Futebol

A maldição do quinto jogo do México – punição pelo escândalo Los cachirules

Devido ao escândalo com a equipe juvenil.

O México está realizando com confiança a Copa do Mundo de 2026 em casa: após três vitórias sem sofrer gols na fase de grupos, já eliminou o Equador nas oitavas de final e agora disputará uma vaga nas quartas de final contra a Inglaterra.

Antes mesmo do início das eliminatórias, o comentarista Roman Naguchev mergulhou no misticismo: descobriu-se que a seleção foi perseguida por mais de 30 anos pela “maldição do quinto jogo” nas Copas do Mundo.

A partida contra a Inglaterra é a quinta do México no torneio. A equipe só disputou tantas partidas em uma única edição em duas ocasiões na história: agora e em 1986, quando sediou o evento. Eles interromperam uma série negativa que durava mais de três décadas.

Os supersticiosos mexicanos acreditam seriamente que isso foi um castigo das forças superiores pelo maior escândalo da história do futebol mexicano, que fez a seleção perder a Copa do Mundo de 1990, embora a culpa tenha sido da equipe juvenil. O incidente ficou conhecido como Los cachirules (em tradução livre, “impostores”).

O que aconteceu?

Em 1988, para se classificar para a Copa do Mundo Sub-20, documentos de jogadores foram falsificados. Tudo foi descoberto graças a um anuário

A seleção mexicana Sub-20 não se classificou para o mundial em 1987 (ficou de fora devido a critérios de desempate), e não podia perder o torneio seguinte.

O presidente da federação de futebol, Rafael del Castillo, estabeleceu a meta de se classificar a qualquer custo para a próxima Copa do Mundo, que seria realizada dois anos depois na Arábia Saudita. O técnico Francisco Avilán, junto com seu assistente Gerardo Gallegos, recorreram a um artifício: registrar secretamente jogadores mais velhos para facilitar a classificação.

Os jogadores foram informados de suas novas idades e pediram que memorizassem para não revelar o esquema. Inicialmente, ninguém suspeitou da fraude: a equipe cumpriu o objetivo e se classificou sem grandes problemas. Passaram por duas fases do torneio especial da CONCACAF (Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe) e ficaram em segundo lugar no torneio classificatório final.

É irônico que, alguns meses antes, em janeiro de 1988, a FIFA tivesse emitido um comunicado especial aos participantes, pedindo que não falsificassem a idade dos jogadores e evitassem manipulações na composição das equipes. Naquela época, casos semelhantes eram frequentemente revelados, inclusive em partidas internacionais, então o alerta foi feito. E não foi em vão.

A polêmica começou com o jornalista mexicano Antonio Moreno, do canal Imevisión (atual TV Azteca): ele e seu colega Alfredo Ruiz descobriram inconsistências no anuário de 1986-1987, publicado pela federação mexicana de futebol pouco antes das partidas decisivas das eliminatórias. As idades dos jogadores listadas não correspondiam às declaradas na inscrição para a CONCACAF.

Em 12 de abril de 1988, os jornalistas publicaram uma coluna anônima com suspeitas na edição do Ovación, e oito dias depois, quando a seleção juvenil jogava contra Cuba, Moreno pessoalmente publicou um artigo acusando os dirigentes de tentar “obter vantagem sobre os adversários, incluindo jogadores acima da idade permitida”.

A federação reagiu com raiva: o presidente Rafael del Castillo criticou os jornalistas e chamou tudo de mentira. Em resposta, Moreno ampliou ainda mais o escândalo por meio de seu colega da Imevisión, José Ramón Fernández, criador dos programas de TV *A la Misma Hora* e *DeporTV*.

Outros jornalistas se envolveram, começando a perguntar aos jogadores da seleção mexicana sub-20 sobre suas datas de nascimento e a buscar provas documentais. A federação remained em silêncio.

Mais tarde, Moreno contou que, após a publicação, inicialmente outros veículos de comunicação não quiseram abordar o tema por medo de represálias, embora também estivessem surpresos com o ocorrido. Os canais de televisão, em particular, que haviam comprado os direitos de transmissão do campeonato nacional, tinham muito medo – alguns até evitavam colaborar com Antonio, temendo perder privilégios da federação e o acesso a informações confidenciais.

Isso continuou até que o caso chegasse ao nível internacional – só então a imprensa se animou e apoiou a corrente geral. Os torcedores também reagiram de maneiras diferentes: alguns exibiam faixas nas arquibancadas com dizeres como “Por causa de vocês” ou “Traidores”, enquanto outros elogiavam a busca pela verdade.

A cúpula da federação foi banida permanentemente, e o México ficou de fora da Copa do Mundo de 1990. Tudo isso quando o principal atacante do país, Hugo Sánchez, estava no auge

Em 17 de abril de 1988, o jornal La Jornada publicou pela primeira vez documentos do atacante José Luis Mata – na inscrição para o torneio da CONCACAF, sua idade havia sido reduzida em quatro anos.

Algumas semanas depois, mais jogadores foram revelados: o atacante Gerardo Jiménez e o zagueiro José de la Fuente (ambos com idade real dois anos maior). E, em seguida, o quarto infrator: o zagueiro e capitão Aurelio Rivera, que era sete anos mais velho.

A escala poderia ter sido ainda maior: Rivera admitiu que na equipe, documentos de até 15 jogadores foram falsificados, mas suas palavras não foram confirmadas. Além disso, Aurelio acusou a equipe da Guiana de práticas semelhantes, com quem disputaram uma vaga nas Olimpíadas seis meses antes.

Jogadores da seleção sub-20 foram posteriormente interrogados pelo Ministério Público, e pelo menos quatro confirmaram a falsificação – justamente aqueles cujos nomes foram divulgados. Os resultados se espalharam rapidamente por todo o país, e a federação de futebol da Guatemala, onde o torneio classificatório ocorreu, apresentou uma queixa formal à CONCACAF.

As autoridades tentaram abafar o caso e influenciar a mídia. O ex-jornalista da La Jornada, Miguel Ángel Ramírez, contou em entrevista ao Mediatiempo que, após o início das investigações, representantes do partido governista PRI (Partido Revolucionário Institucional) foram ao escritório do jornal para tentar resolver a situação – provavelmente para evitar danos à imagem.

Mas o clima era muito sério – e o momento se tornou um ponto de virada na história do futebol mexicano. Imediatamente após o escândalo, a equipe sub-20 foi excluída da Copa do Mundo de 1989 e banida por dois anos, sendo substituída pelos Estados Unidos no torneio.

Toda a diretoria da federação local de futebol (quase duas dezenas de pessoas) foi banida permanentemente de qualquer atividade relacionada ao futebol, incluindo o presidente Rafael del Castillo – que pessoalmente viajou à sede da FIFA em Zurique e tentou resolver o caso por meio do gerente Guillermo Cañedo, que era conselheiro do presidente da organização, João Havelange.

Sem sucesso: o secretário-geral Joseph Blatter garantiu que nada seria feito. As sanções atingiram até mesmo o compilador do anuário que deu origem a tudo – ele era tesoureiro da organização.

A seleção principal do México também foi afetada, embora inicialmente planejassem punir apenas a equipe sub-20. A intransigência e a falta de respeito dos dirigentes mexicanos irritaram os representantes da FIFA e apenas pioraram a situação, resultando em punições ainda mais severas para a equipe principal.

Devido à desclassificação, o time perdeu a Olimpíada de 1988 em Seul e a Copa do Mundo de 1990 na Itália. Até hoje, essa é a maior desclassificação da história do futebol local. E uma catástrofe para as estrelas mexicanas da época: Hugo Sánchez, Jorge Campos e outros.

Sánchez, que na temporada 1989/90 marcou 42 gols em 44 partidas pelo Real, lamentou: “Aconteceu em 1990, quando eu estava no auge. Mas não fomos autorizados a participar daquela Copa do Mundo não por causa do escândalo, mas por aqueles que estavam envolvidos. Sinto que aquela Copa seria especial, para mim foi o melhor momento”.

Embora alguns meses após o incidente, o mesmo Sánchez tenha reagido de forma diferente: em junho de 1988, o jornalista mexicano Rafael Mejía entrou em contato com Hugo, e o jogador chamou o caso de “lamentável” e exigiu uma punição mais severa.

Após isso, toda a liderança do futebol foi completamente substituída. O autor da investigação, Antonio Moreno, expressou-se de forma mais concisa em abril deste ano: “Sem dúvida, este é o momento mais sombrio, doloroso, custoso e difícil da história do futebol mexicano”.

E ainda assim: a maldição funcionou? Os mexicanos acreditavam que sim

Com o tempo, a quinta partida na Copa do Mundo tornou-se um sonho inatingível – a barreira era tão intransponível que foi associada a um castigo sobrenatural.

Embora o México já tivesse jogado cinco partidas em uma Copa do Mundo antes (em casa, em 1986).

Talvez a maldição tenha afetado também o destino dos jogadores envolvidos. O mais triste foi o de Aurelio Rivera. Ele continuou sua carreira, mas em 1996 foi preso por quase dois anos: dirigia embriagado e atropelou dois corredores. Depois, jogou por mais alguns anos e em 2001 aposentou-se do futebol, desde então trabalha em um instituto esportivo em Puebla.

Outros passaram o resto da carreira em clubes menores, um dos jogadores tornou-se diretor esportivo e agora trabalha com jovens – dificilmente usa os mesmos métodos.

O povo estava convencido de que, após o escândalo, forças superiores amaldiçoaram a equipe: desde então, a seleção não disputou mais de quatro partidas em um único torneio da Copa do Mundo, embora sempre tenha participado. A contagem começou na Copa de 1994, quando o México já havia sido readmitido.

Por mais brilhantemente que jogassem, quatro partidas permaneciam o limite. Em 1998, quando o atacante Luis Hernández se tornou um dos melhores artilheiros do torneio com quatro gols, foram eliminados nas oitavas de final pela Alemanha, perdendo a vitória no final.

Não deu certo nem com outras superestrelas: nem mesmo com Cuauhtémoc Blanco, um dos melhores jogadores da história do país, passaram das oitavas de final. E ele é o único jogador mexicano a marcar gols em três Copas do Mundo – parece que sua magia não foi suficiente.

Agora a maldição foi quebrada – graças a Javier Aguirre, que assumiu a seleção pela terceira vez. Considerando que enfrentarão a Inglaterra no altitude da Cidade do México, há chances até de estabelecer um recorde nacional absoluto.

Alívio após décadas de obstáculos sobrenaturais.

Lara Faria

Ela é uma renomada jornalista esportiva, formada pela Faculdade de… More »

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5 Comentários

  1. É óbvio que nessa chave não vão deixar Inglaterra e Brasil avançarem, porque só essas duas seleções podem impedir o menino deles de chegar à final… Se na Copa passada arrastaram os Argos com pênaltis e árbitros, dessa vez eles se complicaram e manipularam o sorteio… Como podem estar na mesma chave Alemanha, Holanda, Portugal, França, Espanha… Aquele de Marrocos…
    O caminho será Argélia-Áustria-Jordânia-Cabo Verde-Egito-Colômbia… Isso é realmente uma Copa do Mundo? Ou é a liga conferência dos sem-teto? E, além de tudo, Infantino, através dos árbitros e do VAR, está afundando a chave oposta para se livrar da forte França, porque os Arges já envelheceram e, mesmo com árbitros e VAR, será difícil para eles…

  2. Faz muito tempo que o México não passa das oitavas de final na Copa do Mundo! Um arsenal no máximo!!!

  3. Que lógica é essa, palhaço?) Eles estavam no mesmo grupo, certo? Foram eliminados e foram eliminados, a principal ameaça lá é a França, e ontem o mundo inteiro viu como querem se livrar deles

  4. Não entendo muito bem por que todos estão dizendo que a maldição caiu, quando ela ‘caiu’ até agora exclusivamente porque foi adicionada uma fase extra. ‘No estilo antigo’, para que ela caísse, seria necessário passar das oitavas de final, e as chances, para dizer o mínimo, são grandes de que não passem.

  5. Acho que a maldição só será quebrada com a classificação para as quartas de final. Esse 5º jogo é uma farsa da FIFA))

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