Futebol

Estratégia de pênaltis: como aumentar as chances de vitória em 2026

Pera aí, ele existe?

Fato estatístico: durante a partida, 79% dos pênaltis são convertidos. Na série de pênaltis pós-jogo, esse número cai para 69%. Bem menos.

Há várias explicações para a dificuldade de marcar em uma série de pênaltis: pressão enorme, cansaço, preparação específica dos goleiros, cobradores menos habituados.

Mas será que é possível aumentar as chances de sucesso? Vamos analisar os detalhes.

Importa quem bate primeiro?

Uma teoria popular entre jogadores e treinadores de futebol é que a equipe que começa a série de pênaltis tem mais chances de vencer. Quem acerta o lado da moeda do árbitro geralmente prefere bater primeiro.

Na mídia, também se fala frequentemente dessa vantagem. Em abril de 2026, antes de uma série de pênaltis em um jogo da Copa da Rússia entre Zenit e Spartak, foi mencionado que, em 60% dos casos, quem bate primeiro vence. Por sinal, o Spartak ganhou, mesmo batendo em segundo.

Esse fato se espalhou após a publicação do livro “Futebolnomics” em 2008, cujos autores, no capítulo sobre pênaltis, basearam-se em um estudo dos economistas Ignacio Palacios-Huerta e José Apesteguía. O problema do experimento foi a amostra modesta: apenas 129 séries foram analisadas. Muito pouco para conclusões definitivas.

Em grandes conjuntos de dados, a dependência da ordem dos pênaltis é praticamente imperceptível. Em 2025, o economista David Pipke, do Instituto de Economia Mundial de Kiel, analisou 7.116 séries de pênaltis: quem bateu primeiro venceu em (tambores, por favor)… 50,2% dos casos. Nada de 60% ou vantagem clara.

Portanto, a teoria sobre a importância da ordem pode ser considerada um equívoco. Além disso, historicamente, nas Copas do Mundo, a situação é inversa. A equipe que bate primeiro venceu 17 vezes em 39 séries e perdeu 22. A tendência nos últimos anos é ainda mais clara: 13 das últimas 15 séries terminaram com a vitória da equipe que bateu em segundo.

Mas isso também é, claro, uma coincidência. A amostra é ainda menor que a de Palacios-Huerta.

O mais interessante é outro dado: nas Copas do Mundo, a equipe que erra o primeiro pênalti da série perde em 82,1% dos casos.

Segundo Robbie Wilson, da Universidade de Queensland, a estratégia ideal em uma série de pênaltis depende do equilíbrio na escolha e na ordem dos batedores. De acordo com dados da Opta, as chances de sucesso do batedor diminuem a cada tentativa. Por exemplo, a conversão do primeiro pênalti é de 73%. Do segundo e terceiro, 71%. Marcar na quarta tentativa é muito mais difícil (61%). No quinto pênalti, a probabilidade de gol aumenta para 67%, mas ainda não atinge os índices das três primeiras tentativas. Há duas explicações para isso. A primeira (principal): os melhores batedores geralmente batem no início, daí a estatística. A segunda (também importante): a pressão psicológica aumenta a cada pênalti, e um erro pode levar à derrota instantaneamente.

Wilson, em sua pesquisa, aponta para outro detalhe: em nível de elite, os jogadores convertem cerca de 60% das cobranças de pênalti que podem resultar em derrota na série. E, ao contrário, se o pênalti pode garantir a vitória na série, ele é convertido em 90% dos casos (conclusão confirmada por um estudo anterior de Paul McCarthy). Isso prova a importância do fator psicológico. Wilson acredita que, com a ordem correta dos batedores, é possível aumentar as chances de vitória em 10%. Em termos simples: é necessário designar os batedores mais fracos para cobranças relativamente menos pressionantes, e os mais fortes para as mais difíceis.

Segundo Wilson, a estratégia deve ser baseada na forma como você se aproxima da bola. Para os batedores que cobram primeiro, geralmente é melhor quando os principais batedores entram em ação imediatamente. A lógica é a seguinte: os melhores batedores garantem uma vantagem ou mantêm o placar igual, caso o adversário converta todos. Nesse caso, os batedores menos fortes farão as cobranças decisivas, mas como suas tentativas podem levar à vitória, as chances aumentam.

Para os batedores que cobram em segundo, Wilson aconselha a reservar os melhores executantes para as tentativas mais tardias, quando a tensão aumenta. Raramente as primeiras cobranças decidem muito em uma série. No entanto, no momento em que for necessário igualar as chances, os batedores mais habilidosos entrarão em ação. Vale considerar outro detalhe: quando a moeda é lançada, a ordem dos batedores já está definida. Ela raramente é alterada durante a série. Embora as regras não proíbam. No entanto, uma reorganização pode ser prejudicial. Afinal, uma série de pênaltis é um fator extremamente estressante. A troca de jogadores pode aumentar a nervosidade, com o risco de não haver tempo para se ajustar e se preparar psicologicamente para as novas condições.

Explicação do autor:

«Existe a opinião de que as equipes que batem em segundo lugar estão em desvantagem, pois frequentemente estão atrás no placar, mas isso não tem uma confirmação clara. No entanto, as equipes que batem em segundo lugar frequentemente se encontram em situações em que a vitória é alcançada com um único gol, e a derrota com um erro. Por causa disso, a segunda equipe enfrenta pressão muito mais frequentemente.

Com uma compreensão adequada das habilidades dos jogadores, os treinadores podem influenciar significativamente o resultado de uma disputa de pênaltis por meio de uma seleção e posicionamento cuidadosos. Esse processo envolve tanto habilidades técnicas quanto resiliência psicológica.

Se você bate primeiro, organize os jogadores do melhor para o pior. Se bate em segundo, os resultados mostram que os jogadores mais fortes e psicologicamente resistentes devem ser designados para as quarta e quinta cobranças», diz Wilson.

Dessa forma, o sorteio no centro é um fator de pouca importância em uma disputa de pênaltis. Já a intuição e a estratégia do treinador podem realmente influenciar o resultado.

Jogadores que entram para a disputa de pênaltis erram mais?

Uma pergunta lógica, decorrente do primeiro capítulo: se uma disputa de pênaltis é inevitável, por que não escalar todos os melhores cobradores?

Infelizmente, não é tão simples. Segundo dados da Opta, desde a Euro-1996 (incluindo todas as Copas do Mundo e Eurocopas a partir desse momento), jogadores que entraram em campo no segundo tempo da prorrogação converteram apenas 57,6% dos pênaltis em disputas.

Para comparação: os jogadores do time titular foram precisos em 71,8% dos casos.

Uma ressalva necessária: essa ainda é uma amostra pequena, portanto, é preciso cautela com as conclusões.

Quando um jogador entra após o 105º minuto, geralmente se fala em substituição para os pênaltis pós-jogo. Mas, claro, essa não é uma explicação universal: às vezes, o motivo são lesões e simples cansaço.

Mas por que a taxa de conversão dos jogadores que entram nos tempos extras é tão baixa?

A principal razão é o estresse.

“Mesmo que você seja escalado exclusivamente por sua calma e habilidade em cobrar pênaltis, a intensidade das emoções nas séries de pênaltis em Copas do Mundo e Europeus já é extrema desde o início”, explica o colunista do The Athletic, autor do livro “Pressão” e de vários outros estudos sobre pênaltis, Geir Jordet. – “Mas para um jogador que entra no final do jogo, essa pressão é dobrada, pois espera-se dele um resultado concreto e tangível.”

Jordet então cita como exemplo Marcus Rashford e Jadon Sancho na final da Euro 2020 contra a Itália, que entraram exatamente antes da série de pênaltis. No torneio, eles praticamente não jogaram: Rashford acumulou 88 minutos, e Sancho, 98.

“Sua equipe, essentially, carregou o jogo nas costas até a decisiva loteria”, continua Jordet. – “E agora depende de você se os caras receberão a recompensa merecida por seus esforços titânicos. Ao mesmo tempo, você mesmo não contribuiu para esse sucesso, nem no jogo específico, nem no torneio como um todo. É essa a pressão colossal e sufocante”, diz Jordet.

No final, Rashford e Sancho não marcaram, e após seus erros, a Itália virou a série e conquistou o troféu.

Mas, às vezes, os jogadores que vêm do banco podem aumentar as chances – por exemplo, se seus chutes são pouco estudados pelo adversário.

“Goleiros e treinadores podem calcular contramedidas em detalhes, estudar a técnica, a corrida de aproximação e os ângulos preferidos”, continua Jordet. – Isso é muito mais difícil de fazer quando um jogador que, em toda a carreira profissional, cobrou no máximo três ou quatro pênaltis, ou até nenhum, enfrenta o goleiro. Nesses casos, os goleiros agem no escuro.

Mas como cobrar um pênalti?

Então, nos preparamos: selecionamos os cobradores mais fortes e psicologicamente estáveis e definimos a ordem (em teoria, até estamos prontos para adaptá-la conforme as circunstâncias). E agora o jogador se aproxima da marca, posiciona a bola, o árbitro apita e… O que fazer? Para onde cobrar?

A melhor área para o chute é, claro, o canto superior. Em 2024, analisamos mais de duas mil cobranças em três temporadas nas principais ligas e competições europeias e não encontramos nenhuma defesa no canto superior, ou seja, a conversão é próxima de 100%. O problema é que mirar lá é arriscado, pode-se até errar o gol. As próximas direções mais difíceis para o goleiro são os chutes no meio, abaixo do travessão.

A pior opção são os chutes na área à esquerda do centro (para o cobrador) em altura média. Essa área é escolhida com frequência, mas a conversão é menor do que em outras áreas do gol. Uma possível explicação é a predominância de destros sobre canhotos. Destros cobram mais para a esquerda, pois é mais confortável. E os goleiros têm mais facilidade para se impulsionar com a perna direita dominante.

O ponto de impacto é o fator mais importante, mas não o único para o sucesso. É preciso considerar mais algumas coisas.

1. A pausa antes da corrida é importante. Segundo Jordet, ela tem um efeito triplo: a) permite acalmar-se, reduzir os batimentos cardíacos e normalizar a respiração; b) ajuda o batedor a tomar a iniciativa e ditar o ritmo; c) desestabiliza a concentração do goleiro e interrompe seu ritmo.

2. O contato visual do batedor com o goleiro. Jordet acredita que batedores que rapidamente se viram de costas para o goleiro durante a preparação para o chute, olhando para a bola ou para o chão, erram com mais frequência. Ou seja, é necessário pressionar psicologicamente o oponente, transmitindo confiança com o olhar.

3. A corrida de aproximação importa. Estatisticamente, chutes realizados após uma corrida de dois passos ou menos têm menor taxa de conversão.

Agora, alguns pontos para os goleiros.

1. Defender um pênalti por reação é praticamente impossível, explicou Gleb Cherniavsky ainda em 2020. Repetimos para reforçar: em média, os goleiros levam 0,73 segundos para reagir, processar a informação e chegar à trave. Enquanto isso, a bola, após o chute de um futebolista profissional, leva em média 0,4 segundos para chegar ao gol. Portanto, para defender o chute, o movimento precisa ser iniciado antecipadamente.

Se ainda assim a reação for baseada na bola, as maiores chances de defesa ocorrem apenas em chutes centrais. Mesmo assim, muito depende do chute: quanto mais forte, menor a probabilidade de defesa.

2. A preparação para a série de pênaltis e o estudo da maneira como os batedores chutam são a chave para o sucesso do goleiro na série. E quase todos já entenderam isso.

“Eu não apoio quem não se prepara”, contou o goleiro do PSG e da seleção, Matvei Safonov. – Na minha opinião, o conhecimento oferece grandes vantagens. Como não aproveitá-las? Acho que, se você não estudou nada, simplesmente não está completamente preparado para o jogo.

É claro, há jogadores que podem ser estudados por muito tempo, mas não haverá respostas claras. Eles chutam tanto para os lados quanto para o centro, e alternam de forma inteligente. No entanto, há muitos jogadores cujos chutes podem ser previstos com antecedência. Ter esse conhecimento é uma sensação muito agradável. Lembro-me que, no Krasnodar, havia teorias para goleiros, onde também assistíamos a pênaltis: você assiste uma, duas, três vezes – e encontra os padrões necessários.

3. Ler os sinais não verbais do batedor é uma habilidade útil. “Pela expressão facial ou pelo comportamento dos jogadores, também é possível determinar a direção do chute”, continua Safonov. – É como os tells no pôquer (pistas que os oponentes dão durante a distribuição). Você observa o ângulo de corrida do batedor, com qual pé ele começa a se mover, quais pausas faz, que olhares lança, em que parte do ponto branco ele coloca a bola. Às vezes, a decisão pode ser vista pelo que o jogador faz enquanto carrega a bola nas mãos.

4. As duelos psicológicos com o batedor são uma parte importante da série de pênaltis. Como mencionado anteriormente, o contato visual, as imitações e outros jogos mentais podem confundir e influenciar a execução do chute. No entanto, é importante não exagerar e manter a concentração.

5. Se não conseguir defender ou adivinhar, é preciso continuar tentando. Aqui entra o fator psicológico. Não vale a pena ficar no centro após um fracasso – em um nível intuitivo, essa tática é lida como aceitação da derrota. Os jogadores do outro time, subconscientemente, sentem a facilidade e não têm medo de chutar para o canto.

Conclusões

● Não importa se a equipe começa a série ou bate em segundo, mas a ordem dos batedores pode fazer diferença.

● A preparação psicológica é tão importante quanto as habilidades técnicas do jogador. Uma ideia interessante de Sergei Ignashevich: pênaltis decisivos devem ser cobrados por jogadores mais jovens. Eles lidam melhor com o fracasso, e seus erros não afetam tanto a psicologia da equipe: “O ponto fraco dos jogadores experientes é que eles carregam um peso maior de responsabilidade. E o erro de um jogador respeitado afeta tanto ele quanto seus companheiros”.

● As configurações não verbais (estilo de corrida, comportamento antes do chute, expressão facial, olhar) têm o mesmo impacto que a escolha da direção do chute.

● Jogadores que entram como substitutos antes da série erram mais do que os titulares, que, em teoria, deveriam estar mais desgastados fisicamente.

● Se você é um participante da Copa do Mundo, tenha cuidado com nossas dicas. Uma série de pênaltis é um processo complexo, que depende de muitos fatores. Uma preparação cuidadosa para o adversário pode aumentar as chances, mas o sucesso também é influenciado por coisas que não podem ser previstas: o comportamento dos torcedores atrás do gol, o clima, a resiliência psicológica do jogador ou até mesmo seu humor em um dia específico.

Ângelo Almeida

João Pedro Silva é um renomado jornalista esportivo português, formado… More »

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10 Comentários

  1. Bom, ótimo. Agora só falta analisar a cor da pele dos batedores e desmistificar a ideia de que negros batem mal pênaltis. O que o computador Opta diz sobre isso? Ou esse tipo de pergunta pode levar à expulsão do mundo científico?

  2. Acho que mais cedo ou mais tarde vão proibir o batedor de parar durante a corrida. Parece bastante injusto.
    Pênalti é uma loteria e quase um outro tipo de futebol. Se os melhores jogadores da atualidade e da história, que passaram por ‘tudo e mais um pouco’ no jogo, não conseguiram converter: Platini, Zico, Sócrates, Maradona, Baggio, Van Basten. Marcavam de qualquer posição, sob forte marcação. Mas com calma e sem pressão física, não.

    1. É o cúmulo da injustiça. Parece horrível: o batedor parece estar brincando de ‘cachorrinho’ com o goleiro. Enquanto isso, os goleiros são cercados de proibições, como não poder sair da linha do gol, etc. Ou seja, o pênalti deixou de ser uma disputa entre o executor perfeito (com chute preciso e forte, além de controlar os nervos) e um goleiro capaz de se jogar mais rápido, mais alto, mais forte, para se tornar apenas uma brincadeira de ‘cachorrinho’ do batedor com o cara no gol, que nem pode sair da linha alguns centímetros.

  3. Provavelmente porque é uma loteria mesmo. Mas nem todos os control freaks conseguem aceitar isso

  4. Tem que bater o pênalti como o vovô Shearer ensinou: corrida e chute forte. Veja os pênaltis dele contra a Argentina em 1998 ou contra a Alemanha em 1996. Nada de pulinhos, dancinhas ou outras firulas. Simplesmente chute

  5. Então continua sendo uma loteria. Claro que existem técnicas que aumentam suas chances. Mas ainda depende muito do acaso. Como no pôquer: você pode ser mestre em ler seus oponentes, mas se sempre receber cartas ruins, não vai ganhar.

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