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Didier Deschamps – um homem muito inteligente – Caixa atrás da escola nº12

Admiramos a seleção francesa – e, claro, com razão, mas parece que, à sombra do trio de ataque Mbappé-Dembélé-Ousmane, fica um homem importante. Didier Deschamps. Esta é a sua quarta Copa do Mundo: em 2012, assumiu uma equipe que, nos últimos seis anos, não estava no seu melhor nível e que periodicamente se afundava em conflitos.

Nos 14 anos seguintes, a França conquistou a vitória na Copa do Mundo de 2018, chegou à final da Copa do Mundo de 2022 e à final da Euro 2016. Deschamps anunciou, antes mesmo do torneio nos EUA, que deixaria a seleção, mas trouxe para esta Copa do Mundo, aparentemente, o elenco mais brilhante com o qual já trabalhou.

Essa estabilidade e esses resultados não podem ser subestimados. Assim como não se pode atribuir o sucesso apenas à presença de superjogadores. Primeiro, é preciso saber trabalhar com as estrelas. Segundo, já vimos no último mês como grandes seleções foram eliminadas porque o técnico à beira do campo não estava à altura da equipe. Deschamps está à altura há 14 anos.

Como ele faz isso?

Fala pessoalmente para convencer da importância de cada um

Em 2016, o zagueiro Adil Rami, que jogava pelo Sevilla e pela seleção francesa, não entendia Deschamps: parecia-lhe que o técnico era muito rigoroso. Como se estivesse monitorando cada passo. Rami lutava pela seleção, pela bandeira, mas não pelo treinador.

Na Euro 2016, Adil começou como zagueiro central titular – disputou quatro jogos de 90 minutos. Mas, por acúmulo de cartões amarelos, perdeu o jogo das quartas de final contra a Islândia. Antes da semifinal contra a Alemanha, Deschamps bateu na porta do quarto de Rami. Para informar pessoalmente: amanhã, outro par de zagueiros entraria em campo – Laurent Koscielny e Samuel Umtiti.

Rami chorou, mas agradeceu pela honestidade, por Deschamps ter dado a notícia pessoalmente, e não por meio de assistentes ou na preleção: “Treinador, no almoço vou sorrir e brincar. Não pense que não me importo. Apenas não quero mostrar à equipe o quanto está sendo difícil para mim”.

Na Copa do Mundo de 2018, Rami não jogou nenhum minuto, mas se sentia uma parte importante da equipe. Deschamps sempre encontrava uma oportunidade para dizer algumas palavras. Às vezes, banais e simples, como “como você está?”, outras vezes mais importantes – agradecendo pelo profissionalismo e pela influência no ambiente da equipe.

Deschamps não pedia nada em troca, mas Rami aceitou seu papel e se dedicou a ele. Por exemplo, pediu ao técnico para liberar a equipe para ir à cidade após a primeira rodada da Copa. Ou animava quem estava triste: “Às vezes, eu me aproximava de um jogador que não havia jogado e dizia, como se o técnico o tivesse elogiado. Por exemplo: ‘Ouvi ele dizer que você foi magnífico no treino’.

Aquele título de campeão, Rami também considerou como sua vitória.

Na Copa do Mundo nos EUA, a tarefa de Deschamps é ainda mais complexa – o elenco conta com muitas estrelas. Um exemplo ilustrativo é o caso de Ryan Cherki. Após a vitória sobre a Suécia, ele reagiu de forma rude ao cumprimento de Deschamps, tentando se afastar. Porém, depois do jogo contra o Paraguai nas oitavas de final, onde Ryan atuou apenas um minuto a mais, sua atitude foi completamente diferente. Ele celebrou com os companheiros usando um chapéu napoleônico e abraçou o técnico.

É claro que essa mudança reflete uma conversa. Um diálogo pessoal.

O inteligente Antoine Griezmann já havia observado: Deschamps parece saber tudo sobre cada jogador. Ele sabe quem abordar após o jogo e quem é melhor conversar em particular, longe das câmeras.

Aprende com os jovens, em vez de reclamar

Em 2018, Deschamps fez uma reflexão interessante sobre como as gerações de jogadores mudam e como cada uma exige uma abordagem específica.

“Eles [a nova geração] são diferentes, querem tudo imediatamente. Sentem-se poderosos, acreditam que a tecnologia lhes dá controle sobre as gerações mais velhas. No meu tempo, um jovem de 18 anos não seria contratado por um grande clube. Mas é justo dizer que eles também trabalham mais para alcançar tudo mais rápido.

Quero entender quem eles são, o que há por trás dos nomes. Cada um é único, com suas próprias perspectivas de vida. Sempre que possível, preciso me sintonizar com a deles. Só assim poderei uni-los em uma única equipe.”

Didier não abordou a questão de uma posição de autoridade (como se dissesse “eu venci tudo, aprendam comigo”), ele tentou entender a nova geração. Via neles não apenas jogadores de futebol, mas também pessoas. Quem eles são e como vivem.

Por exemplo, consultou seu filho Dylan. Ele não está ligado ao futebol – formou-se em uma escola de negócios em Londres e trabalhou como representante comercial do banco de investimentos Morgan Stanley em Londres.

“Meu filho me ajudou muito a entender a nova geração. Conversamos muito sobre isso. Ele me contou que tipo de música eles ouvem, como se comunicam, por que passam tanto tempo nas redes sociais, quais são seus hábitos. Até fiz anotações, registrei alguns nomes de rappers ou gírias. Mas o mais importante: eu queria entender a psicologia da nova geração.

Deschamps inicialmente lutou contra as redes sociais e tentou substituí-las por cartas e livros (lazer mais familiar para ele), mas depois ele mesmo incentivou os jogadores a postarem algo no Instagram.

“Depois da Euro 2016, eu mudei”, contou Deschamps. “Na seleção, surgiram muitos jogadores que pertencem a outro tempo. Eles esperam mais confiança, envolvimento emocional, palavras de apoio e carinho da minha parte. Eu entendi que, se não aceitasse essas regras, teríamos problemas. Acho que a nossa geração precisava menos de comentários carinhosos. Até mesmo os jogadores que não eram escalados.”

Tentando entender os jovens, ele não apenas reduziu a probabilidade de conflitos, mas também conquistou confiança. Para que suas ideias e sugestões fossem recebidas com mais lealdade. Em certa ocasião, pediu ao assistente Guy Stéphan que comprasse para todos os jogadores as autobiografias de Alex Ferguson e Phil Jackson (treinador lendário do “Chicago Bulls” e “Los Angeles Lakers”). Sem pressão de que precisavam ler obrigatoriamente.

“Na véspera do jogo contra a Bielorrússia, desci ao saguão e fiquei chocado”, relembrou o jogador da seleção Olivier Giroud. – Kylian, Raphael [Varane], Dembélé e mais alguns estavam sentados na área de descanso e discutindo animadamente a autobiografia de Phil Jackson. Meu Deus, eu nem tinha certeza se o Ousmane sabia ler!”

Talvez, graças a Deschamps, o meme sobre o ditador Mbappé não afetou a atual seleção francesa, e até o contrário. A equipe cooperava, e o próprio Deschamps, brincando, se curvava a Mbappé quando o substituiu após o doblete contra a Suécia.

Isso não foi apenas divertido e fofo, foi um sinal: eu sou um de vocês.

Sabe perdoar e ficar em segundo plano

A envergadura da personalidade de Deschamps é tão grande que ele não precisa se afirmar às custas de pequenas mágoas.

André-Pierre Gignac gritou com Deschamps no vestiário do “Marseille” em 2011, e cinco anos depois entrou como substituto na final da Euro em casa pela seleção francesa. Histórias semelhantes aconteceram com Dimitri Payet (reclamou do técnico na mídia), Adrien Rabiot (recusou-se a viajar para a Copa do Mundo de 2018 por e-mail – para não ficar no banco de reservas) e Karim Benzema (ficou chateado por não ser convocado para a seleção devido ao escândalo do vídeo de Valbuena e criticou o técnico).

Cada um deles recebeu uma nova chance depois. Rabiot ainda está na seleção.

Deschamps tem uma sensibilidade aguçada para os jogadores e o clima da partida – por isso, ele se afastou quando Paul Pogba fez aquele discurso no intervalo contra a Argentina (1:1, que depois virou 4:3) nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2018.

Por isso, orientou os jogadores (já aqui – na Copa do Mundo de 2026) a ficarem mais próximos de Mbappé e a protegê-lo de possíveis confrontos com os paraguaios, temendo que o líder fosse provocado emocionalmente.

Por isso, ele não permite que a imprensa critique os jogadores, mesmo através de perguntas, sempre usando “nós” e “nossa equipe”. Por exemplo, após a Euro de 2021, ele defendeu Mbappé (que perdeu um pênalti contra a Suíça) em nome de todo o país. Mbappé admitiu mais tarde que precisava muito desse apoio na época.

Após a vitória na Copa do Mundo de 2018, Deschamps agradeceu não apenas aos jogadores, mas a toda a equipe – administradores, assistentes e equipe médica.

A palavra-chave que aparece nas entrevistas dos jogadores da seleção francesa é confiança.

No entanto, Deschamps não é um bom velhinho. Ele é realmente um vencedor.

Ele não tenta agradar. Os jogadores entendem que, se cruzarem a linha, terão que reconquistar a chance de entrar na seleção. E isso será difícil. Deschamps é justo, mas também exigente.

Transmite confiança e se adapta

A confiança dos jogadores e a magnitude da personalidade de Deschamps criam a sensação de que até mesmo o jogo mais difícil não se transformará em uma catástrofe.

O ex-capitão da seleção francesa e campeão mundial de 2018, Hugo Lloris, disse que Deschamps transmite calma com seu comportamento.

Nesta Copa do Mundo, a França não vacilou nem entrou em pânico ao enfrentar um Paraguai raivoso e agressivo (1:0), que não permitiu a criação de oportunidades. A França continuou jogando no seu estilo e esperando a chance. E o mais importante – praticamente não permitiu nada em seu próprio gol. Mesmo na situação mais estressante.

No entanto, Deschamps não finge calma quando é necessário agir.

Na final de 2022, Deschamps fez substituições já aos 41 minutos – tirou Dembélé e Giroud. A França perdia para a Argentina por 0:2 e não conseguia entrar no jogo. Aos 71 minutos, tirou o líder Griezmann (o placar ainda estava 0:2) – e acabou virando o jogo. Quase vencendo.

No jogo contra o Senegal, Deschamps mudou a posição de Michael Olise no intervalo.

Deschamps sempre se adapta. Às qualidades dos jogadores, à nova geração ou à quantidade de estrelas no elenco.

A França de 2018 era mais uma equipe de contra-ataques, com grande influência de um centroavante de referência (Giroud). A França de 2026 já é super ofensiva, com três estrelas muito diferentes. O fenômeno Mbappé, a máquina de pressão Dembélé e o criador Olise.

Em algum lugar no meio está a equipe de 2022, com Griezmann mais próximo do meio-campo.

Parece simples: não critique os jogadores publicamente, tente entendê-los, dê a eles um plano claro, intervenha em situações difíceis, confie, mas também inculque responsabilidade, seja alguém que transmita calma.

Mas é fácil apenas na teoria. O vestiário do futebol é um lugar duro, onde pouco importam o conhecimento, a tática e os títulos passados; é necessário também ter uma personalidade forte para que 26 pessoas ambiciosas e às vezes egoístas sigam você.

Yara Brito

Ela é uma renomada jornalista esportiva, formada pela Faculdade de… More »

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15 Comentários

  1. Acho que a França, após a geração de Zidane, passou por uma transição, e Deschamps assumiu uma nova grande geração. Mas, no exemplo de Portugal, podemos ver o quão importante é um treinador para que superjogadores mostrem resultados. Respeito ao Deschamps

  2. Recentemente, comecei a pensar sobre a trajetória de Deschamps como treinador – ele soube converter muito bem sua autoridade como capitão de uma seleção campeã em oportunidades concretas e soube aproveitar sua chance.
    Depois do triunfo de 98, em 2000 ele levantou a Taça da Europa, em 2001 ficou no banco durante toda a final da Liga dos Campeões contra o Bayern e alguns meses depois já estava comandando o Monaco, com o qual chegou àquela mesma final da Liga dos Campeões contra o Porto de Alenichev😂 Depois não teve medo de ir para a Série B e para um Juventus que não lhe era estranho.
    Enfim, já naquela época era claro que Deschamps sabia trabalhar como treinador. E a nomeação para a seleção foi merecida, no lugar do ex-colega de seleção Blanc, que basicamente não deu certo em lugar nenhum.

    1. Aliás, Zidane também se encaixa em todos os aspectos como treinador para esta França, na minha opinião, uma ótima escolha de treinador..

    2. Deschamps é o único que ganhou a Liga dos Campeões, a Copa do Mundo e a Europa como capitão em campo na final. Experiência colossal

  3. No geral, Deschamps está com 4+, a única apresentação que não gostei foi a da França na Euro 2024, mas aparentemente havia muitos problemas: a má forma de Griezmann afetou, e outros, , agora aparentemente a maioria dos problemas foi resolvida (devido à ótima forma de Mbappé, Olise, Dembélé) especialmente na criação de chances de gol (um dos principais problemas na Euro 2024)

  4. Uma trajetória e experiência dessas como treinador, e ele poderia simplesmente estar falando sobre pessoas do futebol e não do futebol)

  5. Ele poderia ter se tornado um comentarista e ficar falando sobre pessoas não relacionadas ao futebol. Didier escolheu outro caminho

  6. A maioria dos bons treinadores são ex-meias centrais. Poderia contar mais: o que aconteceu com o time na final do Catar. Estavam jogando de brincadeira, talvez?

  7. É evidente que Deschamps é um psicólogo muito forte por natureza. Nem todos têm essa capacidade de sentir as pessoas

  8. 100%
    O elenco da França em uma hipotética Copa do Mundo de 2010 não era nada impressionante, além de uma defesa decente e Ribéry, era uma seleção bem mediana

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