnica e de um Messi silencioso – para uma equipe em que o treinador pode tranquilamente chorar antes da final da Copa do Mundo.

E ninguém vai dizer nada a ele – apenas vai rir em um momento conveniente.

É assim que grandes coisas são feitas.

Sofia Ramos

Ela é uma renomada jornalista esportiva, formada pela Faculdade de… More »

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8 Comentários

  1. Ótimo artigo. Scaloni realmente passa a impressão de não apenas ser um excelente treinador, mas também uma pessoa muito boa. Era exatamente o que a Argentina precisava, embora no início sua nomeação tenha me deixado com dúvidas, como se a federação estivesse em um beco sem saída e tivesse escolhido o primeiro que apareceu.

  2. Scaloni é um presente do destino para a Argentina. Um jovem treinador que conseguiu unir a equipe, transformando-a em uma verdadeira família. Onde todos estão dispostos a lutar uns pelos outros) Sabem, o treinador é realmente importante))) Especialmente em torneios de seleções. E o mais importante é que o treinador treine, e não seja um autoritário com sua própria história. Lembrem-se: 2002, Bielsa descontrolado – fracasso, com um dos melhores elencos da história da Copa do Mundo. 2006, Pekerman competente – o melhor desempenho da seleção no torneio, eliminação dolorosa para os alemães. Mereciam estar entre os quatro melhores pelo desempenho. 2010 – Maradona descontrolado. E novamente os alemães, mas uma derrota vergonhosa e total incapacidade de liderar a equipe. Acho que simplesmente não havia treinamento na equipe, toda a esperança estava em um Messi no auge no ataque, que resolveria tudo sozinho. 2014 – Sabella, não tenho muito a dizer sobre ele. Mas a fórmula funciona novamente, um treinador experiente e tranquilo – a equipe se sai bem imediatamente. 2018 – Sampaoli autoritário com muitos conflitos – e aí está o resultado. 2022, um jovem treinador que criou um ambiente familiar na equipe e aí está o resultado. Quando não atrapalham a equipe a jogar futebol, mas pelo contrário, ajudam, ouvem e ajustam onde necessário – imediatamente o desempenho e o resultado aparecem. Já esses Bielsa, Sampaoli, e, pelo amor de Deus, Maradona como treinadores. Tudo isso é prejudicial para equipes assim. Uma pena que a federação só entenda isso a cada 4 anos (

  3. Também não entendi quando ele foi nomeado, por quê e tudo mais, mas fico feliz que tudo tenha dado certo

  4. Scaloni é o principal arquiteto do sucesso da Argentina, ele criou uma equipe, e não apenas um grupo de bons jogadores, como era antes dele. Interessante pensar como seria a seleção se Scaloni tivesse Messi, Di María, Agüero e Mascherano antes dos 30 anos

  5. Artigo impressionante, mostra muito bem a transformação de 2017 para a atual equipe, que está a dois passos da eternidade

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